Agricultura
O filho não saiu do campo, foi afastado da gestão
Especialista aponta que centralização das decisões e falta de planejamento estão entre as principais causas do fracasso da sucessão familiar.
BATANEWS/OPR
A sucessão familiar no campo deixou de ser uma discussão sobre herança e passou a ser uma questão de gestão. Em um cenário de propriedades mais tecnificadas, custos elevados e mudanças no perfil das novas gerações, a continuidade dos negócios rurais depende cada vez mais da capacidade das famílias de preparar os sucessores e profissionalizar a administração.
Para o mestre em Administração e especialista em Agronegócio Milton Melz, o erro mais comum é acreditar que a sucessão começa quando os pais envelhecem ou decidem se afastar da atividade. “A sucessão historicamente nunca foi preparada. Ela acontecia de forma natural ou por imposição. Hoje o momento ideal é quando você percebe que o filho está crescendo e o envolve na atividade”, afirma.
Segundo ele, durante décadas a escolha do sucessor era praticamente automática. Em famílias numerosas, um dos filhos permanecia na propriedade, assumia os cuidados com os pais e pagava os irmãos pela herança. Com o passar dos anos, esse modelo perdeu espaço diante das transformações do agronegócio.
Ao mesmo tempo em que muitas propriedades expandiram e incorporaram tecnologia, parte das famílias manteve uma estrutura de gestão excessivamente centralizada, afastando os filhos das decisões estratégicas. “Propriedades onde os pais sempre foram centralizadores e mantinham o filho quase como funcionário, sem participar das decisões e do planejamento, acabaram ficando para trás”, menciona.
Na avaliação de Melz, a falta de participação dos jovens no dia a dia da gestão é um dos fatores que mais dificultam a sucessão. “Se sentir parte do processo é o que mais impacta. Os filhos precisam entender que vale muito a pena ficar no campo, que é uma atividade digna e que pode gerar rentabilidade maior do que trabalhar em qualquer outra empresa”, ressalta.
Para o especialista, são poucas as famílias que discutem o futuro do negócio de forma estruturada, com metas definidas, planejamento financeiro e divisão de responsabilidades. “Não se resolvem problemas da propriedade no almoço e nem no café da manhã. Precisa ser encarada como uma empresa”, salienta.
Mestre em Administração, com MBA em Agronegócio, Milton Melz: “Os filhos precisam entender que vale muito a pena ficar no campo'
Segundo Melz, é preciso definir quem faz o quê, estabelecer regras e permitir que os filhos participem das decisões. “Quando os pais entendem que colocar o filho para estudar e dar a oportunidade de ele crescer e se desenvolver na propriedade, isso com certeza vai dar certo. Mas tudo tem que ser preparado”, relata.
O especialista observa que a sucessão hoje envolve inclusive questões tributárias e patrimoniais, exigindo planejamento muito antes da transferência formal da propriedade. “Hoje não se discute mais somente como passar a propriedade para o filho. Também se fala da parte econômica, dos impostos e da forma menos custosa para ele assumir”, detalha Melz.
A transformação tecnológica do campo é vista por Melz como um dos principais atrativos para as novas gerações. Os jovens buscam formação em áreas como Agronomia, Medicina Veterinária e Zootecnia e retornam às propriedades com maior familiaridade com agricultura de precisão, automação e conectividade. “Hoje já estamos falando em agricultura 6.0. O jovem se atrai por isso porque nasceu dentro da geração da tecnologia.”
Mas a modernização também gera divergências. Segundo ele, muitos filhos chegam dispostos a investir em máquinas e equipamentos, enquanto os pais costumam ser mais cautelosos. “Os filhos são muito corajosos e, por vezes, o produtor conquista qualidade de vida durante o dia e perde a qualidade de sono à noite porque investe sem planejamento”, diz. “Tem que saber o que cabe e o que não cabe nas propriedades”, afirma.
Apesar das dificuldades para formar sucessores, Melz não acredita em redução da produção agropecuária nas próximas décadas. A tendência, segundo ele, é de concentração. “Vai acontecer um aumento de escala de produção e, ao mesmo tempo, as propriedades existentes vão incorporar propriedades menores”, avalia.
O especialista cita como exemplo a suinocultura do Oeste catarinense. Quando entrou na atividade, em 2000, uma cooperativa da região reunia mais de cem produtores e cerca de 22 mil matrizes. Hoje, são 68 produtores e mais de 62 mil matrizes. “Triplicou a produção e se reduziu a 30% o número de produtores”, relata.
Na avaliação dele, a lógica econômica favorece propriedades maiores, com maior escala e capacidade de diluir custos. “Eu particularmente acho que a falta de sucessores não vai impactar a produção das cooperativas, porque essas propriedades serão incorporadas a outras”, enfatiza.
Se a falta de sucessores não ameaça a produção, a escassez de trabalhadores já é uma realidade em muitas regiões. Melz afirma que a mão de obra estrangeira passou a ocupar um espaço importante nas propriedades rurais, especialmente no Sul do Brasil. “A gente percebe que está tendo muitos emigrantes no Brasil. Se não fosse a mão de obra estrangeira nós estávamos sem mão de obra aqui”, diz.
Na propriedade dele, seis dos 23 colaboradores são argentinos. “Essa é uma realidade não só da nossa granja. A maioria das granjas do Oeste catarinense está usando mão de obra argentina”, relata.
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