Saúde
Como o machismo pode atrasar tratamento da infertilidade
Embora fator masculino esteja presente em cerca de metade dos casos, ainda é comum que apenas a mulher inicie a investigação
BATANEWS/VEJA
Quando um casal enfrenta dificuldades para engravidar, a primeira suspeita costuma recair sobre a mulher. Exames hormonais, ultrassonografias e consultas ginecológicas frequentemente dão início à investigação, enquanto o homem, muitas vezes, permanece em segundo plano.
O problema é que isso pode atrasar o diagnóstico e o tratamento da infertilidade. O fator masculino está presente em aproximadamente metade dos casos de infertilidade, seja como causa exclusiva, seja em associação com fatores femininos.
Ainda assim, muitos homens demoram a procurar avaliação médica ou resistem à realização de exames simples, como o espermograma, comportamento que pode prolongar o tempo até a identificação da verdadeira causa da dificuldade para engravidar.
Um trabalho apresentado no congresso da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE, na sigla em inglês) revelou significativa falta de medidas preventivas com 88,5% dos homens fazendo o primeiro espermograma apenas porque estavam tentando engravidar, enquanto 3,5% fizeram o exame por prevenção. Outros 50,7% nunca haviam passado por uma consulta andrológica.
Essa realidade está diretamente relacionada à forma como a fertilidade ainda é compreendida pela sociedade. Durante muito tempo, ela foi tratada quase exclusivamente como uma responsabilidade feminina.
A infertilidade é uma condição do casal e precisa ser investigada dessa forma desde o início. Sabemos que o potencial reprodutivo feminino diminui com o passar dos anos, especialmente após os 35 anos. Por isso, atrasar o diagnóstico do fator masculino significa desperdiçar um período importante para o tratamento do casal.
A menor procura dos homens por serviços de saúde já é conhecida em diversas áreas da medicina e também se reflete na reprodução humana. Normas tradicionais de masculinidade podem fazer com que muitos homens associem fertilidade à virilidade, tornando mais difícil reconhecer a possibilidade de um problema reprodutivo ou procurar avaliação médica.
Esse aspecto cultural ainda é pouco discutido e muitos homens entendem um possível diagnóstico de infertilidade como um questionamento da própria masculinidade, quando, na realidade, estamos falando de uma condição médica como qualquer outra.
Sedentarismo, obesidade, tabagismo, consumo excessivo de álcool, uso de drogas recreativas, exposição frequente ao calor na região testicular, privação de sono e até o uso indiscriminado de esteroides anabolizantes podem comprometer a produção e a qualidade dos espermatozoides. A fertilidade masculina também responde ao estilo de vida.
Muitas alterações podem ser prevenidas ou, pelo menos, melhoradas quando identificadas precocemente. Quanto mais cedo o homem participa da investigação, maiores são as chances de encontrarmos a melhor estratégia para o casal.
Quando ambos participam da investigação desde o começo, evitamos atrasos, reduzimos o desgaste emocional e aumentamos as chances de chegar mais rapidamente ao diagnóstico e ao tratamento mais adequado.
*Rodrigo Rosa é ginecologista obstetra especialista em Reprodução Humana, sócio-fundador e diretor clínico da clínica Mater Prime e do Mater Lab, laboratório de Reprodução Humana. É membro da Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) e da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH)





