Famílias vivem dilema sobre monitorar ou não o celular de idosos

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Aposentada mexe no celular; os smartphones se disseminaram entre idosos - Mathilde Missioneiro - 20.ago.2025/Folhapress

Mal passou a fase de se preocupar com o que os filhos fazem no mundo digital, a geração sanduíche agora se volta à relação dos pais idosos com a tecnologia.

Esse grupo de adultos de meia-idade é aquele 'ensanduichado' entre os cuidados com os filhos e com os pais. E que se depara com dilemas novos na sociedade diante do aumento da longevidade e da disseminação dos smartphones, inclusive entre os mais velhos.

Esse cenário leva as famílias a se preocuparem com perigos como os golpes, os cassinos online e até o vício em smartphones, que rondam qualquer pessoa hoje em dia, e os idosos em particular.

A tecnologia torna-se, portanto, uma camada fundamental do debate sobre como equilibrar o respeito à autonomia dos mais velhos e a necessidade de apoiá-los.

'Muitas famílias acabam tendo de estabelecer um controle parental dos idosos', diz o psiquiatra Rodrigo Machado, coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo).

O controle parental, nesse caso, inverte a sua lógica original, que é a do monitoramento que os pais fazem das atividades online dos filhos crianças e adolescentes, para tentar protegê-los de riscos do uso inapropriado.

É um assunto delicado na relação entre os idosos e seus familiares, e, na avaliação de Rodrigo Machado, um profissional da saúde pode ajudar. Tanto para avaliar a necessidade ou não de algum controle parental como para mediar as conversas nas famílias a fim de definir em que momento fazer isso, e como.

'Quando é um idoso mais vulnerável, já apresenta dificuldades visuais, auditivas e, principalmente, tem algum comprometimento cognitivo, costumo recomendar a utilização de aplicativos de controle parental, para os familiares poderem monitorar o que o idoso está utilizando no celular, o tempo de uso etc.', afirma. 'Há ferramentas que implementam barreiras contra os golpes online, por exemplo, que visam muito as pessoas mais velhas. Essa supervisão é importante.'

Quando é um idoso mais vulnerável, já apresenta dificuldades visuais, auditivas e, principalmente, tem algum comprometimento cognitivo, costumo recomendar a utilização de aplicativos de controle parental, para os familiares poderem monitorar o que o idoso está utilizando no celular, o tempo de uso etc

psiquiatra e coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da USP

O psiquiatra diz que é preciso analisar quando o juízo crítico está sendo afetado. Independentemente da idade, a percepção da tecnologia pode seguir afiada. 'A minha mãe, por exemplo, tem 72 anos, é médica ativa, trabalha. Se eu falar para ela que eu vou colocar um controle parental no celular dela, ela vai me matar', brinca o médico. 'Ela está na terceira idade, mas obviamente não precisa disso.'

Com ou sem controle parental, o diálogo sobre o uso da tecnologia torna-se essencial nas famílias. Projetos de educação midiática (para desenvolver o senso crítico e uma relação mais saudável com a tecnologia), antes concentrados em crianças e adolescentes, passaram a se voltar aos idosos —o governo federal tem, inclusive, uma plataforma que concentra materiais voltados a esse público.

'Existe muita demanda das pessoas mais velhas para entender como utilizar a tecnologia', diz Kamila Rios, professora do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP, em São Carlos (interior de SP), que tem se dedicado a projetos de pesquisa e de cursos de extensão de tecnologia para idosos.

'Tenho muitos alunos de mestrado e doutorado que estão estudando soluções dirigidas a esse público, como cursos e aplicativos para detectar fake news. As pesquisas apontam que os idosos são os que mais disseminam notícias falsas, não só no Brasil', lembra a professora, que recentemente elaborou um curso sobre IA para idosos, em parceria com uma aluna de doutorado, Camila Lira.

A psicóloga especializada em gerontologia Jeane Silva, que trabalha em projetos sociais com idosos na zona leste de São Paulo, conta que eles cada vez mais procuram auxílio para utilizar os smartphones. 'Isso está acontecendo principalmente porque agora precisam acessar no celular serviços essenciais, como os da plataforma do governo federal [Gov.br]', diz.

