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O fenômeno psicológico que expõe o lado sombrio da espiritualidade | Conta-Gotas
Psicóloga explica o chamado "spiritual bypassing" (ou desvio espiritual), situação cada vez mais comum que pode boicotar a saúde mental
BATANEWS/PODER360
A busca por bem-estar e sentido se tornou quase um imperativo na era da hiperconexão. Em meio ao excesso de informação nas redes sociais, à velocidade do cotidiano moderno e ao cansaço coletivo, cresce o interesse por práticas espirituais que prometem paz, expansão da consciência e uma vida mais leve.
Meditação, ioga, terapias energéticas, retiros e filosofias milenares deixaram de ser nicho e viraram rotina comum. A espiritualidade, que antes era restrita a tradições e religiões específicas, hoje se apresenta sob diversas formas, acessível, adaptável e, muitas vezes, sedutora.
Mas há um lado menos visível e pouco discutido nessa popularização: quando ela deixa de ser apoio e começa a funcionar como mecanismo de fuga emocional.
O psicólogo John Welwood cunhou o termo spiritual bypassing, ou desvio espiritual, para descrever o uso de crenças e práticas espirituais como forma de evitar lidar com dores, traumas e conflitos internos. Em vez de atravessar a experiência humana em sua complexidade, tenta-se transcendê-la prematuramente.
Esse processo pode ser sutil e até socialmente validado. Frases como elevar a vibração, focar no positivo ou dizer que tudo é apenas ego podem, em determinados contextos, servir como atalhos que silenciam emoções legítimas. A dor não é acolhida, é contornada.
Em quadros como burnout, luto ou ansiedade, esse desvio pode ser particularmente perverso. Em vez de buscar suporte psicológico, elaborar perdas ou reconhecer limites, a pessoa recorre a exercícios espirituais como uma espécie de anestesia psicológica.
O sofrimento não desaparece: apenas muda de forma e, muitas vezes, fica ainda mais profundo.
Entre os sinais mais comuns estão a negação da própria dor, a minimização de sentimentos difíceis, a positividade tóxica, o desapego usado como distanciamento emocional e a ideia de que tudo é ilusório como justificativa para não se implicar com a própria vida.
O problema não está na espiritualidade em si, mas na maneira como ela é utilizada. Existe uma diferença fundamental entre uma busca interior que integra e uma que aliena. A primeira amplia a consciência sem negar a experiência humana. A segunda tenta trocar a realidade por uma versão idealizada dela.
A espiritualidade integrada não elimina o conflito, ela oferece recursos para enfrentá-lo. Já a alienante cria uma sensação de evolução que pode afastar a pessoa de si mesma. Uma prática espiritual emocionalmente responsável não substitui o enfrentamento psíquico, ela o acompanha.
Significa reconhecer emoções, procurar ajuda psicológica quando necessário, sustentar limites e compreender que crescimento não é ausência de desconforto, mas a capacidade de passar por esses momentos com discernimento.
Talvez o maior equívoco do nosso tempo seja acreditar que despertar é deixar de sentir. Quando, na verdade, é exatamente o contrário: ter coragem de sentir tudo com presença, responsabilidade e verdade.
*Veja / Gabriela Picciotto* - Gabriela Picciotto é doutora em psicologia, terapeuta e consultora organizacional. É autora de Voz da Alma – Um guia prático para se reconectar com sua essência, obra que acaba de ser publicada pela Literare Books International




