Saúde
Pensar pouco e opinar sobre tudo: por que isso faz mal aos neurônios | Mens sana
Pensamento reflexivo, que exige mais tempo e menos cartaz digital, é um importante fator de proteção cerebral
BATANEWS/VEJA
O talentosíssimo e afiado escritor angolano-português Valter Hugo Mãe veio recentemente ao Brasil para lançar O Século dos Imbecis, um romance em que transforma a estupidez em uma alegoria. Seu personagem principal, Agilulfo, marquês da Malandrinha, é um homem cuja inteligência varia conforme a altitude: no alto da montanha, é lúcido; à medida que desce do castelo, vai ficando progressivamente mais imbecil.
Em entrevistas, o autor conta que o livro nasceu da percepção de que, na contemporaneidade, “há uma inclinação para a decadência do que é conhecimento”. E vai além: diz que nós, hoje, chegamos a demonstrar certo orgulho da estupidez (“glorificação da ignorância”), que “chafurdamos no raso” e sobrepomos sentimentos e percepções à realidade.
Hugo Mãe nos dá um tapa na cara — mas de forma divertida, porque o tom do livro é irônico. Estará ele errado?
Talvez não: basta olhar o celular. Alguém pergunta o que deveria ser feito em relação às pessoas trans e, em poucos segundos, aparecem certezas de todos os lados — sobre identidade, medicina, educação, direitos e legislação — antes mesmo que muita gente tenha se dado ao trabalho de entender a complexidade da questão.
O mesmo acontece quando discutimos neurodivergência: rapidamente passamos de uma tentativa de compreender o fenômeno para certezas sobre o que é transtorno, o que é diferença, o que deve ser tratado e o que deve ser simplesmente aceito.
E, se o assunto for a guerra no Oriente Médio, então, nem se fala: opiniões definitivas aparecem de pessoas que provavelmente teriam dificuldade para apontar no mapa os países envolvidos. Agora, um especialista em aviação brasileiro e influenciador com milhões de seguidores desenvolve, tragicamente, uma grave doença neurodegenerativa e lá vêm os oportunistas de plantão afirmar, sem nenhuma evidência — nem empatia — que alguma vacina causou aquilo.
Podemos acrescentar eleições, segurança pública, drogas, economia, educação. Escolha o assunto. A opinião vem antes da pesquisa.
E sabe o que é curioso? Essa disposição para pensar pouco e opinar sobre tudo tem muito a ver com outro assunto que a humanidade anda cada vez mais interessada em discutir: como envelhecer bem e, particularmente, como preservar nosso cérebro ao longo de uma vida cada vez mais longeva.
Impacto cerebral
Um dos estudos mais fascinantes sobre envelhecimento e cognição é o Nun Study (Estudo das Freiras), iniciado em 1986 pelo epidemiologista David Snowdon. Ele e sua equipe acompanharam 678 freiras da School Sisters of Notre Dame, com 75 anos ou mais na entrada do estudo, realizando avaliações cognitivas periódicas e, depois da morte, exames de seus cérebros.
O estudo permitiu acompanhar o funcionamento cognitivo dessas mulheres ao longo da vida. Como elas viviam em condições muito semelhantes dentro do monastério, foi possível comparar este percurso com as alterações encontradas posteriormente em seus cérebros. Trinta anos depois de seus primeiros achados mais conhecidos, uma revisão publicada em 2025 reuniu o que aprendemos com essa extraordinária coorte.
Os resultados dessa pesquisa ajudaram a mudar nossa compreensão do Alzheimer: algumas mulheres apresentavam, depois da morte, alterações cerebrais características da doença e, ainda assim, não haviam desenvolvido demência. A irmã Mary, que morreu aos 102 anos, tornou-se o exemplo mais famoso. Seu cérebro apresentava placas amiloides e emaranhados da proteína tau associados à doença de Alzheimer, mas ela havia mantido um desempenho cognitivo extraordinário.
Como pode um cérebro ter sinais importantes de uma doença e, ainda assim, a pessoa funcionar tão bem?
