Mercado de máquinas agrícolas caminha para o quinto ano de queda

Apesar da queda nas vendas no setor, a 31ª edição da Agrishow deve manter perspectiva positiva, com foco em vendas e novidades tecnológicas.

BATANEWS/BRASILAGRO


Apesar do cenário, o setor não acredita que os fatores vão comprometer os negócios na Agrishow.Foto Daniel Teixeira Estadão

A projeção de queda nasvendas de máquinas agrícolas em 2026, que pode marcar o quinto ano consecutivo de retração, reforça um movimento de desaceleração no setor. AAssociação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), que apresentou dados do segmento em coletiva de imprensa na quarta-feira, 15, estima a comercialização de 46,7 mil unidades, o que representaria uma queda de 6,2% frente a 2025. Segundo aAssociação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), o encolhimento deve comprometer o faturamento em 8%.

O desempenho negativo esperado está ligado à perda de rentabilidade do produtor rural e às dificuldades de acesso ao crédito, segundo o presidente da Anfavea, Igor Calvet. Ele afirma que ataxa básica de juroselevada, atualmente em 14,75% ao ano, é um dos principais entraves à renovação de frota e a novos investimentos no campo.

Além docréditomais restrito, o cenário internacional pressiona o setor. Tensões geopolíticas, como o conflito envolvendoEstados UnidoseIrã, têm elevado os custos de insumos essenciais, especialmentefertilizantesediesel, pressionando as margens dos agricultores.

Otimismo do setor

Apesar desse cenário, o setor não acredita que os fatores vão comprometer os negócios naAgrishow, a maior feira de tecnologia agrícola da América Latina, marcada para o período de 27 de abril a 1º de maio, em Ribeirão Preto (SP).

Não tem como a Agrishow ser ruim. O que pode acontecer é a feira espelhar um pouco do momento que estamos vivendo.

Pedro Estevão, presidente da Câmara Setorial de Máquinas Agrícolas da Abimaq

Para Pedro Estevão, presidente da Câmara Setorial de Máquinas Agrícolas da Abimaq, a feira, além de funcionar como termômetro do mercado ao longo do ano, concentra esforços de venda, com condições especiais de financiamento, aliadas à busca por novidades tecnológicas.

“Por isso, não tem como ser ruim”, diz. “O que pode acontecer é a Agrishow espelhar um pouco do momento que estamos vivendo. Mas, independentemente dos valores negociados,(a feira)vai continuar relevante para o total de vendas do ano das empresas.”

Na edição de 2025, a Agrishow movimentou R$ 14,6 bilhões em intenções de negócios, crescimento de 7% na comparação com o ano anterior. Para o evento de 2026, os organizadores, entre eles, a própria Abimaq, preferiram não divulgar expectativas.

Sequência de quedas

Se confirmadas as projeções, o setor chegará ao quinto ano consecutivo de queda nas vendas de máquinas agrícolas.

Apesar de ainda sustentar volumes relevantes, o setor enfrentou, nesse período, desaceleração nos investimentos, influenciada pela queda nos preços de commodities importantes, comosojaemilho, e pela redução na oferta de crédito rural. “Os bancos estão fazendo muitas exigências para emprestar, por causa da inadimplência, em torno de 7%”, diz Estevão.

Programas de financiamento tradicionais, como o Moderfrota, também tiveram menor alcance, contribuindo para frear a demanda por novos equipamentos. Esse cenário limitou a capacidade de crescimento da indústria e preparou o terreno para a retração projetada em 2026.

“Como as commodities são cotadas em dólar, à medida em que ele cai, a rentabilidade do agricultor também cai. E, com isso, ele adia investimento em maquinário”, afirma Pedro Estevão, presidente da Câmara Setorial de Máquinas Agrícolas da Abimaq.

Apesar da sequência negativa de vendas, o faturamento fechou 2025 no azul, com aumento de 7% sobre 2024, segundo a Abimaq. O resultado foi puxado por um primeiro semestre bastante positivo, quando o crescimento, na comparação com o mesmo período de 2024, chegou a 20%.

“Já o segundo semestre não foi tão bom. A virada coincidiu com o tarifaço(de até 50% imposto porDonald Trumpsobre vários produtos brasileiros)e com a queda dodólar”, analisa Estevão. “Como as commodities são cotadas em dólar, à medida em que ele cai, a rentabilidade do agricultor também cai. E, com isso, ele adia investimento em maquinário.”

“A taxa básica de juros elevada, atualmente em 14,75% ao ano, é um dos principais entraves à renovação de frota e a novos investimentos no campo”, afirma Igor Calvet, presidente da Anfavea.

No primeiro bimestre de 2026, as vendas de máquinas agrícolas caíram 17%, segundo a Abimaq. “Foi uma redução grande porque a comparação é com os primeiros meses do ano passado, que foram muito bons. Considerando todo o ano, devemos fechar com queda de 8%”, completa Estevão.

Pressão externa e avanço das importações

O aumento da concorrência internacional passou a pressionar a indústria nacional. Em 2025, as importações de máquinas agrícolas, especialmente daChinae daÍndia, cresceram de forma significativa, o que, segundo Calvet, da Anfavea, agrava o cenário para fabricantes locais, que enfrentam custos de produção mais elevados e perda de competitividade. Produtos estrangeiros chegam ao mercado brasileiro com preços até 27% menores.

Para a Anfavea, a recuperação do mercado dependerá principalmente de uma melhora nas condições de financiamento e da recomposição da rentabilidade no campo. Sem essas mudanças, a tendência é de continuidade do ritmo mais lento de investimentos, tanto por produtores quanto por empresas do setor.

A entidade também defende medidas para fortalecer a indústria brasileira diante do avanço das importações, sob risco de perda de participação no mercado e impactos no emprego e na cadeia produtiva. Tanto que prepara um documento com reivindicações a ser entregue aos futuros candidatos à Presidência da República.

Na visão de Estevão, da Abimaq, a recuperação no curto prazo depende de medidas governamentais que ampliem a disponibilidade de crédito. “Isso porque os preços das commodities não devem melhorar tão logo, o câmbio não me parece que volta ao patamar de R$ 6 e, em razão da guerra, a taxa de juros não deve cair” (Estadão, 17/4/26)