Como o El Niño pode afetar a produção de soja, café, trigo, leite e hortaliças

Irregularidade das chuvas e temperaturas extremas podem afetar o desempenho de diferentes culturas e da pecuária, exigindo monitoramento climático e ajustes no manejo ao longo da safra.Compartilhe: Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook Compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp Compartilhar no LinkedIn(abre em nova janela) LinkedIn Compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram

BATANEWS/OPR


Foto: R.R.Rufino

A confirmação do retorno do El Niño recoloca o clima no centro das decisões do agronegócio brasileiro. O aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial modifica o regime de chuvas e as temperaturas em diferentes regiões do país, afetando desde o calendário de plantio até a produtividade das lavouras e da pecuária.

Embora os efeitos variem conforme a região, a irregularidade climática tende a exigir mudanças no planejamento das propriedades rurais. Enquanto parte do Centro-Sul pode enfrentar períodos de calor intenso e estiagens, a Região Sul deve conviver com chuvas acima da média durante etapas importantes da colheita de culturas como trigo e milho.

Segundo o engenheiro agrônomo Glauco Eduardo Pereira Cortez, diretor de Relações Profissionais do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP), o primeiro impacto costuma ocorrer sobre o calendário agrícola. “O calendário agrícola pode ser alterado porque a irregularidade de chuvas provocada pelo El Niño desorganiza o planejamento que é feito nas áreas produtoras. Um bom exemplo é na plantação de soja. Se for plantada tardiamente, ela amadurece em condições climáticas menos favoráveis, sofre com o calor excessivo e, como consequência, tem menor rendimento na safra”, afirma.

Chuva e calor afetam culturas de forma diferente

Os impactos variam conforme a cultura e a região produtora. No Sul, o excesso de chuva durante a colheita pode impedir a entrada de máquinas nas lavouras, aumentando o risco de germinação dos grãos ainda na espiga ou de deterioração da produção antes da colheita.

Já em São Paulo e em outras áreas do Centro-Sul, as temperaturas elevadas e a irregularidade das chuvas afetam principalmente culturas perenes, como citros e café.

Segundo Glauco, o calor intenso durante a primavera interfere diretamente na frutificação dos pomares. “O grande volume de calor pode prejudicar tanto os animais quanto as plantas, e nas culturas perenes o risco é vermos as flores caírem antes de virarem frutos. No caso da citricultura paulista, as temperaturas extremas na fase de pós-florada fazem com que a planta aborte a produção como um mecanismo de sobrevivência ao estresse hídrico, fazendo com que haja uma quantidade menor de laranjas colhidas e prejudica a qualidade final, gerando frutos menores, com casca mais grossa e menor rendimento de suco para a indústria”, ressalta.

Na cafeicultura, a combinação entre calor e chuvas irregulares pode provocar floradas desuniformes e maturação irregular dos frutos, comprometendo a qualidade da produção e favorecendo a incidência de pragas.

Hortaliças e leite também estão entre os setores mais sensíveis

Os efeitos do El Niño também podem chegar rapidamente ao consumidor por meio da produção de hortaliças. Ambientes mais quentes e úmidos favorecem a ocorrência de doenças fúngicas, como mela em alface e ferrugem em tomate e batata. No tomate, as altas temperaturas ainda podem comprometer o enchimento dos frutos, reduzindo o peso e a qualidade comercial.

Na pecuária leiteira, o principal desafio é o estresse térmico dos animais. “As vacas sob estresse térmico produzem menos leite. Esse quadro gera uma redução imediata na produção de leite, que pode variar entre 10% e 30%, além de comprometer os teores de gordura e proteína. Paralelamente, as pastagens sofrem com a estiagem, obrigando o produtor a investir em suplementação com alimentos concentrados para manter o escore corporal do gado, o que eleva o custo operacional da atividade”, explica.

Planejamento reduz riscos diante da instabilidade climática

Para reduzir os impactos do fenômeno, o engenheiro agrônomo destaca que a adoção de estratégias de manejo deve começar antes mesmo da implantação da lavoura.

Entre as medidas citadas estão o uso de sistemas de irrigação e drenagem conforme as condições de cada região, cultivares mais tolerantes ao calor e à seca, monitoramento de pragas e doenças e investimentos em estruturas de secagem e armazenagem para preservar a qualidade dos grãos após a colheita.

Segundo Glauco, acompanhar as previsões meteorológicas e trabalhar com diferentes cenários passou a fazer parte da gestão das propriedades rurais. “O produtor precisa trabalhar com cenários, tendo os planos A, B e C desenhados para agir de acordo com o comportamento do clima, seja ele de normalidade, seca ou chuva excessiva”, enfatiza