Os ingredientes e aditivos nos alimentos que podem fazer a pressão decolar

Estudo identifica 11 aditivos em ultraprocessados que podem aumentar risco de hipertensão, incluindo aromatizantes, corantes e adoçantes

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Vilões da saúde: aditivos presentes em alimentos ultraprocessados podem aumentar risco de hipertensão (Getty Images/Reprodução)

Eles deixam os alimentos com cheiro, aparência e gosto sedutores, mas também os transformam em vilões para a saúde. Além de aumentarem os índices de obesidade, aditivos presentes em produtos ultraprocessados, como aromatizantes, corantes, adoçantes e diferentes tipos de açúcar também podem elevar o risco de hipertensão.

É o que mostra um estudo recém publicado na revista científica European Heart Journal, considerado o primeiro a investigar como ingredientes específicos presentes nessa categoria de alimentos podem aumentar a incidência de pressão alta, condição que afeta mais de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo, sendo cerca de 30 a 38 milhões só no Brasil.

“O presente estudo exploratório é o primeiro a examinar sistematicamente a associação entre nove categorias de matérias-primas ultraprocessadas (MUPs) e 37 componentes específicos desse grupo e a incidência de hipertensão arterial”, afirmam os autores no estudo.

A análise avaliou dados de 101.560 participantes do UK Biobank, banco de dados de saúde pública britânico. Nenhum deles tinha hipertensão no início da análise. A idade mediana dos participantes era de 56 anos.

Os voluntários preencheram pelo menos um e até cinco formulários pelo Oxford WebQ, uma ferramenta digital desenvolvida pela Universidade de Oxford para registrar e avaliar o consumo de alimentos e bebidas de uma pessoa nas últimas 24 horas.

Para avaliar a ingestão de alimentos ultraprocessados e minimamente processados, os pesquisadores coletaram listas de ingredientes, tamanho das porções e informações nutricionais de até 10 marcas ou versões comerciais para cada alimento listado no questionário. Os produtos foram pesquisados nos sites dos principais supermercados do Reino Unido.

A lista resultou em 2459 produtos, que serviram de base para classificar e estimar a quantidade de ultraprocessados e minimamente processados consumidos pelos participantes. O estudo acompanhou os voluntários por 10,5 anos, período em que 7.633 deles receberam o diagnóstico de hipertensão.

Os ingredientes-vilões

A pesquisa aponta que o consumo de alguns ingredientes presentes em alimentos ultraprocessados apresentou associações significativas com a incidência de hipertensão arterial.

Dos 33 ANPs (aditivos não processados) analisados individualmente, 15 tiveram alguma associação significativa com a ocorrência de pressão alta. Isso significa que seu consumo esteve relacionado a uma maior ocorrência da doença.

Entre eles, 11 apresentaram associação positiva, ou seja, quanto maior a presença desses componentes nos alimentos consumidos, maior foi a incidência de hipertensão observada no estudo. São eles:

Já o consumo de alimentos contendo realçadores de sabor, auxiliares de processamento, óleo modificado e fibras adicionadas não foi associado ao risco de hipertensão arterial.

O perigo do “sabor adicionado”

No estudo, os pesquisadores mencionam trabalhos anteriores do mesmo grupo de pesquisa que associaram o “sabor adicionado” aos ultraprocessados ao ganho de peso e à obesidade. Eles apontam que os corantes, por exemplo, podem modificar a percepção sensorial e incentivar a preferência por alimentos específicos.

Já os adoçantes podem “interromper a associação fundamental aprendida entre o sabor doce e o fornecimento de energia pós-ingestiva”. Ou seja, quando a pessoa consome um adoçante, sente o gosto doce, mas não recebe as calorias esperadas. Com isso, a associação entre sabor doce e energia pode ficar enfraquecida e o corpo pode compensar depois, aumentando a ingestão de alimentos, o que, a longo prazo, poderia favorecer o ganho de peso.

Além disso, segundo os pesquisadores, o alto teor de açúcar presente em muitos alimentos ultraprocessados também está associado ao consumo excessivo de alimentos e ao maior risco de obesidade.

“Considerando esses achados, é plausível que o sabor adicionado, os corantes, os adoçantes e as variedades de açúcar promovam a alimentação excessiva e o ganho de peso, que, por sua vez, podem estar relacionados ao desenvolvimento da hipertensão arterial“, afirma o estudo. “No entanto, até onde sabemos, nenhum efeito direto desses produtos de uso misto sobre a pressão arterial tinha sido demonstrado até o momento”.

Os motivos por trás dessa associação provavelmente são múltiplos. Os autores citam a ingestão excessiva de sódio, que, por sua vez, pode causar retenção de líquidos no corpo, deficiências nutricionais e disfunções no endotélio, a camada fina que reveste a parte de dentro de todos os vasos sanguíneos e do coração.

Os autores também destacam algumas limitações do estudo. A análise não conseguiu acompanhar possíveis mudanças na alimentação dos participantes ao longo do tempo e pode ter sido influenciada por outros fatores que afetam o risco de hipertensão, mas que não foram considerados ou medidos com precisão.

Além disso, a hipertensão foi identificada apenas por registros de diagnóstico, o que pode ter deixado alguns casos de fora, e os dados sobre alimentação foram relatados pelos próprios participantes, sujeitos a esquecimentos ou imprecisões.

No entanto, os resultados sugerem que é necessário reavaliar a classificação atual desses componentes e de investigar, em estudos futuros, quais mecanismos poderiam explicar sua relação com a hipertensão. “Esses ingredientes são candidatos ideais para estratégias de redução do consumo excessivo de alimentos”, aposta o estudo.