Vírus Nipah: alerta global reforça uma das maiores lições da pandemia de covid-19

É preciso agir com ciência e rapidez para evitar o pior

BATANEWS/REDAçãO


OLHO NELE - Nipah: lugar na lista prioritária da OMS (Kateryna Kon/Getty Images)

Em 1998, em um lugar conhecido como Vila do Rio Nipah, na Malásia, criadores de porcos ficaram preocupados ao perceber que seus animais estavam adoecendo. Alguns dias depois, habitantes da região começaram a cair de cama. Autoridades sanitárias foram então convocadas a investigar os sintomas de uma moléstia desconhecida e identificaram um novo vírus por trás dos ataques a suínos e humanos.

Extremamente letal, foi batizado de Nipah, em referência à origem geográfica. Correndo contra o tempo, os médicos que atenderam as vítimas do primeiro surto detectaram que o patógeno causava encefalite grave, uma inflamação no cérebro que pode acarretar confusão mental, perda de consciência, convulsão e até a morte. Foram 265 vítimas, ao menos 100 delas fatais.

Desde então, o Sudeste Asiático enfrenta episódios cíclicos da doença, que, pelos cálculos dos cientistas, mata entre quatro e sete indivíduos em cada dez infectados. Nesse meio-tempo também se descobriu o hospedeiro do vírus na natureza: morcegos que se alimentam de frutas. Parece um filme a que já assistimos — e este é baseado em fatos reais. Daí o alarme soado pela detecção de três novos casos de Nipah na Ásia nas últimas semanas.

Primeiro, dois profissionais de saúde testaram positivo para o microrganismo em Calcutá, na Índia — um deles se recupera, o outro seguia em estado grave. O governo local fez exames em quase 200 pessoas que poderiam ter tido contato com as vítimas, e todas apresentaram resultado negativo. Declarou, assim, que o surto estava sob controle, ainda que aeroportos na Ásia já tivessem acionado seus protocolos de contenção de epidemias.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) se posicionou, afirmando que a situação está sendo bem monitorada e que o risco de uma emergência global é baixo. Mas nem houve tempo para o medo arrefecer. Outro caso, que resultou em morte, foi notificado em Bangladesh. Ou seja, as medidas de vigilância seguem decisivas. Afinal, a mesmíssima OMS já alçou o Nipah à sua lista de patógenos preocupantes e de potencial pandêmico.

O vírus da vez é normalmente transmitido pelo contato com urina, fezes ou saliva de um gênero de morcego típico da Ásia (Pteropus), ou por alimentos contaminados pelo animal. Isso não é tão incomum em países como Índia e Bangladesh porque a população tem o costume de consumir a seiva fresca da tamareira e seus frutos, expostos aos morcegos à noite.

Foi o que aconteceu com a mulher que perdeu a vida em Bangladesh, como se descobriu. Mas, com o desmatamento e o crescimento urbano, os humanos estão invadindo o hábitat dos bichos e, assim, ampliando o risco de pegar os vírus neles alojados — algo que também acontece quando o micróbio tem hospedeiros intermediários, caso do porco.

O ponto é que, para a sorte da nossa espécie, a transmissão entre pessoas é rara, envolve contato próximo com fluidos e, em geral, se restringe a uma cadeia curta de vítimas. Nesses casos, porém, excesso de cautela nunca é demais. Já foram notificados surtos em que o Nipah compromete o sistema respiratório, podendo se espraiar mais efetivamente.

“Existe a percepção de que vírus muito letais não se espalham com facilidade, o que em parte é verdade, mas não regra universal”, esclarece a infectologista Carolina Lázari, da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial.

Os desdobramentos da presença de um vírus como o Nipah dependem da transmissibilidade, conceito-chave que representa a capacidade e os meios de o patógeno circular e a abundância de vetores ou reservatórios no local. E, aí, faz sentido traçar um paralelo com o coronavírus da covid-19: um microrganismo que, tudo leva a crer, veio de morcegos, por meio de mutações genéticas, aprendeu a se propagar entre humanos e é exemplo vivo e trágico de como uma zoonose se transforma em pandemia.

Se, de um lado, a taxa de letalidade do SARS-CoV-2 beira 1% dos infectados, por outro ele é transmitido por gotículas no ar, podendo afetar uma parcela gigantesca da população (veja mais exemplos no quadro). “Vírus como o da covid-19 e o da gripe são menos letais, mas se disseminam com eficiência, combinação que resulta em um grande número absoluto de mortes”, afirma Lázari. “Na prática, Nipah e ebola podem colapsar sistemas de saúde locais e gerar pânico, enquanto vírus amplamente disseminados causam impacto global silencioso.”

A perspectiva de uma pandemia pelo vírus que emergiu agora na Índia e em Bangladesh é remota (inclusive porque o tipo de morcego que o hospeda não vive em continentes como as Américas), mas o risco de novos estragos na região, nem tanto. E nunca é demais lembrar um mantra dos especialistas: vírus sofrem inúmeras mutações na natureza, podendo se metamorfosear e ganhar características perigosas. Praticamente todos eles replicam esse roteiro inscrito em seu código genético — uns mais, outros menos.

E ninguém quer que algo como o Nipah ganhe asas. “Falamos de um vírus para o qual não existe vacina e os antivirais ainda são experimentais. O tratamento depende de uma terapia de suporte, não raro em UTI”, diz o virologista Paulo Eduardo Brandão, professor da USP. O exemplo asiático de agir e comunicar as autoridades sem demora é a lição viva da crise da covid: sim, o radar viral precisa seguir sempre ligado.

Publicado em VEJA de 13 de fevereiro de 2026, edição nº 2982