De compulsivo a emocional: por que você deve conhecer seu perfil alimentar

Antes de pensar em emagrecer, que tal repensar sua relação com a comida? Compreender o que está por trás da fome pode fazer a diferença

BATANEWS/REDAçãO


Nova escala distingue cinco perfis alimentares (iStockPhoto/ThinkStock/.)

Todo início de ano a história se repete: as academias lotam, as buscas por dietas e receitas milagrosas que possam rapidamente transformar o corpo disparam. No entanto, o entusiasmo do começo do ano – que acompanha um certo exagero tanto nas restrições quanto nos exercícios -, logo se torna insustentável com o passar das semanas, e a frustração pode surgir antes mesmo dos resultados.

Para que a melhora do comportamento alimentar e o emagrecimento, para aqueles que necessitam, sejam um objetivo para além da questão estética, com impactos na saúde geral, é preciso muito mais do que uma “promessa de ano novo”, é fundamental substituir o imediatismo pela ciência e a privação pelo equilíbrio.

Nesse sentido, a própria relação com a alimentação pode ser um primeiro passo decisivo – especialmente no caso de pessoas com sobrepeso e obesidade1. E as primeiras semanas do ano são ideais para repensar como estamos lidando com a comida.

O início de um novo ciclo pode despertar gatilhos emocionais em alguns indivíduos. Afinal, trata-se de um período marcado por planejamentos, metas e expectativas — o que pode desencadear em uma carga de ansiedade e pressão interna.

Conhecer o perfil alimentar pode ajudar a entender o comportamento frente a comida. Para apoiar essa identificação de padrão de comportamento alimentar, temos uma nova ferramenta, a Escala de Fenótipos de Comportamento Alimentar (EFCA) – uma importante aliada para tratamentos mais personalizados e duradouros.

Recentemente validada para o português (com publicação no Archives of Endocrinology and Metabolism, a EFCA permite que médicos identifiquem e quantifiquem diferentes comportamentos alimentares que podem coexistir em um mesmo paciente.

Os cinco perfis

A escala define cinco perfis alimentares. O hedônico, por exemplo, tem como característica o desejo de comer desencadeado por estímulos sensoriais (visuais e olfativos) e/ou cognitivos.

No caso do compulsivo, a pessoa tende a ingerir alimentos de forma rápida e em grandes quantidades, em curtos espaços de tempo.

Assim, afirmações como “Acalmo as minhas emoções com comida”, “Como nos momentos em que estou entediado, ansioso, nervoso, triste, cansado, irritado e solitário” merecem atenção, especialmente quando pretendemos entender melhor qual é a nossa relação com a alimentação.

O emocional usa a comida para aliviar emoções negativas (ansiedade, tédio, solidão, medo, raiva, tristeza e/ou fadiga), fazendo pequenos e frequentes lanches entre as refeições principais. Já o desorganizado costuma suprimir refeições principais ou fica, no mínimo, 5 horas sem comer.

Por fim, o hiperfágico consome porções excessivas ou repetidas em uma única refeição).

Ao identificar qual é o fenótipo do paciente, é possível entender, por exemplo, por que algumas pessoas sentem desejos incontroláveis de comer coisas específicas sem saber o motivo exato (o chamado craving).

Logo, identificar frases e atitudes não deve ser motivo de culpa, mas um sinal de alerta para a necessidade de suporte profissional. O período de resoluções de Ano Novo é um excelente momento para observar esses comportamentos e procurar especialistas que possam auxiliar no manejo correto do caso, por isso não deve ser sobre dietas restritivas ou ‘milagrosas’, mas sim sobre atenção. A alimentação saudável deve ser um hábito ao longo do ano todo para assim encontrar equilíbrio e manter o resultado.

Não é falta de vontade

Assim como a ciência mostra que cada tipo de pessoa tem um comportamento alimentar, ela também busca desmistificar a visão de que indivíduos com obesidade têm excesso de peso por falta de disciplina.

Sabe-se, atualmente, que a obesidade é uma doença multifatorial, sendo os fatores emocionais determinantes para o seu desenvolvimento.

De acordo com o Atlas Mundial da Obesidade 2025, um em cada três adultos brasileiros vive com a condição, e a estimativa é que o sobrepeso afete quase 3 bilhões de pessoas no mundo até 2030.

Estamos diante, portanto, de um problema crítico de saúde pública que sobrecarrega os sistemas de saúde6. Valores altos de IMC são os principais causadores de Doenças Crônicas Não Transmissíveis, como diabetes e problemas cardíacos, sendo responsáveis por 1,6 milhão de mortes prematuras anualmente.

Por isso, é preciso pensar que a interação com a comida tem objetivos para além dos estéticos; e que o emagrecimento, quando necessário, não ocorre a partir da privação severa de alimentos. Iniciar o ano compreendendo como e por que consumimos determinados itens é o primeiro passo para a transformação diária. Consultar um especialista para avaliar o fenótipo alimentar pode ser o passo certeiro para que, em 2026, a saúde física e mental caminhe juntas.

* Cynthia Melissa Valerio é endocrinologista e presidente eleita da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso)