A grave crise da diálise: uma história que perdura no Brasil

Falta de vagas em unidades ambulatoriais transforma leitos de UTI em espaços de espera para pacientes renais; SUS paga hemodiálise 96% abaixo da inflação

BATANEWS/VEJA


Hemodiálise: falta de unidades de diálise faz pacientes aguardarem vaga em leitos hospitalares (skaman306/Getty Images)

Às duas da manhã, três vezes por semana, Ednólia já está de pé em Baião, no interior do Pará. Aos 71 anos, atravessa a cidade para esperar o carro que a leva para Belém, onde faz hemodiálise — uma viagem de quase cinco horas, que às vezes se estende por seis. Na volta, depois de três horas e meia ligada à máquina, repete o percurso até chegar em casa. “É uma viagem cansativa. Quebrei o fêmur depois de uma queda e sinto dores; ficar muito tempo sentada no carro acaba piorando”, relata a aposentada.

Até 2024, ela nunca havia precisado de diálise. Procurou atendimento quando começou a perceber o corpo inchado. “O médico olhou para mim e disse: ‘A senhora tem que viajar urgente para Belém. Seus dois rins estão quase parados’”, relembra. Desde então, a rotina da família passou a girar em torno das sessões. Sem condições de morar na capital, passou a utilizar o transporte oferecido pela prefeitura — ainda que parte do trajeto precise sair do próprio bolso. A cada deslocamento, um dos filhos a acompanha, o que compromete a regularidade do trabalho e a renda da casa. “Quando chamam meus filhos para trabalhar, querem que eles vão todos os dias. Mas há dias em que precisam me acompanhar. E, assim, ninguém quer.”

A 2.997 quilômetros de distância, Adenice Queiroz vive uma realidade semelhante na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Hoje com 60 anos, ela convive com a doença renal crônica desde os 40, quando recebeu o diagnóstico após a segunda gravidez. “Descobri que era renal crônica quando minha filha já tinha seis meses”, conta. Na época, precisou se deslocar de São Roque até Duque de Caxias para fazer hemodiálise, três vezes por semana. O trajeto levava cerca de uma hora e incluía ônibus e caminhada até a clínica. Parte do período foi custeada pela própria família, até conseguir acesso ao transporte público.

Depois de passar mal com frequência durante as sessões, Adenice foi orientada a migrar para a diálise peritoneal, feita em casa, pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Permaneceu quatro anos nesse modelo até realizar um transplante, em 2007. O enxerto funcionou por 17 anos, mas começou a falhar em 2024. Desde então, ela está internada em um hospital público aguardando vaga em uma clínica próxima de casa, em Belford Roxo. “Só posso sair quando tiver vaga, senão perco o leito do hospital também”, conta. Enquanto espera, depende do apoio da família: o benefício previdenciário está suspenso por questões cadastrais, e o marido, também aposentado, arca com despesas extras, incluindo medicamentos que eventualmente faltam na unidade.

Segundo levantamento realizado pela Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), entre maio e junho de 2025, ao menos 1.095 pacientes de 13 regiões do país estavam internados em hospitais públicos aguardando vaga em unidades de diálise ambulatorial, assim como Adenice. São pessoas que já recebem terapia renal dentro do hospital e que, em condições ideais, poderiam seguir o tratamento fora do ambiente hospitalar, em unidades de diálise que, na teoria, deveriam estar disponíveis nos municípios. A permanência prolongada em leitos ocorre porque a rede não consegue absorver esses pacientes, transformando hospitais em espaços de espera ou, então, fazendo pacientes percorrer longas distâncias como Ednólia.

O caso mais antigo envolve um paciente do Pará com sorologia positiva para hepatite B, um perfil que enfrenta barreiras adicionais no acesso ao tratamento. Isso porque esses pacientes precisam realizar hemodiálise em máquinas exclusivas, o que reduz ainda mais o número de vagas disponíveis. No caso dele, a espera em leito de hospital já ultrapassa um ano. “Todos os pacientes renais, de modo geral, quando precisam permanecer em hospitais aguardando vaga, ficam mais expostos a infecções. Além disso, é uma situação que compromete a qualidade de vida e gera custos maiores para o sistema de saúde”, observa o nefrologista Pedro Túlio Rocha, diretor de políticas associativas na SBN.

Demanda que só cresce

Os dados mais recentes do Censo Brasileiro de Diálise, referentes a 2024, mostram que o número de pessoas em diálise no Brasil cresce ano após ano. Em uma década, a taxa de pacientes em tratamento dialítico passou de pouco mais de 550 para 812 por milhão de habitantes. Segundo Túlio Rocha, esse aumento se deve, em parte, ao avanço de doenças crônicas como diabetes e hipertensão, que podem levar à perda da função renal.

Para se ter ideia, só no ano passado, o país registrou mais de 52 mil pessoas iniciando diálise, muitas delas em caráter de urgência, já hospitalizadas. São esses pacientes que, ao estabilizarem o quadro clínico, dependem da existência de vagas ambulatoriais para deixar o hospital — o que nem sempre acontece.

Outro elemento estrutural é a forte dependência do sistema público. O censo mostra que quase 80% dos pacientes em diálise são atendidos pelo SUS, percentual que ultrapassa 90% na região Norte. Ao mesmo tempo, a maior parte das unidades de diálise é privada ou filantrópica, o que torna a expansão de vagas diretamente condicionada ao financiamento público e à sustentabilidade econômica desses serviços.

