Caso Ramagem põe governo na mira da oposição e abre outra frente de atrito com Trump

É preciso saber se Lula estará interessado em esclarecer esse episódio ou se vê nele apenas mais uma oportunidade para fazer proselitismo eleitoral

BATANEWS/VEJA


NO ATAQUE - O ex-deputado critica a PF em vídeo gravado após sair da prisão: “Polícia de jagunços' (Reprodução/Instagram)

No dia 13 de abril, o governo brasileiro apressou-se em comemorar a prisão, em Orlando (EUA), do ex-diretor geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e ex-deputado Alexandre Ramagem, que fugiu do Brasil após ser condenado pelo Supremo a dezesseis anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Em nota, a Polícia Federal disse que a detenção era “fruto de cooperação internacional entre os dois países”, o que embalou o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um dia depois, de que o detido é um “golpista que tem que voltar para o Brasil para cumprir a sua pena”.

O governo esperava que ele ficasse preso até a análise de um pedido de extradição, mas se surpreendeu quando ele foi solto após dois dias. Pior: a gestão petista ficou numa saia justa diplomática e política ao ver o Departamento de Estado americano exigir que um representante da PF deixasse o país por ter, nesse episódio, manipulado “o sistema de imigração para “contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos”.

O desdobramento da reviravolta se refletiu em várias frentes. O primeiro foi abrir o flanco para o contra-ataque de Ramagem, que, logo após ser solto, gravou um vídeo no qual elogiou a administração Donald Trump e os aliados bolsonaristas que o ajudaram nos EUA, como o ex-deputado Eduardo Bolsonaro e os influenciadores Paulo Figueiredo e Allan dos Santos. E mirou fortemente a PF — que chamou de “polícia de jagunços” — e o seu diretor-geral, Andrei Passos Rodrigues, que classificou como “uma vergonha”. Ramagem, que é ex-delegado da PF, criticou ainda o delegado Marcelo Ivo de Carvalho, o representante da PF que teria atuado para sua prisão, era a ele que o Departamento de Estado se referia como a pessoa que teria manipulado o sistema de imigração. “Quem está demonstrando que pode estar sorrateiro aqui não sou eu. O adido da PF que venha falar comigo de frente. Não tenho nada a esconder, muito pelo contrário”, ameaçou Ramagem. Ele disse ainda que estava regular no país, apesar de o visto de turista ter expirado em março, porque aguarda o desfecho do pedido de asilo político.

Na esteira do episódio, deputados do PL apresentaram um requerimento para que Andrei Rodrigues vá à Comissão de Relações Exteriores da Câmara, controlada pelo bolsonarismo. O principal ponto a ser focado será a nota da PF sobre a tal cooperação entre os dois países. Também haverá questionamentos sobre a manipulação denunciada pelos EUA. O deputado Helio Lopes (PL-RJ) entrou com um pedido de impeachment do ministro da Justiça, Wellington Lima e Silva, a quem a PF é subordinada. “Um episódio que causa preocupação, não apenas pela conduta individual, mas pelos possíveis impactos na credibilidade das instituições brasileiras”, diz Lopes. O caso também serviu para dar novo gás à trupe bolsonarista que tenta influenciar o trumpismo contra o Brasil. “Ainda estamos aqui”, postou Eduardo na quarta 22, com foto ao lado de Ramagem e Allan dos Santos. Antes, havia elogiado Trump e o secretário de Estado, Marco Rubio, e chamado Ramagem de “herói nacional”.

Diante da contraofensiva, o governo Lula decidiu dobrar a aposta. Andrei Rodrigues anunciou a retirada das credenciais de um policial americano que atuava como oficial de ligação entre Brasil e Estados Unidos. “Esse policial americano deixa de ter acesso a nossa unidade, assim como nosso servidor em Miami teve”, disse Rodrigues, que negou qualquer procedimento irregular da PF em solo estrangeiro. A medida veio logo após Lula dizer que poderia adotar a política de reciprocidade no caso, mesma posição adotada pelo Ministério das Relações Exteriores. “O governo brasileiro aplicará o princípio da reciprocidade diante da decisão sumária contra o agente da Polícia Federal, que não foi precedida de qualquer pedido de esclarecimento ou tentativa de diálogo sobre o caso”, disse o Itamaraty. Logo depois, Lula, em vídeo ao lado de Andrei Rodrigues e de Wellington Lima e Silva, elogiou a PF pela medida: “O que eles fizeram conosco, a gente vai fazer com eles”.

