Saúde
Mounjaro turbinado: a nova dupla que fez pessoas perderem quase um quarto do peso
Cientistas testam a tirzepatida somada a uma nova molécula, a eloralintida. Resultado foi significativo entre pacientes com diabetes
BATANEWS/VEJA
Durante décadas, tratar obesidade e diabetes tipo 2 foi uma luta de um remédio só contra um corpo que se defende de muitas formas. A nova geração de medicamentos mudou a lógica. Em vez de atacar o problema por uma única via, esses remédios imitam os hormônios que o próprio organismo libera depois de uma refeição.
Primeiro veio um. Depois, dois. Agora, a farmacêutica Eli Lilly aposta numa nova combinação que imita a ação de três hormónios, e os primeiros números chamam atenção. E não estou falando da retatrutida.
Os resultados foram apresentados no congresso da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes, em Milão. O estudo testou a combinação de dois medicamentos. O primeiro é a tirzepatida, que os brasileiros já conhecem pelo nome comercial Mounjaro. O segundo é a eloralintida, uma molécula ainda experimental. Juntas, as duas ganharam o apelido de EloraTZP.
O terceiro mensageiro
A tirzepatida imita dois hormônios intestinais, o GLP-1 e o GIP, que reduzem o apetite e ajudam o pâncreas a controlar a glicose. A eloralintida acrescenta uma terceira voz a esse coro: a amilina. É um hormônio que o pâncreas produz junto com a insulina. Ele avisa ao cérebro que já comemos o suficiente e faz o estômago esvaziar mais devagar.
A ideia é simples de explicar e difícil de executar. Como cada hormônio age por um receptor diferente, somá-los poderia potencializar o efeito sem depender de doses cada vez maiores de um único remédio.
O estudo acompanhou por 48 semanas 367 adultos com obesidade ou sobrepeso e diabetes tipo 2, nos Estados Unidos e na Argentina. No início, o peso médio era de 105 quilos. A hemoglobina glicada, exame que mostra a média do açúcar no sangue nos últimos meses, estava em 8,1%, acima da meta.
Com a dose mais alta da combinação, a perda média foi de 23,3% do peso corporal, quase 25 quilos. A tirzepatida sozinha, na dose máxima, levou a 14,8%. A eloralintida isolada ficou entre 8% e 12%, e o placebo, em 3%. Na prática, a dupla entregou 8,5 pontos percentuais a mais que o Mounjaro, uma perda de peso cerca de 57% maior.
A glicose acompanhou o movimento. A hemoglobina glicada caiu até 2,9 pontos com a combinação, contra 2,4 com a tirzepatida. Isso importa porque pessoas com diabetes costumam emagrecer menos com esses remédios do que quem não tem a doença. Passar de 20% de perda de peso nesse grupo é um feito relevante.
E os efeitos adversos?
Nenhum remédio é só benefício. Os efeitos mais comuns foram náuseas, vômitos e desconforto intestinal. Em geral, foram leves ou moderados e se concentraram na fase de aumento da dose. Mas apareceram mais na combinação do que em cada medicamento isolado. Nos grupos da combinação, entre 10,8% e 27% dos participantes abandonaram o tratamento por efeitos adversos. Com a tirzepatida sozinha, foram 2,9%.
É um dado que merece atenção, porque um remédio que o paciente não tolera só funciona no papel. A própria Lilly reconhece o desafio. Nos próximos estudos, os dois medicamentos virão numa única injeção, com um aumento de dose mais lento.
A próxima fase de pesquisa, com milhares de voluntários e acompanhamento mais longo, deve começar até o fim de 2026. Só ela dirá se o benefício se sustenta e se a tolerância melhora. Dirá também se há ganho no que realmente importa, como menos infartos, derrames e mortes.
Até lá, a combinação é experimental e não está aprovada em nenhum país, Brasil incluído.
O estudo da obesidade deixou de procurar uma bala de prata e passou a compor sinfonias hormonais. O corpo nunca controlou a fome com um único sinal. Talvez o tratamento também não deva.



