A pílula potente que derruba o colesterol e pode anunciar uma nova era no tratamento

Publicação de um aguardado estudo com novo medicamento abre perspectiva de um grande reforço no arsenal terapêutico

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Nova medicação: mais de 50% de redução nas taxas de colesterol ruim, fator por trás de entupimentos nas artérias (iStockphoto/Getty Images)

Primeiro vêm as injeções, depois os comprimidos. Se por um lado a indústria farmacêutica está começando a colocar no mercado as versões em pílula das canetas para o tratamento da obesidade, por outro já esboça no horizonte uma nova geração de medicamentos via oral para baixar expressivamente o colesterol ruim e reduzir, com isso, o risco cardiovascular.

O paralelo com a semaglutida, de Ozempic e Wegovy, ajuda a entender o que vem por aí. Nos Estados Unidos, já está sendo comercializado o Wegovy em comprimido, um análogo de GLP-1 que os cientistas conseguiram encapsular para ser ingerido diariamente – uma alternativa às picadas semanais.

No caso do colesterol, laboratórios já estão transformando as potentes injeções dos inibidores de PCSK9 em suas contrapartes orais.

Nessa direção, acaba de sair um aguardado estudo com uma dessas novas moléculas, a enlicitida, desenvolvida pela farmacêutica MSD. No ensaio clínico publicado no prestigiado periódico médico The New England Journal of Medicine, o remédio diminuiu significativamente as taxas de LDL, o colesterol “ruim”, entre pessoas com histórico ou em risco de doenças cardiovasculares após 24 semanas de uso.

O problema e o tratamento

O colesterol alto, particularmente as taxas elevadas de LDL-colesterol, é considerado um dos principais fatores por trás dos problemas cardiovasculares – a causa número 1 de mortes no Brasil e no mundo. Embora uma parcela considerável dos casos possa ser controlada com medicamentos tradicionais como a estatina – junto a mudanças de hábitos -, para alguns indivíduos isso não é suficiente.

Em outras palavras, devido à genética e a outras condições ligadas ao estilo de vida, ou o colesterol não fica dentro das metas preconizadas com o tratamento convencional ou o risco de um infarto é tão alto que os médicos precisam intervir mais fortemente.

Para resguardar os pacientes nessas situações, há cerca de 15 anos despontaram as primeiras injeções de inibidores de PCSK9. Seu objetivo é bloquear a ação de uma molécula que dificulta o processo de remoção do colesterol nas artérias, fenômeno por trás das temíveis obstruções.

“São anticorpos monoclonais como o evolocumabe e o alirocumabe que, nos ensaios clínicos, demonstraram ser capazes de reduzir o risco de eventos cardiovasculares em pelo menos 15% ao longo de três anos”, conta o cardiologista Andrei Sposito, diretor científico da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp).

Essas medicações, aplicadas a cada 15 ou 30 dias, chegam a baixar o colesterol ruim em cerca de 60%. Além delas, um terceiro tratamento que mira a PCSK9, o inclisiran, é baseado numa terapia de RNA que inibe diretamente a síntese dessa proteína no fígado com uma injeção a cada seis meses.

Agora, uma nova classe se desenha com os estudos realizados com as versões via oral dos inibidores de PCSK9. Quem abre esse caminho é a enlicitida, comprimido de uso diário que protagonizou um estudo com mais de 2 900 pacientes, divididos entre quem recebia o remédio de verdade e outro grupo a quem foi administrado o placebo – cápsulas sem o princípio ativo.

“O estudo mostrou que o medicamento chegou a diminuir em 52% os níveis do colesterol LDL”, destaca Sposito, que também é professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “O trabalho teve o objetivo de demonstrar a segurança da terapia e apontou, ainda, a potência esperada com esse tratamento, algo que será aprofundado em estudos em andamento que visam mostrar seu benefício cardiovascular.”

E quais seriam as vantagens de uma pílula sobre as injeções que já estão no mercado, inclusive no Brasil? “Há a perspectiva de uma melhor adesão terapêutica, além da possibilidade de custos mais baixos, uma vez que comprimidos são mais mais escaláveis do que os injetáveis”, avalia Sposito.

Quem poderá tirar proveito da medicação

Nos estudos, o inibidor de PCSK9 via oral costuma ser acrescido ao tratamento-padrão com estatinas e ajustes na dieta e no estilo de vida.

“A expectativa é que a nova medicação seja utilizada, quando for aprovada, em pacientes com colesterol elevado que não atingem metas ou que têm dificuldade com terapias injetáveis ou, ainda, sofrem com efeitos colaterais do tratamento usual”, diz o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador da USP de Ribeirão Preto e curador científico do Cardiometa, evento sobre cardiometabologia que será lançado neste ano.

Sposito vislumbra que a droga experimental poderá ajudar a controlar o LDL-colesterol naqueles indivíduos que estão sendo tratados com estatina, ezetimiba ou ácido bempedoico, os fármacos disponíveis hoje, mas não atingem os níveis adequados à prevenção de infarto, AVC e outras ameaças.

“Se os resultados de desfecho na proteção cardiovascular forem bem-sucedidos, estaremos diante de uma nova fronteira no tratamento do colesterol alto”, afirma Couri.