Policial
De tiros a sequestro, relatório aponta risco de escalada de ataques a indígenas
Relatório aponta 18 tentativas de assassinato, 37 mortes e 42 suicídios de indígenas em MS em 2025
BATANEWS/CGNEWS
Ataques a tiros contra barracos, ações policiais com bombas de gás e balas de borracha, sequestro e até violência sexual aparecem entre os episódios registrados em retomadas indígenas de Mato Grosso do Sul ao longo de 2025. Os casos integram o relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil, divulgado pelo Cimi (Conselho Indigenista Missionário).
O documento aponta uma sequência de confrontos principalmente em áreas ocupadas por comunidades Guarani e Kaiowá que reivindicam o reconhecimento ou a conclusão da demarcação de territórios tradicionais. Entre os locais citados estão Guyraroka, em Caarapó, Iguatemipegua I, em Iguatemi, e Dourados-Amambaipeguá III.
Em Guyraroka, uma das áreas que mais aparecem no relatório, os conflitos se intensificaram a partir de setembro. Segundo o Cimi, a comunidade retomou parte da Fazenda Ipuitã, sobreposta à terra indígena, depois de denunciar pulverização de agrotóxicos próxima às moradias.
No dia seguinte à ocupação, conforme o relatório, a Tropa de Choque da PM (Polícia Militar) realizou uma ação no local. Pelo menos dois indígenas foram atingidos por balas de borracha e outros sofreram agressões. O Cimi afirma que a intervenção ocorreu sem ordem judicial e sem a presença da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas).
A tensão continuou nas semanas seguintes. Em 17 de outubro, outra intervenção policial ocorreu durante um protesto contra o avanço de tratores e o plantio próximo à comunidade. Quatro indígenas, três mulheres e um adolescente de 14 anos, foram atingidos por balas de borracha. Outras cinco pessoas, entre elas duas gestantes, sofreram intoxicação pela fumaça das bombas de gás, segundo o documento.
Dias depois, o relatório descreve um dos episódios mais graves registrados em Guyraroka. Uma adolescente de 17 anos teria sido capturada e levada até a sede da Fazenda Ipuitã por homens apontados como jagunços. Um indígena que tentou resgatá-la foi recebido com quatro disparos de arma de fogo. Outros moradores chegaram ao local e houve um tiroteio, até que a jovem foi libertada.
Posteriormente, um relatório de escuta produzido por órgãos públicos a pedido da Aty Guasu registrou que a adolescente teria sofrido violência sexual enquanto esteve sequestrada, conforme reproduz o Cimi.
Outro ataque registrado pelo documento ocorreu em setembro na retomada de Porto Cambira, dentro da TI (Terra Indígena) Dourados-Amambaipeguá III. Segundo o relatório, homens armados dispararam contra os indígenas e destruíram barracos. No mesmo dia, policiais utilizaram bombas de gás e balas de borracha durante ação na área. O Cimi afirma que os ataques continuaram durante semanas.
O relatório também contabiliza 18 casos de tentativa de assassinato de indígenas em Mato Grosso do Sul em 2025, diante de 38 ocorrências registradas em todo o país. Isso significa que aproximadamente 47% dos casos sistematizados pelo Cimi ocorreram no Estado.
Segundo a entidade, parte dessas tentativas está diretamente relacionada aos ataques contra comunidades e retomadas Guarani e Kaiowá. O documento relata situações em que homens armados dispararam contra casas e barracos, colocando em risco pessoas que estavam dentro das áreas ocupadas.
Assassinato em território reivindicado
Em novembro, a violência terminou em morte na TI Iguatemipegua I, em Iguatemi. O Guarani-Kaiowá Vicente Fernandes Vilhalva foi morto com um tiro na cabeça durante um ataque à retomada de Pyelito Kue.
Segundo o relatório, a comunidade teria sido cercada por veículos ocupados por cerca de 20 homens ligados a fazendeiros da região. Além de Vicente, outros quatro indígenas, entre eles dois adolescentes e uma mulher, foram atingidos por tiros. Barracos, alimentos, roupas e outros pertences foram destruídos ou incendiados.
O próprio resumo executivo do Cimi cita a morte de Vicente entre três assassinatos considerados emblemáticos dos conflitos territoriais registrados no país em 2025. Segundo a entidade, os três casos ocorreram em terras indígenas já delimitadas oficialmente, mas cujos processos de regularização se arrastam há mais de uma década.
37 assassinatos, mas causas não são detalhadas
Além dos episódios individualizados pelo Cimi, dados oficiais utilizados no relatório mostram que 37 indígenas foram assassinados em Mato Grosso do Sul em 2025, sendo 33 homens e quatro mulheres. O Estado teve o terceiro maior número do país, atrás de Roraima, com 82 mortes, e Amazonas, com 47. Esse número, porém, não significa que as 37 mortes tenham ocorrido por conflitos de terra.
O total vem de bases oficiais de mortalidade e não traz informações suficientes sobre o povo, a comunidade ou o território das vítimas. O próprio Cimi explica que os dados disponibilizados não permitem análises mais aprofundadas sobre as circunstâncias dos assassinatos. Portanto, não é possível afirmar, com base no levantamento, quantas dessas mortes decorreram de disputas fundiárias e quantas tiveram relação com violência doméstica, criminalidade comum, conflitos pessoais ou outras situações.
Para tentar compreender os contextos, o Cimi mantém um levantamento paralelo próprio, baseado em informações de suas equipes e notícias publicadas pela imprensa. Por essa metodologia, foram identificados 16 indígenas assassinados em Mato Grosso do Sul em 2025.