Além disso, o modelo de tratamento ainda é pouco diversificado. Hoje, mais de 87% dos pacientes fazem hemodiálise, um procedimento que precisa ser realizado em clínicas ou hospitais, com máquinas específicas, equipe treinada e horários fixos ao longo da semana. Isso exige estrutura física, investimento e organização da rede. Já a diálise peritoneal, que é feita em casa e utiliza o peritônio (a membrana que reveste a cavidade abdominal) como filtro natural do sangue, poderia ajudar a desafogar clínicas e hospitais. Apesar disso, a modalidade ainda é realidade para poucos.

Um médico que prefere não se identificar afirma que denuncia a chamada “crise da diálise” no Brasil desde 2008 — posicionamento que, segundo ele, já resultou em perda de cargos e retaliações. Embora o problema seja antigo, ele avalia que se agravou após a pandemia de covid-19. “Muitos hospitais ficaram voltados exclusivamente para covid, e grande parte das doenças crônicas foi deixada em segundo plano. Agora estamos colhendo essa ‘bomba’”, diz. Ele menciona ainda um efeito ‘cascata’. “Quando um paciente precisa fazer diálise dentro do hospital, aguardando vaga em unidade específica, acaba ocupando leitos — inclusive de UTI — que deixam de atender outros casos.”

Desigualdade territorial

Um estudo nacional publicado em 2024 por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) ajuda a dimensionar essa desigualdade territorial. Ao analisar 154.788 pacientes em hemodiálise financiada pelo SUS, os autores identificaram que apenas 59% realizavam o tratamento na própria região metropolitana. Os demais precisavam se deslocar para outras áreas.

No conjunto do país, quase metade dos pacientes percorre mais de 40 quilômetros para fazer hemodiálise, um trajeto que costuma se repetir três vezes por semana. A distância média foi de 35,9 km, mas o número esconde contrastes. No Sudeste, onde há maior concentração de serviços, a média ficou em 27,6 km e 32% dos pacientes percorriam mais de 40 km. Já no Norte, ela saltou para 84,3 km, e 77% viajavam além dos 40 quilômetros. Em situações extremas, o deslocamento chegou a 353 km.

Desacordo com a inflação

Por trás da “crise da diálise”, há um problema menos visível: o valor que o SUS paga por cada sessão de hemodiálise. Um estudo de consultoria independente, encomendado pela SBN, comparou quanto o governo reajustou a sessão de acordo com a inflação. A lógica é simples: se tudo ficou mais caro — energia, água, equipamentos, salários, insumos médicos — o valor pago pelo tratamento também precisaria acompanhar esse aumento para que as clínicas consigam se manter. Mas não foi o que aconteceu.

Em janeiro de 1999, a sessão de hemodiálise custava R$ 93,58 na tabela do SUS. Se esse valor tivesse sido corrigido pela inflação oficial do período, hoje deveria estar em R$ 472,71. No entanto, o que o SUS paga atualmente é R$ 240,97, praticamente a metade. A defasagem estimada é de 96,17%.

O estudo também aponta outro fator que pressiona as contas: a carga tributária. Em alguns estados, ao considerar impostos federais, estaduais e municipais, a diferença entre o que se recebe e o que efetivamente sobra para custear o serviço pode ultrapassar 50%.

Caso foi apresentado ao Ministério da Saúde

Segundo o nefrologista José Moura Neto, presidente da SBN, a entidade apresentou ao Ministério da Saúde, ao longo de 2025, uma série de documentos para dimensionar o problema. O material inclui o levantamento de pacientes internados à espera de vaga, estudos sobre as distâncias percorridas até as clínicas e a análise independente que aponta defasagem no valor pago por sessão de hemodiálise. Ao todo, foram realizadas quatro reuniões no ano, duas delas diretamente com o ministro Alexandre Padilha.

De acordo com Moura Neto, o próprio ministério reconhece que o valor da tabela está desatualizado. O último reajuste ocorreu em 2023 e, desde então, não houve nova correção, apesar do aumento no número de pacientes e dos custos operacionais. Em uma das reuniões, o governo informou que encomendaria à Fundação Getulio Vargas (FGV) um estudo para reavaliar os custos da diálise. “Estamos falando de cerca de 170 mil brasileiros que dependem da diálise para viver. Sem um financiamento adequado, existe risco real de desassistência”, alerta o médico.

O que diz o Ministério da Saúde?

Procurado, o Ministério da Saúde informou que deve anunciar em breve a atualização da Tabela SUS e novos investimentos para reforçar o transporte sanitário de pacientes. Segundo a pasta, as medidas foram apresentadas à SBN e à Associação Brasileira de Centros de Diálise e Transplantes na última quarta-feira, 11.

O ministério destacou que, em 2023, houve reajuste de 10,3% no valor das sessões de hemodiálise, além do repasse adicional de R$ 165 milhões para apoiar cerca de 500 prestadores de serviços em estados e municípios.

O órgão da saúde ressaltou ainda que a organização da oferta de hemodiálise pelo SUS é responsabilidade dos gestores estaduais e municipais, que devem contratar os serviços de nefrologia e regular o acesso conforme a demanda local.