Cotidiano
Demitir trabalhador por vício em bets traz custos a empresa e pode render ação na Justiça; entenda
BATANEWS/FOLHA
Demitir trabalhadores por vício em bets pode trazer custos adicionais à empresa, mesmo em caso de dispensa por justa causa. O TST (Tribunal Superior do Trabalho) estuda comparar a ludopatia ao alcoolismo, doença que tem proteção na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) contra este tipo de demissão, considerada a maior punição a um trabalhador.
Cálculos feitos pelo economista Rogério Nagamine a pedido Folha mostram que os custos da demissão sem justa causa representam mais de o triplo do salário do trabalhador apenas ao considerar o pagamento do aviso-prévio indenizado e a multa de 40% sobre o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço).
Na comparação com a justa causa, o custo da demissão sem justa causa pode ser duas vezes e meia maior. Segundo especialistas, dependendo da situação, há ainda mais prejuízos com ação na Justiça do Trabalho por dispensa discriminatória. Neste caso, a empresa é obrigada a reintegrar o profissional e pagar salários vencidos.
A demissão sem justa causa de um trabalhador com salário de R$ 5.000, com cinco anos de empresa e saldo no FGTS de R$ 24 mil pode chegar a R$ 28.767, somando verbas rescisórias, aviso-prévio indenizado, salário, férias, adicional de férias e multa do FGTS.
No caso da dispensa por justa causa, os custos ficariam em torno de R$ 11.667, ao somar apenas salário e férias vencidas. Na demissão comum, o aviso-prévio de 45 dias representa um valor de R$ 7.500, enquanto a multa do FGTS soma R$ 9.600. Juntos equivalem a 3,4 salários mensais do empregado e correspondem à maior parte da diferença entre as duas modalidades de desligamento.
'Do ponto de vista do empregador, a principal diferença é que a demissão sem justa causa gera custos rescisórios significativamente maiores, especialmente em razão do aviso-prévio indenizado [quando aplicável] e da multa de 40% sobre o FGTS. Já na demissão por justa causa, essas parcelas não são devidas', diz ele.
Nagamine afirma que este tipo de dispensa traz custos não só para as empresas, mas também para o governo federal, pois há o pagamento do seguro-desemprego, cujo valor depende de regras específicas, além do saque do FGTS. O fundo é considerado uma poupança do trabalhador, mas o governo usa os recursos para políticas de habitação e de saneamento básico.
A advogada trabalhista Elisa Alonso, sócia do RCA Advogados, diz que a possível equiparação da ludopatia ao alcoolismo pelo TST tende a aumentar os riscos jurídicos para as empresas nas demissões envolvendo empregados que apostam em bets.
Segundo ela, o vício por si só não justifica uma justa causa. Além disso, se ficar provado que havia uma doença, há possibilidade de a Justiça reconhecer como demissão discriminatória e determinar a reintegração do trabalhador.
'A dispensa sem justa causa pode acontecer a qualquer momento, porque está dentro do poder diretivo da empresa. O que pode fundamentar a justa causa é jogar durante o expediente, atrasar muito por conta dos jogos, não produzir por estar vinculado às apostas ou desviar dinheiro para jogar.'
Na demissão sem justa causa, o empregador pode demitir o funcionário a qualquer momento e deve pagar verbas rescisórias como aviso-prévio, férias proporcionais, multa de 40% do FGTS e demais direitos.
O risco é haver ação judicial questionando o motivo. Caso o trabalhador consiga provar que estava viciado em apostas, a dispensa pode ser considerada discriminatória e o empregador é obrigado a reintegrar o funcionário e pagar, além do salário por todo o período em que correu o processo, outros benefícios como plano de saúde, por exemplo.
O professor de direito do trabalho do Insper, Ricardo Calcini, acredita que a discussão sobre a ludopatia nas relações de trabalho deve ganhar ainda mais espaço no Judiciário, já que a OMS (Organização Mundial de Saúde) reconhece o vício em jogos como doença, mas os debates não encontram consenso nem mesmo no TST.
Segundo ele, parte dos ministros defende o reconhecimento do vício em apostas como doença, mas outra parte, não. Se for equiparado a uma doença, geraria afastamento do trabalho e os custos com o empregado doente migrariam do empregador para o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), com pagamento do auxílio-doença.
Além disso, a demissão por ludopatia seria considerada nula pela Justiça. 'Se você equiparar ao alcoolismo, a rescisão do contrato não é permitida. O contrato de trabalho pode ser suspenso, com encaminhamento do trabalhador ao INSS, além de tratamento. Ele só volta à empresa quando estiver recuperado', afirma.
