Policial
MS registra 42 suicídios de indígenas em 2025, 2º maior número do País
Estado ficou atrás apenas do Amazonas; levantamento nacional mostra maior concentração das mortes entre jovens
BATANEWS/CGNEWS
Mato Grosso do Sul registrou 42 suicídios de indígenas em 2025 e ficou na segunda posição entre os estados brasileiros com maior número de casos, segundo o relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil - 2025, divulgado pelo Cimi (Conselho Indigenista Missionário).
O Estado ficou atrás apenas do Amazonas, que contabilizou 77 mortes, e à frente de Roraima, com 37.
Ao todo, o Brasil registrou 215 suicídios de indígenas em 2025, número superior aos 208 casos contabilizados no ano anterior. Dos casos registrados no país, 151 foram de homens e 64 de mulheres. Os homens representaram 70,2% das mortes.
Em Mato Grosso do Sul, dos 42 casos, 31 envolveram homens e 11 mulheres. Amazonas, Mato Grosso do Sul e Roraima aparecem há anos entre os estados com os maiores números de suicídios de indígenas.
O relatório do Cimi relaciona a situação a contextos de violência e vulnerabilidade social e aponta ausência ou insuficiência de políticas públicas voltadas ao problema.
Para o professor da etnia terena, Kleber Gomes, mestre em Ensino de História pela UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), ouvido pela reportagem, diferentes fatores contribuem para o cenário registrado em Mato Grosso do Sul.
Entre eles estão a vulnerabilidade social, o alcoolismo, a ausência de políticas públicas e a falta de perspectiva de vida.
“Todos esses juntos elencados, infelizmente. Aliado ao desrespeito até hoje por parte do Estado brasileiro, em não cumprimento ao que preconiza a Constituição quanto à demarcação de nossos territórios', afirmou.
Segundo o professor, a questão territorial também contribui para prolongar a situação de angústia vivenciada pelos povos indígenas.
“Em 1988, ano da promulgação da CF, o documento dizia que em cinco anos os territórios todos deveriam estar demarcados. Quase quatro décadas depois, aqui estamos nós, os povos originários não só do MS, mas de todo o Brasil, diante da morosidade estatal e das ações dos grandes grupos econômicos e de poder do país prolongando essa angústia nossa', relatou.
O recorte nacional mostra uma concentração dos suicídios entre indígenas mais jovens. Dos 215 casos registrados em todo o país, 88 ocorreram entre pessoas de 20 a 29 anos, o equivalente a 40,9% do total. Outros 74 casos, ou 34,4%, envolveram indígenas com até 19 anos.
Também foram contabilizados 21 casos entre indígenas de 30 a 39 anos, 28 entre pessoas de 40 a 59 anos e quatro entre indígenas com 60 anos ou mais.
Sobre o perfil das vítimas, o professor afirma que os casos atingem principalmente homens e jovens. Ele explica que as comunidades têm buscado acompanhar pessoas identificadas com problemas relacionados à saúde mental.
“Comunidades têm buscado caminhar juntamente com os casos identificados de pessoas com saúde mental afetada. São realizados acompanhamentos por parte das lideranças locais, lideranças religiosas tradicionais e também a busca por apoio entre aliados não indígenas que trabalham com acompanhamento de pessoas que estejam com a saúde mental debilitada', disse.
As escolas indígenas também têm desempenhado papel nesse acompanhamento, conforme o professor. Professores, coordenadores e gestores são apontados como parceiros na tentativa de reduzir os números.
“Espaços escolares principalmente em se tratando de escolas indígenas, visto que nesses locais são valorizados os saberes tradicionais, a ancestralidade e as línguas maternas das comunidades', afirmou.
Na avaliação sobre conflitos relativos a direitos territoriais, o levantamento registrou 21 ocorrências em Mato Grosso do Sul em 2025.
Estatísticas - Dados do Sigo Estatística, da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública), apontam que Mato Grosso do Sul registrou 342 suicídios em 2025, sendo 254 no interior do Estado.
Considerando os 42 casos de suicídio de indígenas apontados pelo Cimi, eles representam aproximadamente 16,5% dos suicídios registrados no interior de Mato Grosso do Sul e 12,3% do total estadual.
Os números, porém, têm bases diferentes: enquanto o levantamento da Sejusp reúne os registros gerais de suicídios no Estado, os dados do Cimi são específicos para a população indígena e foram compilados a partir de informações do Sistema de Informações sobre Mortalidade, secretarias estaduais de saúde e Secretaria de Saúde Indígena.





