A ilusão perfeita:Por que tanta gente ainda vota no Lula?

BRASILAGRO - POR PAULA SOUSA


Em pleno ano de 2026, em uma era marcada pelo acesso instantâneo e irrestrito à informação, vivemos um dos paradoxos sociopolíticos mais intrigantes da atualidade: como parcela expressiva da população permanece irredutível no apoio a figuras políticas da esquerda, especificamente a figura de Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo diante do acúmulo histórico de escândalos e de uma evidente degradação econômica?

Para compreender esse fenômeno, não basta analisar a conjuntura sob uma ótica estritamente eleitoral. A persistência desse suporte ideológico repousa sobre a fusão de dois pilares fundamentais: a engenharia socioeconômica de dependência promovida pelo Estado e as barreiras de proteção mental inerentes à psique humana.

O primeiro pilar opera no plano estrutural e econômico. Conforme observado pelo analista Leandro Ruschel, existe um modelo sistêmico desenhado para obscurecer as reais origens do empobrecimento social. De um lado, a atuação estatal gera entraves velados que corroem a capacidade financeira da população — como o avanço inflacionário que reduz o poder de compra basilar, a elevada carga tributária sobre consumo e serviços, a burocracia sufocante e a degradação da segurança pública, que afasta investimentos produtivos. Trata-se de uma dinâmica na qual o agente gerador do dano permanece difuso e abstrato.

De outro lado, o próprio poder público surge como o único garantidor de subsistência, distribuindo auxílios e programas assistenciais sob forte apelo promocional. O cidadão, afetado pela perda silenciosa de sua autonomia, passa a enxergar a transferência de renda não como um mecanismo emergencial, mas como uma concessão indispensável.

Essa dinâmica evoca o clássico alerta do escritor britânico George Orwell em sua obra A Revolução dos Bichos. Na alegoria orwelliana, explicita-se a tendência dos indivíduos em direcionar gratidão àqueles que provêm o sustento imediato, ignorando que as próprias estruturas que entregam a subsistência são as mesmas que restringem a autonomia e a liberdade dos liderados. A dependência material converte-se, assim, em uma poderosa ferramenta de manutenção do poder.

Contudo, a dependência econômica não explica, isoladamente, a recusa em reconhecer episódios de corrupção amplamente documentados. Casos de grande repercussão — desde o Mensalão e o Petrolão, passando pelos desdobramentos da Operação Lava Jato, até episódios mais recentes envolvendo os escândalos do INSS e liquidações de instituições bancárias como o Banco Master — são frequentemente minimizados ou ignorados por apoiadores fervorosos. É nesse ponto que o componente psicológico assume papel central.

A explicação para esse fanatismo reside no conceito de dissonância cognitiva, formulado na década de 1950 pelo psicólogo social norte-americano Leon Festinger. Em seus estudos pioneiros sobre o comportamento humano diante de expectativas frustradas, Festinger demonstrou que, quando um indivíduo dedica tempo, recursos emocionais, reputação e intensos debates públicos para defender uma convicção, o surgimento de fatos que desmintam essa crença gera um profundo desconforto psíquico.

Diante do conflito entre a evidência factual e a crença pessoal, a mente humana tende a rejeitar a realidade para preservar a autoimagem. Admitir o erro exigiria reconhecer que anos de posicionamentos, desavenças familiares e defesas passionais foram fundamentados em premissas falsas. Para evitar o custo emocional desse reconhecimento, a psique aciona mecanismos de defesa, reordenando narrativas, questionando a legitimidade das provas e atribuindo intenções ocultas a julgamentos judiciais, órgãos de imprensa e opositores.

A interação entre a tutela assistencial do Estado e a blindagem psicológica descrita por Festinger ajuda a compreender por que debates políticos baseados unicamente em dados estatísticos e fatos históricos frequentemente se mostram ineficazes. Quando a adesão a um projeto político deixa de ser uma escolha racional e passa a integrar a própria identidade do indivíduo, a discussão lógica deixa de produzir efeitos persuasivos.

Essa rigidez ideológica é perceptível em debates públicos e virtuais, nos quais argumentos embasados em dados concretos são confrontados por discursos repetitivos e apelos emocionais desprovidos de sustentação técnica. O embate deixa de ser uma busca dialética pela verdade e converte-se em um exercício de autoafirmação de grupo, gerando frustração em observadores imparciais que buscam o contraditório racional.

Compreender esses processos não significa ignorar a responsabilidade individual sobre as escolhas políticas, mas sim identificar a complexidade das estruturas que sustentam dogmas ideológicos. O verdadeiro amadurecimento do debate público exige reconhecer que a revisão de posicionamentos e a aceitação de fatos demonstráveis não constituem fraqueza, mas sim o exercício do pensamento crítico, da coragem intelectual e da maturidade cidadã. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 29/7/2026)