Cascas, talos e sementes podem ter mais fibras do que a polpa de frutas e vegetais

Estudo britânico mostra que aproveitar partes normalmente descartadas dos alimentos pode aumentar o consumo de fibras e ajudar a reduzir o desperdício

BATANEWS/VEJA


O aproveitamento integral dos vegetais é conhecido internacionalmente como 'root-to-tip' (da raiz à ponta) e tem sido apresentado como uma alternativa para combater o desperdício alimentar (Reprodução/Getty Images)

Na hora de preparar frutas e vegetais, cascas, talos e sementes costumam ir direto para o lixo. Mas essas partes, frequentemente ignoradas na cozinha, podem concentrar mais fibras do que as porções que normalmente chegam ao prato.

É o que aponta um estudo conduzido por pesquisadores do King’s College London, no Reino Unido, que investigou o valor nutricional de componentes geralmente descartados de 12 tipos de frutas e vegetais. Os resultados foram publicados na quinta-feira, 29, na revista científica International Journal of Food Sciences and Nutrition.

Em 10 dos 12 alimentos avaliados, os componentes normalmente descartados apresentaram mais fibras do que as partes habitualmente consumidas.

Os resultados chamam a atenção para a abóbora butternut, uma variedade de abóbora de inverno que cresce em trepadeiras. Segundo o estudo, a casca e as sementes registraram 9,25 gramas de fibras a cada 100 gramas. Na outra ponta, a casca da melancia apresentou 2,10 gramas por 100 gramas.

A casca do abacaxi também se destacou pela concentração de fibras, com um teor muito superior ao encontrado na parte comumente consumida da fruta.

A explicação, segundo os pesquisadores, está na própria função dessas estruturas na planta. Cascas atuam como barreiras de proteção, enquanto talos e outras partes fibrosas dão sustentação ao vegetal.

Por isso, elas tendem a concentrar componentes estruturais, como a celulose, que fazem parte das fibras alimentares. Veja abaixo alguns exemplos:

O aproveitamento integral dos vegetais é conhecido internacionalmente como “root-to-tip” (da raiz à ponta) e tem sido apresentado como uma alternativa para combater o desperdício alimentar.

A proposta é utilizar todas as partes comestíveis dos alimentos no preparo de receitas, em vez de descartar automaticamente aquilo que não costuma ser consumido.

Além das análises laboratoriais, os pesquisadores também avaliaram seis grupos com 40 estudantes e funcionários de uma universidade britânica para investigar a percepção dos consumidores sobre fibras e aproveitamento integral dos alimentos.

“Os participantes consideraram os benefícios nutricionais, particularmente as fibras, como uma motivação mais forte do que a sustentabilidade“, escreveram os pesquisadores no estudo.

A resistência ao consumo dessas partes, porém, não desaparece apenas com informação. Alguns participantes relataram desconforto com a ideia de comer cascas, talos e sementes, enquanto outros manifestaram preocupação com a digestibilidade.

“Eu sei que as cascas têm muita fibra e nutrientes. Mas existe algo em comer as cascas que não me agrada muito”, diz um dos depoimentos registrados nos grupos, segundo o estudo.

Para os autores, comunicar as vantagens nutricionais pode ajudar a superar esse tipo de resistência. “Os participantes destacaram os benefícios nutricionais e para a saúde, incluindo os relacionados ao teor de fibras, como um argumento de venda para o consumo integral dos vegetais”, escreveram os pesquisadores.

Segundo o estudo, a descoberta é relevante diante do baixo consumo de fibras observado no Reino Unido. Segundo dados citados pelos autores, a ingestão média dos adultos britânicos é de 16,4 gramas por dia, pouco mais da metade dos 30 gramas recomendados.

O consumo adequado de fibras está associado ao bom funcionamento intestinal e à redução do risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer.

Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores ressaltam que nem todas as partes dos vegetais são necessariamente comestíveis ou seguras. Algumas podem conter substâncias naturalmente tóxicas, enquanto cascas podem apresentar resíduos de pesticidas.

Por isso, a escolha dos alimentos, a higienização e o preparo adequado são fundamentais, ressaltam os pesquisadores.

Também é importante considerar que o estudo mediu a composição nutricional dos alimentos crus e não demonstrou diretamente que o consumo dessas partes reduz a incidência de doenças ou aumenta a ingestão de fibras na população.

Os próprios autores defendem a realização de novos estudos para avaliar os efeitos do cozimento, a aceitação dos consumidores e os benefícios efetivos para a saúde.

“São necessárias mais pesquisas para quantificar qualquer aumento na ingestão de fibras alimentares por meio da alimentação da raiz à ponta e para investigar os impactos na saúde associados”, escreveram os pesquisadores nas conclusões.