Longe dos estereótipos: pesquisas exclusivas mostram retrato fiel dos conservadores brasileiros

Eles são mais diversos do que se pensa — em detalhamento que pede atenção dos candidatos em outubro

BATANEWS/VEJA


MOTOR - Marcha para Jesus em São Paulo: o conservadorismo cresce junto com o avanço do rebanho evangélico (Bruno Santos/Folhapress/.)

Um dos principais defensores da tradição e dos valores convencionais na virada do século, o filósofo e escritor britânico Roger Scruton (1944-2020) dizia que o conservadorismo é mais um “instinto” do que uma “ideia”. Para ele, quem advoga frear o ritmo das transformações na sociedade estaria agindo quase que inconscientemente para preservar pilares fundamentais — família, religião, cultura e comunidade. Esse raciocínio ganhou especial relevância ao longo da última década, quando vozes mais tradicionalistas, reagindo às vertiginosas mudanças sociais do pós-guerra, passaram a ecoar com renovado vigor em todo o Ocidente. Firmou-se então a imagem, forjada pela polarização ideológica, dos militantes dessa ala como seres machistas, autoritários, ultrarreligiosos e hostis ao Estado.

É retrato que pede um novo olhar. Uma pesquisa exclusiva com 2 413 entrevistados, realizada pelo instituto Vetor Arrow a pedido de VEJA, revela nuances surpreendentes entre os conservadores brasileiros, uma parcela que cresce principalmente na esteira do rebanho evangélico e já representa 53% da população, segundo um outro levantamento, da Quaest. Observa-se que essa turma se mostra muito mais disposta a dialogar com o presente do que retroceder algumas casas no tabuleiro da história — diagnóstico crucial em ano de eleições, visto retratar tamanha porção do eleitorado. “Quem quiser levar a faixa presidencial terá de mostrar que entende, respeita e conversa com quem tem essa visão de mundo”, avalia o cientista político Felipe Nunes, CEO da Quaest.

A percepção é corroborada por especialistas que passaram a buscar respostas menos óbvias ao analisar com lupa uma série de fenômenos que mobiliza multidões, distantes dos discursos únicos e simplistas contra “tudo isso que está aí”. Não há, enfim, um único e coeso grupo conservador. Há variedade, e ela precisa ser levada em conta. Sondagens qualitativas inéditas conduzidas por Esther Solano, professora de relações internacionais da Unifesp, identificaram cinco motores — ou tribos, digamos assim — que impulsionam o apego à tradição, à ordem e à hierarquia, mas ao mesmo tempo desafiam o lugar-comum. Quatro deles se destacam por professar um conservadorismo mais suave: as “antifeministas light”, que, no entanto, defendem a participação da mulher na sociedade; o “agronejo”, que mistura agronegócio com música sertaneja; o “pentecostalismo pop”, que encarna um jeito inédito de lidar com a fé cristã; e, sangue inovador no segmento, os “trabalhadores de app”, motoristas e entregadores de aplicativos, defensores ferrenhos do trabalho autônomo, mas com pinceladas de intervenção do governo aqui e ali. Numa ponta mais radical e descabida, emerge a turma da “masculinidade à antiga”, de jovens — em teoria, rebeldes — que pregam a superioridade do papel masculino sobre o feminino (veja personagens desses cinco grupos ao longo desta reportagem). “Os elementos tradicionais do conservadorismo são apresentados sob novos atores, agendas e formatos”, diz Esther Solano.

A pesquisa mostra que o viés tradicionalista é mais homogêneo na agenda dos costumes: seis em cada dez brasileiros admitem que, de fato, preferem preservar em vez de mudar valores familiares. O mesmo grupo, porém, modula posturas quando indagado sobre outras questões do debate nacional. Mais da metade — 53% — alega ter fé, mas diz que ela não interfere em suas escolhas políticas. A grande maioria (77%) acha que o governo deve estar presente, seja em todos os campos da economia (35%), seja para garantir ao menos educação, saúde e segurança (41%). Entre os conservadores entrevistados, apenas 18% defenderam a ultrapassada ideia de que o homem deve ser o único provedor da família e ter a palavra final nas relações a dois, enquanto expressivos 74% aprovaram a divisão de decisões e responsabilidades entre o casal (veja o quadro).