A postura de Lula sinaliza, mais do que a reação de um país ofendido, uma estratégia eleitoral. O petista parece acreditar que é possível resgatar algum tipo de animosidade com Trump e, com isso, melhorar a popularidade do presidente, que patina na rejeição de quase metade da população. Em maio de 2025, acossado pelo escândalo do INSS, Lula estava nas cordas e foi salvo pelo tarifaço imposto pelos EUA e pela atuação desastrada de Eduardo Bolsonaro, amplamente rejeitados pelo eleitorado. O discurso de defesa da soberania, a pregação antitrumpista e o esforço para colar a imagem de traidores da pátria ao clã Bolsonaro e seus aliados tomaram as redes sociais, mobilizaram a militância e a propaganda do governo e tiraram Lula do sufoco.

O petista já vinha esboçando uma nova cruzada contra Trump ao criticá-lo pela guerra no Oriente Médio. Antes, havia ido nessa mesma direção nas polêmicas envolvendo as críticas americanas ao Pix, a tentativa do governo dos EUA de classificar as facções PCC e Comando Vermelho como terroristas e até a revogação do visto do enviado Darren Beattie, do Departamento de Estado americano, após ele tentar visitar Jair Bolsonaro na prisão. “Nós queremos que as coisas aconteçam da forma mais correta possível, mas nós não podemos aceitar essa ingerência e esse abuso de autoridade que algumas personalidades americanas querem ter com relação ao Brasil”, disse Lula na quarta 22.

O desfecho do caso Alexandre Ramagem tem alto potencial de combustão eleitoral. Há duas alternativas mais óbvias para o fim do imbróglio. A primeira é o governo americano conceder sua extradição. Nesse caso, Lula poderá explorar o episódio como a confirmação de que houve tentativa de golpe de Estado, tanto que até um governo aliado do bolsonarismo entendeu que Ramagem deveria cumprir sua pena. O outro desfecho seria os EUA darem asilo político a Ramagem, o que seria amplamente explorado para atacar não só Lula como o STF. A direita tenta há tempos emplacar a tese de que é alvo de perseguição política e judicial, o que ainda não conseguiu, tanto que dezenas de condenados e investigados fugiram para países governados pela direita, como Argentina, Itália e EUA, e pediram asilo político, sem sucesso. Ramagem não só seria o primeiro, mas o maior de todos os foragidos — ele integrava o núcleo 1 da trama golpista, ao lado de Bolsonaro e de militares graúdos. “Ramagem tem todos os requisitos para um asilo e a perseguição a ele, bem como a conduta dos julgadores, é reconhecida e objeto de sanções pelo governo americano. É claro que a conduta do delegado Marcelo Ivo só corrobora o perigo”, diz Paulo Figueiredo, que, além de ativista de direita, é sócio da Immigrex, que dá consultoria em processos migratórios, como asilo e vistos, e está ajudando Ramagem.

Os Estados Unidos recebem uma enormidade de pedidos de asilo do mundo todo, de cidadãos que apontam perseguições devido a religião, nacionalidade, afiliação a um determinado grupo social ou opinião política. O prazo para requisição é de um ano desde a chegada ao solo americano, e o caso pode ser avaliado em até 180 dias — salvo em circunstâncias excepcionais. Na outra ponta, o governo brasileiro enviou pedido de extradição no final de janeiro. Os dois países têm um tratado, desde 1961, que prevê a extradição de indivíduos que tenham cometido 34 crimes, como homicídio, fraude e tráfico de drogas — não há citação a tentativa de golpe de Estado.

Os EUA, como outros países, exigem que os crimes pelos quais o acusado responde sejam equiparados aos previstos na legislação do país. Diante disso, a tentativa de alegar perseguição política e ideológica é a pedra de toque da argumentação de Ramagem. Para Roberto Goulart Menezes, professor de relações internacionais da UnB, o caso de Ramagem é diferenciado também porque ele foi diretor da Abin, entre 2019 e 2022, e parlamentar. “Os Estados Unidos têm interesse nele. Ramagem tinha contato com outras agências de inteligência pelo trabalho dele”, disse.

A prisão e soltura de Ramagem ainda tem muitos pontos obscuros. Não está claro como foi a detenção pelo ICE (a polícia de imigração), nem o que a motivou e qual foi a participação da PF, que seguirá sendo questionada sobre a acusação de manipulação feita pelos EUA. Falta também explicar melhor por que o governo celebrou a prisão como decorrente de seu esforço, para ver logo em seguida o ex-chefe da Abin solto e disparando contra as autoridades brasileiras. Por fim, é preciso saber se Lula estará interessado em esclarecer esse episódio ou se vê nele apenas mais uma oportunidade para fazer proselitismo eleitoral.

Publicado em VEJA de 24 de abril de 2026, edição nº 2992