A resposta não está em um único fator. A presença de alterações cerebrais não determina, sozinha, o aparecimento da demência. Hoje, inclusive, já conseguimos detectar, através de exame de sangue, recém aprovado pela Anvisa, alterações biológicas associadas à doença de Alzheimer anos antes do aparecimento dos sintomas clínicos.
É nesse espaço entre a doença cerebral e sua manifestação clínica que entram os conceitos de reserva e resiliência cognitiva: a capacidade de apresentar um funcionamento cognitivo melhor do que seria esperado diante das alterações cerebrais acumuladas ao longo da vida. Ou, mais simplesmente, a habilidade do cérebro de improvisar, adaptar-se e encontrar formas alternativas de fazer o que precisa ser feito diante dos desafios.
Um dos detalhes mais deliciosos do Nun Study é que as freiras haviam escrito pequenas autobiografias quando entraram para a vida religiosa, em média aos 22 anos. Décadas depois, os pesquisadores voltaram a esses textos e encontraram uma associação surpreendente: aquelas que, jovens, conseguiam expressar ideias mais ricas e elaboradas apresentavam, muitas décadas depois, melhor funcionamento cognitivo e menor probabilidade de alterações compatíveis com a doença de Alzheimer.
Outros estudos, feitos posteriormente em populações diferentes, encontraram associações semelhantes entre a riqueza da linguagem e a trajetória cognitiva na velhice.
E sabe o outro ponto, que bate ainda mais diretamente na vida de quem já passou dos 50 anos — e que pode aparecer em diferentes momentos da vida? Às vezes a memória começa a nos pregar pequenas peças: entramos em um cômodo e esquecemos o que fomos fazer ali, uma palavra fica na ponta da língua e simplesmente não volta, uma informação recente escapa ou precisamos de mais tempo para aprender alguma coisa nova.
Quando essas mudanças cognitivas são maiores do que seria esperado para a idade, mas ainda não comprometem significativamente a vida cotidiana, podemos estar diante do comprometimento cognitivo leve.
E aqui vem a parte especialmente interessante: CCL não é necessariamente uma viagem só de ida. No Nun Study, entre 472 participantes que tiveram CCL em algum momento, 143 — 30,3% — conseguiram eventualmente melhorar sua performance cognitiva, que foi classificada como normal.
E, dessas, 120 não desenvolveram demência durante o longo acompanhamento. Novamente, uma maior escolaridade, desempenho acadêmico e características da linguagem, como densidade de ideias e complexidade gramatical, estiveram associados a maior probabilidade dessa melhora.
O conjunto desses achados aponta para uma ideia bastante estimulante: escolaridade, aprendizagem, curiosidade e atividade intelectual ao longo da vida fazem parte dos recursos associados à nossa resiliência e reserva cognitiva e podem ajudar o cérebro a lidar melhor com o envelhecimento. Não é uma garantia contra a doença de Alzheimer e outras demências, claro – isso ainda não existe. Mas é mais uma razão para continuarmos usando o cérebro, mesmo quando já achamos que sabemos bastante.
Meu jovem amigo Tiago, de 21 anos, parece saber intuitivamente disso. Inteligente, curioso e sensível, conta que não gosta — “odeio!”, corrige ele — de estar errado, de falar besteira. Sua estratégia? Percebe rapidamente quando o assunto é complexo, enroscado. Nesses casos, ouve muito mais do que fala, estuda, lê, pesquisa profundamente — dependendo do seu interesse pelo assunto. Em muitas situações, não dá opinião nenhuma, talvez porque nunca chegue ao ponto em que considere ter conhecimento suficiente para isso. Certo está ele.
Esse é o nosso desafio: continuar pensando, mesmo quando seria muito mais fácil simplesmente emitir uma opinião. Pensar (profundamente) pode dar algum trabalho. Mas, ao que tudo indica, também faz bem. Afinal, ninguém quer terminar como o marquês da Malandrinha, descendo a montanha e deixando a inteligência pelo caminho.
* Ilana Pinsky é psicóloga clínica e doutora pela Unifesp. É coautora dos livros Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Contexto) e Longevidade Hoje (Fósforo). Foi consultora da OMS e da OPAS e professora da Universidade Colúmbia. Siga a colunista no Instagram





