Pessoas com dermatite atópica têm maior risco de depressão e ansiedade

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Dioneli Medeiros e o filho, Pietro Medeiros, 8, brincam juntos no Parque Municipal Getúlio Vargas, em Canoas (RS) - Carlos Macedo - 10.out.26/Folhapress

Uma em cada cinco pessoas com dermatite atópica tem depressão, proporção duas vezes maior que a observada na população geral. O risco de ansiedade também é maior, segundo revisão da literatura publicada no Journal of Clinical Medicine, em 2024.

A dermatite atópica é uma doença inflamatória crônica, não contagiosa e de origem genética. Provoca ressecamento e sensibilidade da pele, além de lesões avermelhadas e prurido (coceira intensa). No Brasil, levantamento citado em protocolo do Ministério da Saúde apontou prevalência de 2,3%.

Pietro Medeiros, 8, de Cachoeirinha (RS), recebeu o diagnóstico de um quadro grave no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA). Com o tempo, também desenvolveu depressão e ansiedade.

'Ele não saía da cama nem caminhava. Pense como é acordar e dormir sentindo dor e coceira, não conseguir tomar banho nem vestir roupa', conta a mãe, Dioneli Medeiros.

Na escola, um colega que teve escabiose (sarna humana) disse ter contraído a condição de Pietro, repetindo o que ouvira do pai. Segundo Dioneli, uma professora também perguntou se a dermatite era contagiosa. Depois dos episódios, o menino não queria mais ir às aulas.

A desinformação aparece também fora da escola. Pesquisa do Datafolha realizada em 2020, a pedido da farmacêutica AbbVie, ouviu 1.001 pessoas sobre dermatite atópica. Entre os entrevistados, 30% acreditavam que a doença era contagiosa e 47% a associavam à falta de higiene. Para 36%, pessoas com lesões visíveis não deveriam sair de casa, estudar ou trabalhar.

A dermatologista Rosana Lazzarini, primeira-secretária da SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia), afirma que a coceira pode prejudicar o sono e afetar o desempenho nos estudos e no trabalho. Quando as lesões são visíveis, o impacto pode alcançar também a vida social.

No HCPA, Pietro iniciou acompanhamento psicológico e psiquiátrico. À medida que os sintomas melhoraram, voltou à escola e às brincadeiras, embora ainda apresente lesões. 'Eu gosto de brincar de futebol, gosto de brincar na rua, gosto de qualquer coisa', afirma.

A psicóloga Tarcila Cicchini, que trabalhou por mais de 30 anos com pacientes dermatológicos no Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), diz que a doença não deve ocupar o centro da vida de quem convive com ela. 'A dermatite atópica não pode ser o carro-chefe da vida de um paciente, nem da família.'

O sofrimento, porém, pode alcançar também os cuidadores. Dioneli conta que desenvolveu depressão e ansiedade durante o tratamento do filho. 'Eu achava que eu era uma péssima mãe.'

Pessoas próximas atribuíam a piora da dermatite de Pietro ao estresse da mãe. Vizinhos chamavam de 'manha' a resistência do menino aos banhos e à aplicação de cremes. Alguns chegaram a sugerir que ela batesse nele.

Um dos estudos citados na revisão de 2024 identificou depressão em 29,3% dos pais de crianças com dermatite atópica. No grupo de comparação, a proporção foi de 20,3%.

Em Uberlândia (MG), Rebecca Castelo Branco, 27, trabalha como maquiadora há nove anos, mas não se maquia há meses. Segundo ela, os cosméticos ressaltam as lesões no rosto e dificultam a hidratação da pele.

Durante um evento de beleza, Rebecca se afastou dos outros profissionais para chorar. 'Quando eu me olho no espelho, vejo essa doença.'

A maquiadora, que também tem depressão e ansiedade, passou a restringir o convívio a pessoas conhecidas. Evita ainda relacionamentos amorosos até se sentir melhor com a própria aparência.

Rebecca faz terapia com uma psicóloga particular, mas reduziu a frequência das sessões para conseguir pagar o tratamento dermatológico. Pelo SUS (Sistema Único de Saúde), aguarda uma consulta psiquiátrica.

Cicchini afirma que a psicoterapia pode ajudar pacientes a recuperar a confiança e a lidar com vergonha, preconceito e dificuldades nas relações sociais.

A psicóloga também participa de grupos da Associação de Apoio à Dermatite Atópica. Neles, pacientes e familiares compartilham experiências e recebem orientações de profissionais de saúde. Os encontros são gratuitos e ocorrem em diferentes cidades.

Rebecca conta que médicos já atribuíram sua dermatite a fatores emocionais, embora ela não perceba essa relação. 'Já aconteceu de eu estar superfeliz e a pele estar rachando', afirma. Para ela, essas explicações reforçavam a sensação de que era responsável pelas pioras.

Lazzarini explica que o estresse pode aumentar a coceira e agravar as lesões, mas não causa, sozinho, a dermatite atópica.

A dermatologista alerta que problemas de saúde mental e o desânimo diante da demora na melhora podem comprometer a continuidade do tratamento. Alguns pacientes passam meses ou anos sem retornar às consultas.

Pesquisadores ainda investigam se a própria inflamação causada pela dermatite atópica contribui para o desenvolvimento de transtornos mentais. Ainda não está claro qual é a relação nesse processo.