Entre o prazer e a dependência: por que nunca se falou tanto em dopamina

Substância vital liberada no cérebro é cada vez mais ligada a comportamentos viciantes e à crise mental que desafia a sociedade

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ARMADILHA DIGITAL - Uso massivo de celulares: hábito associado às descargas rápidas e insidiosas da substância (Istock/Getty Images)

Não foi uma ascensão, digamos, meteórica. Em 1910, três cientistas britânicos descreveram e reproduziram em laboratório pela primeira vez uma pequena molécula que parecia ser a mera precursora de outras peças mais nobres do corpo humano. Ela foi ignorada por décadas, até que, nos anos 1950, pesquisadores começaram a observar seu papel no cérebro de mamíferos.

Foi a partir daí que um farmacologista sueco, Arvid Carlsson, conseguiu demonstrar, numa série de estudos, que a substância era um relevante neurotransmissor, isto é, um mensageiro químico que ajuda os neurônios a se conectarem. Foi um divisor de águas: começava, assim, a carreira da dopamina. Mais de meio século depois, seu nome está na boca do povo. Batizou série de TV, protagoniza mais de uma dezena de livros, motiva milhões de buscas na internet. Todo mundo quer seu quinhão, ao mesmo tempo que os especialistas se preocupam com o círculo vicioso que ela pode armar na cabeça.

Convém entender, portanto, de quem falamos e por que passamos a viver em uma “nação dopamina”, para usar o título do best-seller da psiquiatra americana Anna Lembke, uma das primeiras médicas a acusar a crise de saúde mental associada à molécula.

A dopamina é o agente bioquímico que faz o ser humano se mover — literal e metaforicamente. Por meio de certos circuitos de neurônios regidos por suas descargas, ela nos induz a buscar prazeres e recompensas. Em determinadas porções da massa cinzenta, porém, tem a função de orquestrar nossa coordenação motora e capacidade de locomoção.

As descobertas de Carlsson lá atrás, que culminaram em um Prêmio Nobel de Medicina em 2000, abriram caminho à compreensão de que uma falha nesse circuito está na origem dos sintomas da doença de Parkinson, marcada por tremores involuntários e dificuldade para caminhar. A dopamina é tão vital que, em experimentos com animais, foi comprovado que a completa privação da substância os deixava totalmente paralisados.

No século XXI, contudo, ela ganhou holofotes pela associação com comportamentos que se transformam numa espécie de prisão psíquica, gerando dependência e ansiedade. “A substância química mais importante para o cérebro humano é a dopamina”, anota o escritor americano Michael E. Long no recém-lançado Como Domar a Dopamina (Editora Sextante). “Isso não significa que outros neurotransmissores, como a serotonina e a endorfina, sejam insignificantes.

Quando, porém, lidamos com a experiência da vida moderna, a dopamina é a chave para entender nossos impulsos e reações.” Aí que está: essa é a molécula dos desejos. Mas, se na Idade da Pedra a paixão pelo desconhecido e por gratificações fazia diferença para o Homo sapiens sobreviver, hoje a dopamina é jorrada cada vez que deslizamos o dedo na tela do celular. Só que seu “barato” não dura muito, e o cérebro entra no modo “quero sempre mais”.

Esse mesmíssimo fenômeno — o das descargas rápidas do neurotransmissor — está por trás de hábitos viciantes, como ficar horas no smart­phone, e de compulsões por compras, jogos de apostas, pornografia e até uso de drogas. De fato, a vida digital é indissociável da crise da dopamina, pois ela encoraja a busca infinita por novas, imediatas e efêmeras recompensas.

“O que não nos falta é estímulo por dopamina. Nosso cérebro está inundado de doses dessa molécula provenientes das redes sociais e das notificações constantes no celular”, diz o neurocientista britânico TJ Power, autor de A Dose Certa (HarperCollins Brasil). Para ele, a solução está em priorizar atividades que rompam o circuito de descargas velozes de dopamina (a leitura é bem-vinda por isso) e em procurar elevar a cota de outros mensageiros químicos essenciais. “Trocamos a experiência lenta e enriquecedora de relacionamentos reais pelas calorias rápidas e vazias da estimulação digital”, afirma Power.

Mais contatos de verdade, vida ao ar livre, exercícios físicos e dieta balanceada fazem parte da prescrição do neurocientista para quebrar o círculo vicioso da dopamina. Uma batalha que, como sublinha Long, por vezes requer sessões de terapia. Porque, no fundo, a alcunha de vilã definitivamente não cabe no currículo dessa molécula. Nós que, inconscientemente ou não, nos tornamos escravos dela.

Publicado em VEJA de 13 de fevereiro de 2026, edição nº 2982