O professor diz que é preciso diferenciar a doença do simples hábito de apostar. Para ele, o trabalhador que joga, mas não apresenta patologia, pode ser dispensado a qualquer momento, desde que não seja por discriminação a seu comportamento de jogar.
Já aquele que aposta durante o expediente ou causa prejuízos à empresa pode, sim, ser demitido por justa causa pelo comportamento prejudicial às funções no trabalho, não pelo fato de jogar.
Calcini diz que o ideal para um trabalhador doente é informar a empresa que está com o vício, é até uma forma de o funcionário se proteger. 'Se a empresa tiver ciência de que o trabalhador é portador da doença, a tendência é que tenha de encaminhá-lo para reabilitação e afastamento previdenciário', afirma.
Ele orienta as empresas a adotarem políticas mais estruturadas de prevenção, acolhimento e acompanhamento da saúde mental dos trabalhadores para evitar judicialização. Elisa Alonso também defende a criação de políticas internas sobre o uso de sites e aplicativos de apostas e reforço de medidas de prevenção como forma de se proteger de eventuais ações.
Os dois apontam a necessidade de se cumprir as regras previstas na NR-1 (Norma Regulamentadora 1), com mapeamento de riscos psicossociais, apoio psicológico aos funcionários, entre outros, para diminuir o adoecimento mental ligado ao ambiente profissional e afastar qualquer risco de culpa da companhia.
A advogada Priscila Arraes Reino, autora do livro 'Burnout tem Lei – Guia Jurídico para Quem Adoeceu por Causa do Trabalho', afirma que está acompanhando a evolução do adoecimento dos trabalhadores devido a apostas.
Embora o número de afastamentos seja baixo no INSS perante o total de adoecimento, eles vêm crescendo. Entre junho de 2023 e abril de 2025, o INSS concedeu 276 benefícios por ludopatia. Entre 2015 e 2022, a média anual não passava de 11 casos. No INSS, há três CIDs (Classificações Internacionais da Doença) para o vício em apostas: jogo patológico, mania de jogo e apostas, e transtorno do jogo.
Segundo Priscila, a dependência em bets tem características diferentes da de outros jogos. 'Não dá para comparar a loteria ou algum outro jogo com as bets. Elas estão no celular, que hoje é quase a extensão das pessoas, e têm toda uma engenharia feita para prender. Quando a pessoa está perdendo, ganha crédito para continuar jogando.'
Priscila acredita que a tendência é, de fato, a Justiça do Trabalho considerar a ludopatia como vício equiparado ao alcoolismo, porque os processos e análises vêm seguindo o mesmo caminho do alcoolismo e do vício químico em outras drogas.
A especialista cita estudos que apontam risco elevado de suicídio entre pessoas com transtorno do jogo, de 35% acima dos demais, e diz que quem tem o problema não consegue esconder, mesmo que queira, ficando vulnerável perante o empregador.
'Vai acontecer muita demissão por justa causa que não poderá ser considerada justa causa. Muita gente esconde o problema até o último momento, nem a família sabe. E há uma subnotificação enorme. Muitas pessoas não recebem o diagnóstico devido ao estigma.'
Os principais pontos são:
A demissão não é automaticamente ilegal, mas pode ser questionada na Justiça se houver indícios de que o empregado sofria de transtorno do jogo (ludopatia), especialmente quando a empresa tinha conhecimento da situação e optou pela dispensa sem avaliar medidas de apoio ou tratamento.
Se a Justiça entender que o trabalhador foi dispensado em razão de uma doença ou de uma condição de saúde mental protegida, a empresa poderá ser condenada a pagar indenização por danos morais, verbas rescisórias adicionais ou, em situações específicas, até determinar a reintegração do empregado. Casos envolvendo doenças psiquiátricas já tiveram decisões favoráveis aos trabalhadores quando a dispensa foi considerada discriminatória.
A justa causa por vício em apostas não é automática. O empregador precisa comprovar que houve uma falta grave prevista na CLT — por exemplo, desídia reiterada, abandono de emprego ou outras condutas que afetem o trabalho. O simples fato de o empregado ser viciado em apostas não basta para justificar a justa causa.
Além do risco jurídico, empresas têm relatado impactos como aumento de faltas, atrasos, pedidos de adiantamento salarial, endividamento de funcionários e queda de produtividade. Em resposta, algumas organizações passaram a adotar campanhas de conscientização e incentivo ao tratamento especializado.
Em resumo, o entendimento que vem ganhando força é que o vício em apostas deve ser tratado, em muitos casos, como uma questão de saúde, e não apenas disciplinar. Isso não impede a demissão, mas aumenta a necessidade de que o empregador aja com cautela e tenha justificativas objetivas para evitar futuras condenações na Justiça do Trabalho.



