Estudo com quase 90 mil jovens liga calmantes a maior risco de diabetes

Trabalho chama a atenção para possível reação de antipsicóticos, ressaltando a necessidade de uso criterioso e supervisão médica

BATANEWS/REDAçãO


TDAH: calmantes têm sido utilizados durante o tratamento (Alona Siniehina/Getty Images)

Muita gente pensa em antipsicóticos como remédio para esquizofrenia ou surtos psicóticos. Na prática, a maioria das crianças e adolescentes que toma esse tipo de medicamento hoje não tem psicose alguma: são jovens com irritabilidade ligada ao autismo, TDAH, ansiedade ou problemas de sono, tratados “fora de bula”. E é justamente sobre esse universo, cada vez mais comum nos consultórios, que um estudo publicado na revista científica JAMA Network Open acendeu um alerta.

Uma equipe da Erasmus University Medical Center, na Holanda, usou os registros nacionais de saúde do país para acompanhar 89.991 jovens de 0 a 19 anos que começaram a usar antipsicóticos entre 2006 e 2022. A idade média de início foi 13,6 anos, e 62% eram meninos.

O diferencial do desenho do estudo é que cada jovem foi comparado consigo mesmo: os pesquisadores observaram a mesma pessoa por até cinco anos antes e cinco anos depois de começar o remédio. Essa estratégia reduz um problema clássico de estudos observacionais, que é confundir o efeito do medicamento com características individuais — genética, peso de família, contexto social — que já existiam antes do tratamento.

Antes de começar o antipsicótico, o número de jovens em tratamento farmacológico para diabetes tipo 2 era baixo e estável: cerca de 2,8 casos a cada 10 mil por ano. No ano em que o remédio foi iniciado, esse número saltou para 6,2 a cada 10 mil — mais que o dobro. Cinco anos depois, chegou a 14,6 a cada 10 mil, o equivalente a um aumento de risco de mais de 300% em relação ao período anterior ao tratamento.

Os autores também testaram se essa tendência já vinha subindo antes do início do remédio. Não encontraram nada: o salto começa exatamente quando o antipsicótico entra em cena, o que reforça a hipótese de que é o tratamento, e não a doença de base, o principal fator por trás do aumento.  

Meninas acumularam um excesso de risco maior que meninos ao longo do tempo: aos cinco anos, 16,5 casos extras a cada 10 mil entre elas, contra 5,5 entre eles. Adolescentes (13 a 19 anos) também saíram na frente dos mais novos (7 a 12 anos), com diferença mais visível a partir do quarto ano de uso. Já a renda da vizinhança não fez diferença relevante — o efeito apareceu de forma parecida em famílias de renda mais baixa e mais alta.

Um achado chamou atenção dos próprios pesquisadores: mesmo entre os jovens que usaram o antipsicótico só no primeiro ano — e pararam depois —, o risco de diabetes continuou elevado nos anos seguintes. Isso sugere que alterações metabólicas provocadas pelo remédio podem não se desfazer totalmente após a suspensão, ao menos em parte dos pacientes.

Por que isso acontece

Antipsicóticos de segunda geração — a classe mais usada atualmente — atuam bloqueando receptores de histamina, serotonina e dopamina, um mecanismo que favorece ganho de peso e resistência à insulina. Em adolescentes, esse efeito pode se somar à resistência insulínica natural da puberdade, o que ajudaria a explicar por que o risco foi maior nessa faixa etária.

Vale destacar que o estudo, apesar de ser mais robusto que comparações tradicionais entre pessoas diferentes, ainda é observacional — não um ensaio clínico randomizado. Os pesquisadores mediram apenas diabetes já tratado com remédio, o que provavelmente subestima o número real de casos, já que parte pode passar sem diagnóstico. Também não foi possível separar o efeito por classe ou substância específica de antipsicótico — sabe-se que alguns, como olanzapina e clozapina, têm reputação de maior risco metabólico que outros.

Os autores não defendem abandonar o tratamento — muitas dessas crianças precisam do remédio para qualidade de vida. O recado é outro: diretrizes já recomendam monitorar glicemia e peso desde o início do uso, mas, na prática, isso quase não acontece. Levantamentos citados no próprio estudo mostram que mais da metade dos jovens holandeses em uso de antipsicóticos não faz nenhum exame de acompanhamento metabólico.

A decisão de manter, ajustar ou trocar o medicamento deve ser sempre conversada com o médico responsável, pesando riscos e benefícios caso a caso. O uso conjunto com medicamentos como semaglutida ou tirzepatida, que não interferem com medicamentos psiquiátricos, também pode ser uma opção. Por isso hoje o psiquiatra deve saber manejar esses medicamentos e orientar ao menos aquelas mudanças básicas de estilo de vida.