MST radicaliza discurso e expõe projeto de poder, não de terra | Brasilagro

POR LUCIA FESTUCCIA


Foto: Divulgação

O manifesto mais recente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) escancara o que críticos já apontavam há anos: a reforma agrária deixou de ser o centro da pauta do movimento e virou pretexto para um projeto político muito mais amplo. No documento, a organização declara apoio à reeleição de Lula, defende abertamente o socialismo, propõe taxar o agronegócio e manifesta solidariedade a Cuba e à Venezuela.

Não é novidade a proximidade entre o MST e o Partido dos Trabalhadores. Mas a explicitação dessas posições em um manifesto público reforça a leitura de que o movimento funciona, cada vez mais, como braço político do governo — e cada vez menos como representante de trabalhadores rurais sem terra.

Um dos pontos mais graves é a defesa da ampliação da carga tributária sobre o agronegócio, setor que sustenta boa parte das exportações, dos empregos e da produção de alimentos do país. Enquanto o Brasil disputa espaço no mercado internacional, o MST propõe justamente enfraquecer o segmento que mantém a economia nacional de pé, numa demonstração de desconhecimento, ou desprezo deliberado, pelo papel que o campo cumpre.

O movimento justifica a proposta dizendo que “grandes grupos econômicos” devem financiar políticas sociais. É um discurso conhecido, que ignora a heterogeneidade do setor, da pequena propriedade ao grande produtor, e trata o agronegócio como adversário a ser combatido, não como parceiro a ser fortalecido.

A reafirmação explícita do socialismo como modelo de sociedade também merece destaque, não pela novidade, mas pela insistência. Trata-se de um projeto que, mundo afora, tem histórico de fracasso econômico e restrição de liberdades — e que o MST, ainda assim, escolhe repetir como bandeira, décadas depois de suas falências mais evidentes.

Mas o trecho mais grave do manifesto é a solidariedade expressa a Cuba e à Venezuela. Os dois regimes são apontados, por organismos internacionais e entidades de direitos humanos, como responsáveis por perseguição política, censura e desmonte de instituições democráticas. Ao declarar apoio a esses governos, o MST não erra por ingenuidade: revela, com todas as letras, que referências autoritárias seguem no centro do seu projeto político.

O documento deixa claro que o debate sobre o MST não é mais sobre terra. É sobre poder, sobre Estado e sobre que tipo de país o movimento quer construir — mesmo que isso signifique romper de vez com qualquer pretensão de representar, de forma legítima e plural, os trabalhadores rurais brasileiros.

Ao unir apoio a Lula, taxação do agronegócio, defesa do socialismo e simpatia por regimes autoritários, o MST não deixa dúvidas sobre seu projeto. Resta à sociedade brasileira — e sobretudo ao setor produtivo, alvo direto dessas propostas — decidir se aceitará ser financiadora compulsória de uma agenda que despreza o próprio motor que sustenta a economia do país.

Sobre a autora

Lucia Festuccia é advogada com sólida atuação jurídica em Ribeirão Preto. Ao longo de sua trajetória, consolidou-se pela defesa de princípios, pela experiência prática no Direito e pelo engajamento nos debates políticos contemporâneos. Ativista e voz atuante no cenário público, integra o time de articulistas do portal BrasilAgro, contribuindo com análises jurídicas, institucionais e sociais. Também atua como membro da equipe pedagógica e consultora jurídica do Instituto Cultural Voluntários pelo Brasil, desenvolvendo ações voltadas à formação cidadã, à valorização da cultura e ao fortalecimento das instituições; 3/8/26