A derrubada de clichês exposta no levantamento adiciona novos desafios às campanhas dos dois nomes que partem na dianteira na corrida pela Presidência na eleição de outubro, uma vez que tanto o atual presidente, Lula, candidato do PT, quanto Flávio Bolsonaro, do PL, representam certos radicalismos que, em vez de atrair, podem repelir esse público. Não à toa, o filho e herdeiro político de Jair Bolsonaro, líder máximo da direita — o campo preferencial dos conservadores —, faz de tudo para se reposicionar mais ao centro, o que tem contribuído para aprofundar as crises internas que florescem em seu próprio quintal. Depois de ser lançado pelo partido, Flávio busca moderar o tom, deixando de lado temas que alimentam a rejeição nas urnas, como defesa das armas e a intolerância com a diversidade sexual, e chegou ao extremo de empregar publicamente o pronome neutro “todes”, linguagem típica da ala identitária da esquerda. “Temos rodado pesquisas qualitativas para avaliar como conquistar o voto conservador de forma mais concreta”, reforça o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), um dos conselheiros da campanha.

Os conservadores contemplam um vasto agrupamento que engloba mais de 82 milhões de eleitores e ultrapassa bastante o contingente dos 35% que se declaram de direita. De olho nessa zona cinzenta do bloco conservador, onde em princípio não é bem recebido, o PT vem tentando agradar pela via da economia, ao encampar propostas como a extinção das bets, alternativa para os brasileiros afetados pelo endividamento causado pelas apostas, para as quais a turma conservadora tende a torcer o nariz. Escalado para viajar o país encontrando-se com lideranças populares, sempre atrás de votos, Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral da Presidência, afina o discurso mirando preocupações desse estrato — tem batido nas teclas da saúde financeira das famílias e da necessidade de os pais encurtarem o batente para dedicar mais tempo aos filhos. “É preciso sair da cortina de fumaça do conservadorismo e debater a vida concreta”, defende o deputado Rogério Correia (PT-MG).

Novidade no duelo das urnas, os motoristas e entregadores por aplicativo, indivíduos de tendência conservadora em palavras e ações e mobilizados em prol de melhores condições de trabalho, compõem atualmente um bloco de eleitores que faz brilhar os olhos de qualquer candidato: entre 2022 e 2024, o número de cadastrados cresceu 25% no Brasil, chegando a quase 2 milhões de pessoas. Dentre eles, 71% atuam sem contrato formal, muitos por opção própria — de acordo com o levantamento da Arrow, 46% preferem trabalhar como autônomos a contar com os direitos assegurados em carteira pela CLT. “Prezo mais a liberdade do que a segurança financeira”, afirma Rennan Damásio, 34 anos, que já foi militar, empresário e, desde 2019, atua como motorista de Uber. “Trabalho dez horas por dia e tenho renda mensal de 5 000 reais, acima da média nacional”, conta ele, que investe 10% dos ganhos no mercado de ações.

O discurso liberal do ponto de vista econômico, típico dos conservadores, amolece um pouco quando a ação do Estado facilita a obtenção de alguns direitos. Como se trata de um setor ainda pouco regulamentado, o governo aproveita a brecha para apresentar projetos, com o intuito de tentar conquistar corações, mentes e votos. “Essas pessoas não querem carteira assinada porque ela virou sinônimo de prisão, mas almejam algumas garantias, como seguro em caso de acidente e diminuição da comissão retida pelos apps”, explica o sociólogo Ricardo Festi, da UnB.

Um dos palcos da nova embalagem conservadora são as igrejas evangélicas, ciosas da tradição na pauta dos costumes, mas surpreendentemente abertas em outras áreas. Trata-se justamente de público disputadíssimo, com franco pendor antipetista, e conhecê-lo nos detalhes será indispensável nas próximas eleições. “O discurso conservador encontra nos templos um terreno fértil para prosperar, em um movimento que combina a política com a religião”, afirma Ana Carolina Evangelista, diretora-executiva do Instituto de Estudos da Religião. É nesse caldo que a defesa de valores tradicionais vem acompanhada de interpretações particulares do texto sagrado que mesclam avanço espiritual com receitas de sucesso no mundo terreno. “A gente não flexibiliza os princípios bíblicos, só tenta transmitir isso de uma forma que as pessoas entendam”, diz João Guilherme Ferreira, 26 anos, frequentador da Novos Começos, denominação que promove cultos específicos para diferentes faixas etárias. Faz parte da doutrina renovada, inspirada em conselhos motivacionais e de autoajuda, a promoção de verdadeiras baladas gospel, em ambientes com luzes, som e empolgação semelhantes aos das casas de shows.

