Saúde
Mudanças de comportamento em idosos podem ser sinais de demência
BATANEWS/FOLHA
Mudanças de comportamento que surgem após os 50 anos, como perda de interesse por atividades habituais, alterações de humor e atitudes incomuns, podem ser sinais precoces de doenças neurodegenerativas como Alzheimer, demência frontotemporal e demência por corpos de Lewy (DCL).
Embora a perda de memória seja o sintoma mais conhecido dessas condições, outras manifestações podem surgir antes dos esquecimentos. Segundo especialistas, mudanças persistentes não devem ser atribuídas automaticamente ao envelhecimento.
A aposentada Marinalva Queiroz Pinheiro de Oliveira, 81, conta que, no fim de 2024, começou a enxergar pessoas desconhecidas ao acordar durante a noite. 'Na hora que eu abria o olho, sumia', diz. Em uma dessas ocasiões, viu uma mulher segurando um vaso azul. Em outras, crianças. Achou que eram visitas espirituais, então rezava e voltava a dormir.
Ela relatou os episódios à filha mais velha, Celene Pinheiro, geriatra e presidente da Abraz (Associação Brasileira de Alzheimer). A médica estranhou. A mãe tinha histórico de depressão, mas nunca havia tido alucinações, conta a filha.
A família também notou sonolência excessiva durante o dia, piora da depressão e falta de equilíbrio. Em janeiro de 2025, Marinalva caiu e fraturou a bacia.
A investigação, com avaliação neuropsicológica e cintilografia cerebral, levou ao diagnóstico de demência por corpos de Lewy. Ela não tinha queixas importantes de memória até então, mas os testes de cognição identificaram alterações cognitivas.
'Ela estava levando uma vida normal. O que tinha mudado eram as alucinações visuais e a instabilidade postural. Foi isso que chamou a atenção', diz Pinheiro.
Segundo o neurologista Norberto Frota, professor da Unifor (Universidade de Fortaleza), a demência por corpos de Lewy compromete atenção e raciocínio e pode provocar alucinações visuais, lentidão dos movimentos, oscilações no estado de alerta e alterações no sono. Diferentemente do que ocorre no Alzheimer, a perda de memória costuma ser menos evidente no início.
Para estudar mudanças comportamentais associadas a doenças neurodegenerativas, pesquisadores usam o conceito de comprometimento comportamental leve, ou MBI (sigla em inglês para mild behavioral impairment). A definição abrange alterações que surgem após os 50 anos, persistem por pelo menos seis meses e representam uma ruptura com o comportamento anterior habitual da pessoa.
Entre as mudanças listadas estão ansiedade, depressão, apatia, perda de interesse por atividades prazerosas, desinibição e comportamentos socialmente inadequados. Alucinações também entram nos critérios. São menos frequentes no Alzheimer, mas estão entre os sinais centrais da doença por corpos de Lewy.
A maioria das pessoas que vão receber um diagnóstico de uma doença neurodegenerativa já tem alterações de comportamento antes de apresentar alterações cognitivas, segundo o psiquiatra Lucas Mella, coordenador do Serviço de Psiquiatria Geriátrica e Neuropsiquiatria da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).
'É mais comum o familiar perceber e a própria pessoa não se dar conta dessa alteração. Essas mudanças tendem a ser mais leves, começam devagar e progridem aos poucos', afirma Mella.
A demência frontotemporal, por sua vez, costuma chamar atenção por alterações mais marcantes de personalidade, como desinibição, impulsividade e perda de empatia, diz Frota. Depressão, ansiedade e apatia podem aparecer nas fases iniciais do Alzheimer e da doença por corpos de Lewy.
Nem toda mudança comportamental, porém, indica doença neurodegenerativa, ressalta o psiquiatra. O histórico pesa, sobretudo quando os sintomas são inéditos. 'A gente tem que valorizar a mudança do comportamento comparando o indivíduo com ele mesmo', diz Mella.
O diagnóstico precoce permite tratar sintomas e preservar a autonomia do paciente. No Alzheimer, há medicamentos que atuam sobre os mecanismos biológicos da doença, indicados para alguns casos em fase inicial. Esses remédios não são indicados para a doença por corpos de Lewy.
Marinalva passou a usar rivastigmina em adesivo, que ajuda a controlar sintomas cognitivos e comportamentais, e ajustou os antidepressivos. Ela também faz exercícios de fortalecimento muscular três vezes por semana e uma sessão semanal de estimulação cognitiva com a gerontóloga Paola de Campos, além de tarefas da casa.
As atividades são individualizadas e trabalham memória, atenção, linguagem e raciocínio, com jogos, leitura, escrita e artes. Segundo Campos, o importante é respeitar os interesses da pessoa. Como as demências são progressivas, manter o desempenho cognitivo ao longo do tempo já pode ser um bom resultado, diz.
Marinalva continua morando sozinha, dirige, vai ao banco e mantém suas atividades cotidianas. Também segue no trabalho voluntário em uma instituição de longa permanência para idosos, para a qual produz peças de crochê e bordados, que são vendidos para arrecadar recursos.
Segundo Pinheiro, após um ano de tratamento, os resultados dos testes cognitivos da mãe voltaram à faixa de normalidade, as alucinações desapareceram e a sonolência diminuiu significativamente. Embora a doença não tenha cura, as intervenções ajudaram a controlar os sintomas e a preservar sua autonomia.






