Novo comprimido da dona do Mounjaro passa no teste do coração

Pílula diária controla glicemia e peso sem ameaçar o peito, revela pesquisa

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Orforglipron: remédio da Lilly aguarda aprovação no Brasil (Thinkstock/VEJA/VEJA)

Durante décadas, tratar o diabetes tipo 2 em quem já tem o coração ou os rins comprometidos foi um exercício de cautela. Cada remédio novo carregava a mesma pergunta incômoda: ele controla o açúcar no sangue, mas o que faz com as artérias?

Um estudo publicado na revista médica The Lancet e apresentado no congresso da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes, em Milão, acaba de responder a essa pergunta para o orforglipron. Trata-se de um medicamento oral à base de GLP-1 desenvolvido pela fabricante do Mounjaro que não precisa de jejum para ser tomado.

O duelo com um peso-pesado

O estudo se chama ACHIEVE-4 e acompanhou 2. 749 pessoas com diabetes tipo 2 e excesso de peso. Não era um grupo qualquer: 86% já tinham doença cardiovascular estabelecida, como um infarto anterior, e mais de um terço tinha doença renal crônica.

Metade recebeu o comprimido diário. A outra metade recebeu injeções de insulina glargina diária subcutânea, um dos tratamentos mais consagrados do diabetes e com segurança cardiovascular já demonstrada em grandes estudos.

Depois de cerca de dois anos, a missão do estudo foi cumprida: a taxa de eventos graves como infarto, derrame, morte cardiovascular e internação por angina instável foi a mesma que no grupo da consagrada insulina glargina. Ocorreram em 4,2% dos pacientes com orforglipron e em 5% dos que usaram insulina, ou seja, orforglipron não faz mal para o coração.

No restante, o comprimido levou vantagem clara. Dois em cada três pacientes atingiram a meta de hemoglobina glicada abaixo de 7%, contra menos da metade no grupo da insulina.

A perda de peso foi quase 9 pontos percentuais maior. Emagreceram 10% ou mais 35,6% dos pacientes com o comprimido, ante 4,4% com a insulina, que costuma, aliás, favorecer o ganho de peso. As hipoglicemias relevantes, quedas perigosas do açúcar no sangue, foram quase três vezes menos frequentes com o comprimido: 6,8% contra 19,2%.

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Efeitos colaterais

Náuseas, vômitos, diarreia e outros efeitos gastrointestinais atingiram 62% dos usuários do orforglipron, contra 14% com insulina, e foram o principal motivo de abandono do tratamento. É um padrão conhecido dessa classe de remédios, que costuma ser atenuado com aumento gradual da dose e acompanhamento médico.

Muito além do consultório do endocrinologista

É justamente essa combinação de fatores que torna o orforglipron um candidato natural a sair do território exclusivo da endocrinologia. Por ser uma molécula pequena e que dispensa jejum, basta um comprimido por dia, a qualquer hora.

O cardiologista atende diariamente pacientes com alto risco cardiovascular, infarto prévio, diabetes e obesidade. Para ele, ter à mão uma opção simples e com segurança cardiovascular comprovada muda o jogo. O mesmo vale para nefrologistas, clínicos e médicos de família.

O orforglipron já foi aprovado para obesidade nos Estados Unidos e no Reino Unido. No Brasil, a chegada depende da avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária e, depois, da definição de preço. É essa variável que decidirá quem de fato terá acesso a ele.

Na medicina, simplicidade é uma grande fortaleza. Um tratamento eficaz que o paciente consegue seguir vale mais do que um tratamento excelente esquecido na gaveta. Se o futuro do diabetes cabe num comprimido, agora sabemos que ele não pesa no coração.