Clima de apreensão toma conta da campanha de Lula

Presidente não conseguiu nem dar a arrancada de popularidade que geralmente beneficia os governantes em anos de disputa eleitoral

BATANEWS/VEJA


Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com Renata Vasconcellos e César Tralli nos Estúdios Globo. (Globo/ Manoella Mello/Divulgação)

Apesar de ser um notório otimista, Lula nunca achou que teria vida fácil na campanha eleitoral deste ano, na qual busca conquistar seu quarto mandato presidencial. A força do antipetismo e o alto nível de rejeição ao mandatário, entre outros fatores, prenunciavam desde sempre uma disputa acirrada, tal qual a de 2022, quando ele derrotou Jair Bolsonaro por uma diferença de apenas 1,8 ponto percentual ou 2,1 milhões de votos.

Mesmo cientes das dificuldades, aliados de Lula esperavam que ele ganhasse fôlego e crescesse nas pesquisas de intenção de voto no decorrer da campanha, principalmente a partir do uso da máquina pública e do caixa da União. Foi o que ocorreu com outros candidatos à reeleição. A regra, por sinal, é a popularidade do governante crescer a passos largos em ano eleitoral, o que não está ocorrendo agora com o petista. Daí a frustração e a preocupação.

Em dezembro de 2021, por exemplo, a gestão de Bolsonaro era considerada ruim ou péssima por 53% e ótima ou boa por 22%, segundo o Datafolha. O então presidente recorreu a um pacote bilionário de bondades e — antes do primeiro turno de 2022 contra Lula — sua avaliação positiva já estava em 38%, empatada com a negativa, em 39%. Ou seja, a aprovação do capitão cresceu 16 pontos percentuais no período, enquanto a reprovação caiu catorze pontos.

Quase como uma exceção à regra, Lula está empacado, mesmo depois de anunciar medidas estimadas em mais de 200 bilhões de reais. Em dezembro do ano passado, o governo dele era considerado ruim ou péssimo por 37% e ótimo ou bom por 32%. Agora, conforme o mais recente levantamento do Datafolha, a avalição negativa está em 41% (quatro pontos a mais) e a positiva em 33% (um ponto a mais). Não parece existir mágica capaz de lustrar o imagem do presidente.

Agenda negativa

Em função do cargo, presidentes da República costumam pautar o debate, o que é uma senhora vantagem no embate político. Lula, no entanto, tem fracassado nessa missão. Ele não tem mais a capacidade de mobilização de outrora e não consegue transformar iniciativas que considera estratégicas em agendas positivas de ampla repercussão.

O presidente, que deveria ser o protagonista do noticiário, vive a reboque dos fatos. Algumas de suas iniciativas, como uma nova rodada de renegociação das dívidas das famílias, até tiveram um efeito positivo, mas efêmero, e logo deram lugar a problemas antigos, como a reclamação com o custo de vida, as suspeitas envolvendo o empresário Fábio Luís da Silva, o Lulinha, ou a criminalidade.

No entorno do presidente, muitos concordam com a tese de que Lula sofre de fadiga de material: suas propostas são vistas como ultrapassadas e sua imagem está desgastada depois de três mandatos. Assessores reconhecem que uma fatia considerável do eleitorado se cansou do presidente. E que, mesmo se pudesse gastar livremente, ele não conseguiria reverter essa situação. Por um motivo simples: como Lula não tem um projeto ou definiu um rumo a ser seguido, ninguém sabe o que fazer. A campanha vive de improvisos e sobressaltos.

Depois de sonhar com uma improvável vitória no primeiro turno, os governistas trabalham cada vez mais com a possibilidade de uma derrota no segundo turno. A preocupação só não é maior porque, pelas sondagens atuais, o presidente enfrentará na rodada final Flávio Bolsonaro, que enfrenta desafios parecidos aos de Lula — da rejeição estratosférica à mais completa falta de ideias.