De acordo com a pesquisa TIC Domicílio 2025, 71% do total de internautas brasileiros com mais de 16 anos utilizaram o Gov.br; no caso dos 60+ foram 53%. Dentre aqueles com mais de 60 anos que não utilizaram o serviço, 73% disseram preferir fazer o contato pessoalmente, 55% têm preocupação com a segurança de dados e 39% acharam difícil realizar o serviço pela internet.

Jeane reforça a necessidade de alertá-los para os golpes, reiteradamente, inclusive porque os criminosos aprimoram seus métodos.

'Já aconteceu de eu ficar um mês falando sobre golpes para um grupo de idosos, e, mesmo assim, eles acabarem caindo', conta a psicóloga.

Ela diz que muitas famílias também se preocupam com namoros que começam online. 'Um rapaz me procurou recentemente porque a sogra dele, que é idosa, estava indo para Holambra [interior de SP] se encontrar com um homem que havia conhecido em um aplicativo. Ele estava preocupado', conta.

Outra questão apontada pela psicóloga é o acesso a conteúdos sexualizados e mesmo à pornografia, principalmente entre os homens, que muitas vezes precisam ser orientados sobre cuidados com a privacidade. 'Outro dia, no NCI [Núcleo de Convivência do Idosos], tinha um grupo de idosos em torno de um celular. Eram 8 horas, e eles estavam assistindo a um vídeo que mostrava a drenagem linfática no bumbum de uma mulher', lembra. 'E a pornografia nos smartphones é muito acessada por idosos', afirma.

Isabela de Paula Jesus, assistente de atendimento aos idosos do residencial israelita Albert Einstein, da Vila Mariana (zona sul de São Paulo), diz que esse é um ponto de atenção ultimamente. 'Os idosos começam a ver umas fotos, o algoritmo percebe e começa a mandar muito conteúdo. E eles muitas vezes não sabem bem compartilhar, postam vídeos pornográficos no status, por exemplo.'

Acontece também de assistirem a vídeos pornôs em alto volume, especialmente em razão das dificuldades auditivas. 'Claro que não tem problema acessar esse conteúdo, a sexualidade é natural no ser humano, e tem gente que gosta de pornografia', diz a assistente social Maria Laura Barreto, 44, responsável pelo atendimento aos idosos no residencial. 'Mas muitas vezes acaba o filtro, e a gente precisa orientar sobre como assistir, para que façam isso com privacidade.'

A falta de filtros e de senso crítico, obviamente, não é exclusiva de idosos. E há pessoas mais velhas que utilizam a tecnologia com habilidade, prudência e reflexão. 'Toda a tecnologia tem um lado maravilhoso, claro que o celular nos traz grandes coisas. Mas hoje ele nos escraviza. O celular não é um apêndice nosso; nós é que já passamos a ser um apêndice do celular', afirma Bruno Kampel, 81, que é poeta, ensaísta e costuma escrever sobre esse tema nas redes sociais.

Ele mora no residencial do Einstein e auxilia outros residentes que lhe pedem ajuda para utilizar os smartphones. Mas Bruno evita o aparelho, que usa mais para fazer fotografias de arranjos de flores, além de editá-las, inclusive com IA.

'Tem que aproveitar o lado bom, e eu aproveito. Faço minhas fotos, falo com quem eu tenho que falar, mas não dou a importância que hoje se dá ao celular', diz. 'Atualmente as pessoas não conseguem ler direito, escrever direito, e até se comunicar presencialmente. Já vi filho falando com a mãe pelo celular, com os dois dentro da mesma casa', diz.

'O celular está ocupando o papel da mãe, do pai, dos avós. Crianças que não sabem ler já estão com o celular na mão', critica. 'Você não fala com ninguém, até para pedir comida aperta-se um botão. Não quero isso. Quero conversar. Quero xingar a pessoa, quero que a pessoa me xingue. Faz parte da vida. E brincar com as pessoas. Vou brincar com o celular?'