Nos EUA, Lula diz que Trump 'age como imperador' e que avalia como aplicar reciprocidade se negociação do tarifaço não avançar

Em entrevista à CNN, presidente também classificou como 'grave' a ação dos Estados Unidos contra Venezuela, e defendeu realização de eleições no país vizinho.

BATANEWS/G1


Presidente Lula e prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, durante encontro na casa do embaixador brasileiro na ONU, Sérgio Danese, em Nova York, nos Estados Unidos, em 21 de setembro de 2026. — Foto: Adam Gray/Pool via REUTERS

Lula criticou Trump nesta segunda (21), afirmando que ele 'age como imperador'. Ele avalia aplicar reciprocidade se as negociações sobre tarifas não avançarem.

O presidente discursará nesta terça-feira (22) na abertura da ONU. Ele busca negociar a redução de sobretaxas norte-americanas, que chegam a 37,5%.

Caso não haja acordo, o governo cogita taxar produtos dos EUA. O Brasil formalizou o acionamento da reciprocidade, mas sem retaliações práticas.

Na entrevista, Lula classificou como 'grave' a ação militar norte-americana na Venezuela. Ele defendeu eleições para o povo escolher o próximo governante.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou, nesta segunda-feira (21), a criticar a postura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação a outros países. Em entrevista à CNN, o petista afirmou que Trump "age como um imperador", com a "lei do mais forte", impondo suas regras a outras nações.

Lula está nos EUA, onde participa nesta terça-feira (22) da abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), em Nova York.

"Ele [Trump] age como imperador. É um jeito de governar que eu não concordo. Quando você diz: 'Eu sou forte, eu sou o maior, eu sou o mais rico, eu posso tudo e o restante tem que obedecer'... É a chamada a lei do mais forte, eu não concordo com esse tipo de lei", disse Lula, repetindo crítica feita em 2025.

Apesar de dizer que não concorda com a forma de Trump de governar, o presidente brasileiro disse que fará esforços para negociar a redução das tarifas impostas pelo norte-americano contra produtos nacionais.

Ele lembrou que o Brasil tem um déficit na balança comercial com os Estados Unidos. Em razão disso, Lula tem dito que as tarifas contra exportações brasileiras são "injustas".

O candidato do PT à reeleição declarou que, se as negociações sobre o tarifaço não avançarem, vai avaliar como pode aplicar, de forma concreta, a reciprocidade na relação com os EUA.

"Eu não pretendo entrar em guerra tarifária nem com os EUA e nem com ninguém, eu quero negociar, eu sou de negociação, nasci na vida sindical aprendendo a negociar, então vou tentar todo esforço que tiver ao alcance de um ser humano para tentar negociar", declarou.

"Caso não seja possível porque os EUA não querem, a gente vai ter que tomar atitudes. Tem uma Lei de Reciprocidade aprovada por unanimidade no Congresso. Eu acho que tem produtos brasileiros que os EUA têm muito interesse. Eu acho que é isso que nós precisamos pensar, como é que a gente vai e quais os produtos a gente vai colocar na Lei de Reciprocidade para os EUA", emendou Lula.

Tarifaço

A escalada das tensões comerciais entre Estados Unidos e Brasil se intensificou com a imposição de sobretaxas pelo governo norte-americano, que somam até 37,5% sobre diversas exportações brasileiras.

A ofensiva tarifária inclui uma taxa de 25% ancorada na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, motivada por disputas em torno do PIX, regulação de plataformas digitais e etanol, além de uma alíquota adicional de 12,5% sob a alegação de falhas na fiscalização contra trabalho forçado.

Embora produtos essenciais para o mercado norte-americano, como carne bovina, café e celulose, tenham entrado na lista de isenções, setores de peso como, o do etanol e o de maquinário agrícola passaram a ser diretamente atingidos.

Em resposta à medida unilateral, o governo brasileiro formalizou o acionamento da Lei de Reciprocidade Econômica e abriu consultas diplomáticas para contestar as barreiras tanto em nível bilateral quanto na Organização Mundial do Comércio (OMC).

No entanto, até o momento, o país não aplicou qualquer retaliação prática ou novas tarifas diretas contra produtos dos EUA.

Eleições no Brasil

Na entrevista, Lula também falou sobre as eleições no Brasil, previstas para 4 de outubro. Ele disse estar preocupado com o pleito, mas declarou que acredita que será reeleito.

Ele também defendeu as urnas eletrônicas. E afirmou que "tem pessoas que estão condenadas no Brasil e escondidas nos Estados Unidos, tramando contra o Brasil".

"Eu chamo de traidores da pátria. Ele [Eduardo Bolsonaro] é um dos traidores. Está insuflando os EUA contra o Brasil, isso que está acontecendo de concreto. Inclusive com dinheiro, que está vindo pra cá que, logo, vai ser desvendado esse mistério do dinheiro do filme do ex-presidente Bolsonaro", afirmou.

O petista se referiu à cinebiografia "Dark Horse", que está sob alvo de investigações em razão do seu financiamento.

Ainda sobre as eleições no Brasil, o petista disse que os EUA não devem se "meter" no pleito. "Já há indícios de interferência de inteligência artificial. Eu estou muito preocupado com o Marco Rubio porque ele é muito ligado ao pessoal do bolsonarismo, mas por enquanto é só suspeita", declarou.

Venezuela

Na entrevista à CNN, Lula também classificou como "grave" a ação militar norte-americana em território venezuelano. Em janeiro, militares estadunidenses invadiram a Venezuela e capturaram Nicolás Maduro, que, atualmente, está preso nos Estados Unidos.

"É grave o que os EUA fizeram com a Venezuela, é lógico que é grave. Os EUA passam a ideia de que estão governando a Venezuela, todos os documentos que a gente lê, os acordos, os EUA passam a ideia é que estão governando a Venezuela. Ou seja, a soberania do país acabou. Isso não é bom para os EUA, não é bom para a Venezuela, não é bom para a democracia", disse.

O petista defendeu a realização de eleições na Venezuela, para que o povo do país vizinho escolha o seu próximo governante.

"Eu, se fosse a Delcy Rodríguez [presidente interina], convocava as eleições o mais rápido possível para que o povo pudesse escolher o presidente do país. Do jeito que os EUA tratam a Delcy, dá impressão que os EUA mandam na Delcy. O Marco Rubio faz questão de explicitar que ele que manda na Venezuela, que o dinheiro do petróleo vem para os EUA. Esse não é o jeito correto de fazer política internacional ou relação entre Estados. Se Maduro cometeu erro, tem que ser julgado", concluiu.