O enfraquecimento da ortodoxia na escolha do estilo de vida fica ainda mais evidente na indústria cultural, uma espécie de catalisadora dos comportamentos e preferências que rondam o espectro político. O “agronejo”, movimento que une a pujança do agronegócio com uma música sertaneja em tons de modernidade, exalta em prosa e verso os rincões do interior, até pouco tempo atrás vistos como terra de caipiras atrasados. Com bases eletrônicas que se aproximam mais do funk do que da moda de viola, a cantora Ana Castela, expressão máxima da corrente, reúne milhares de fãs em apresentações superproduzidas. “O amarelo é a soja, o verde é o pasto, o azul abençoa o branco das cabeças de gado”, canta ela no hit Hino Agro. “A defesa de uma identidade baseada no campo é um valor em si”, aponta Gustavo Alonso, autor de Cowboys do Asfalto: Música Sertaneja e Modernização Brasileira. “Esse gênero acaba se unindo ao conservadorismo nos costumes e na política.”

O encontro se dá em um campo próspero e produtivo. A música sertaneja dos novos tempos reveste do chamado soft power um setor que, segundo o IBGE, cresceu 11,7% no ano passado, faturando quase 800 bilhões de reais. O desempenho teve impacto direto nos estados produtores, como Goiás, onde a expansão do PIB foi de 4,4%, o dobro da média nacional. “Está todo mundo de chapéu e bota. É bem legal de ver, porque antigamente o visual era motivo de chacota”, comemora a autointitulada “agrogirl” paranaense Lediane Salake, 23 anos, agricultora e pecuarista. Ainda que não sejam explícitas, as engrenagens que fazem essa máquina rodar obedecem à lógica da guerra cultural, conceito criado pelo sociólogo americano James Davison Hunter nos anos 1990. Deflagrado pelo movimento dos conservadores para reverter a trajetória do pêndulo ideológico que, desde a década de 1960, se movimenta para o progressismo, com a revolução sexual, o feminismo e a ampliação de direitos civis de minorias, o embate, hoje em sua potência máxima, extrapola ideologias e se dissemina planeta afora.

O efeito se faz sentir em toda parte, com diversos representantes do populismo de direita vencendo eleições nos Estados Unidos, na Itália, no Chile, no Paraguai e se expandindo na França, Alemanha e Reino Unido. A resistência conservadora segue sendo uniforme e consistente em relação a propostas mais polêmicas, como legalização do aborto e reconhecimento de pessoas trans. Mas conquistas estabelecidas, como a questão da igualdade entre sexos, são, sim, valorizadas no universo do conservadorismo — embora se rejeite, com tintas de heresia, o conceito do feminismo histórico. “As mulheres conservadoras caracterizam as feministas como inimigas dos homens, um estereótipo que se contrapõe ao que elas entendem como ser feminina”, observa Lilian Sendretti, uma das autoras do livro Feminismo em Disputa. “Nós temos que abrir nossos espaços sem pedir licença ou realizar protestos”, defende Angélica de Oliveira, 38 anos, que se classifica como antifeminista e rejeita qualquer tentativa de organização social com base em gênero. “Não somos nem incapazes nem dependentes dessas correntes”, proclama.

No caminho oposto, um número crescente de adolescentes e jovens na casa dos 20 anos, que em outros tempos iam para a rua contra o status quo, se une em torno da ideia de uma primazia masculina que, não raro, resvala para um assumidíssimo machismo, caso dos red pills. Embora barulhentas, as palavras de ordem dos “novos machos” até agora ficam circunscritas, em grande parte, a influenciadores que exploram algoritmos ávidos por extremismos. “As mulheres vêm há anos reivindicando igualdade, e a masculinidade começou a entrar em crise. Muitos não aceitam a mudança”, diz a socióloga Marcela Castro, da Universidade Federal do Piauí. No ideário desses neoconservadores, o relógio do tempo volta atrás e elas ficam com as tarefas domésticas, enquanto eles assumem o papel de provedor. “O homem traz segurança e faz com que a esposa se sinta amada e protegida”, afirma o terapeuta de casais Éric Reis, 37 anos, que é contra o discurso de ódio. De nuance em nuance, absorvendo novidades aqui e mergulhando no passado ali, os conservadores contemporâneos vão se impondo como uma força decisiva nos rumos da sociedade — e nos resultados das eleições de outubro.

Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993