Saúde
Por que é um erro avaliar apenas os ovários para diagnosticar a Somp
Uma das condições hormonais mais comuns entre mulheres em idade reprodutiva ganhou um novo nome.
BATANEWS/FOLHA
A mudança de síndrome dos ovários policísticos (SOP) para síndrome ovariana metabólica poliendócrina (Somp) foi proposta em um consenso internacional publicado em junho na revista The Lancet. A nomenclatura busca corrigir uma visão considerada limitada da doença. O nome antigo enfatizava apenas os ovários em uma condição que também envolve alterações hormonais, metabólicas e cardiovasculares.
O documento é endossado por 56 organizações de saúde, entre elas, a SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia). Por trás da troca de letras existe uma correção que muda a forma de diagnosticar, tratar e entender a doença, que afeta mais de 170 milhões de mulheres no mundo, segundo o artigo. Essa mudança foi um dos temas mais discutidos no congresso de 2026 da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE), realizado em Londres no início de julho. O consenso internacional ali reforçado é o de que essa mudança representa muito mais que uma troca de nome, pois reflete uma nova forma de compreender a síndrome e de cuidar dessas mulheres de maneira integral.
O primeiro problema do nome antigo era anatômico: os folículos vistos no ultrassom não são cistos verdadeiros. O segundo, mais grave, era conceitual. Ao colocar o ovário no centro do nome, a medicina reduziu uma síndrome sistêmica a um problema ginecológico. Isso gerou custo real para a saúde das pacientes. 'A própria denominação inacurada pode ter atrasado o diagnóstico, o rastreio e as medidas de prevenção para riscos cardiometabólicos, que de fato são mais elevados nas mulheres com SOMP', avalia a endocrinologista Poli Mara Spritzer, que representou a SBEM no consenso.
Mulheres sem folículos visíveis no ultrassom, mas com sintomas claros da síndrome, chegavam a sair da consulta sem diagnóstico fechado. Segundo um estudo publicado em 2025 no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism com dados dos Estados Unidos, do Reino Unido e da Coreia do Sul, o subdiagnóstico da condição tem taxas muito elevadas, dada sua característica heterogênea com sintomas variados.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o subdiagnóstico da condição chegue a 70% dos casos. Na prática, significa que o acompanhamento não pode mais parar no ultrassom pélvico. O exame de imagem continua útil, mas não deve ocupar o centro do raciocínio diagnóstico, que precisa considerar também sintomas como irregularidade menstrual, sinais de hiperandrogenismo (como acne, aumento de pelos e queda de cabelo) e alterações metabólicas.
E o acompanhamento deve continuar inclusive após a menopausa. 'O risco metabólico permanece. Essas mulheres devem ser acompanhadas quanto a resistência à insulina, diabetes tipo 2, dislipidemia (alteração nos níveis de gordura no sangue), hipertensão, composição corporal e risco cardiovascular. A Somp não termina quando acaba a fase reprodutiva', adverte a ginecologista Marta Finotti, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia.
Enquanto a dimensão metabólica ficava invisível para o sistema de saúde, o nome antigo produzia um tipo diferente de dano, mais silencioso na vida cotidiana das mulheres com Somp. Uma pesquisa internacional lançada na eClinical Medicine em 2025, feita com 7.708 participantes, entre profissionais de saúde e pacientes, mostrou um padrão. Boa parte delas associava a expressão 'ovários policísticos' a cistos ou tumores.
Finotti confirma esse padrão no consultório. 'Muitas pacientes chegam dizendo que têm cistos nos ovários e associam isso imediatamente a algo tumoral ou cirúrgico. Na verdade, o achado ultrassonográfico corresponde a múltiplos folículos pequenos, e não a cistos verdadeiros', reforça.
Esse engano gera um peso emocional. 'Quando a paciente acredita que tem cistos, muitas vezes sente medo, culpa ou a impressão de que há algo errado estruturalmente com seus ovários', diz a médica do Einstein.
No entanto, o impacto psicológico não está apenas na confusão gerada pelo antigo nome. As diretrizes internacionais de 2023, que orientam o diagnóstico e tratamento da síndrome no mundo todo, recomendam que todas as mulheres com SOMP sejam rastreadas para sintomas de depressão e ansiedade. A razão é a elevada prevalência de quadros moderados a graves nessa população. É um componente clínico que deve fazer parte do acompanhamento de rotina, e que historicamente ficou fora do radar pelo mesmo motivo do risco cardiovascular.
Some-se a isso outro tipo de julgamento que muitas mulheres com a condição enfrentam: o estigma do peso. A própria diretriz de 2023 reconhece que esse viés é comum em ambientes de saúde e em outros contextos. Recomenda práticas específicas para reduzi-lo, como solicitar permissão antes de pesar a paciente e evitar termos estigmatizantes ao discutir o assunto.
A resistência à insulina e o ganho de peso são parte da síndrome, e não uma falha de disciplina individual. Por isso, tratar esse aspecto com cuidado deixou de ser um detalhe e passou a ser parte do protocolo clínico recomendado.
A transição da sigla antiga para a nova será gradual, e a previsão é que se complete só em 2028. Até lá, uma mesma paciente pode ler SOP no laudo do ultrassom, ouvir Somp na consulta com endocrinologista e encontrar o nome antigo no CID do plano de saúde.
Spritzer lembra que a mudança de nome, por si só, não alterou os critérios de diagnóstico nem o protocolo de tratamento da síndrome. Essas mudanças já haviam sido incorporadas às diretrizes internacionais em 2023, que trouxeram as principais atualizações na prática clínica.
Foi esse documento que reduziu o papel do ultrassom como exame central para o diagnóstico em mulheres adultas, substituindo-o, em muitos casos, pela dosagem do hormônio antimülleriano (AMH). As diretrizes também estabeleceram que adolescentes não devem ser diagnosticadas com base em exames de imagem ou na dosagem de AMH, mas sim pela presença de disfunção ovulatória e hiperandrogenismo, já que esses exames têm baixa precisão nessa faixa etária.
As recomendações também definiram que a metformina passou a ser o tratamento de primeira linha para o componente metabólico da síndrome, e o letrozol passou a ser o medicamento preferencial para tratar a infertilidade causada por anovulação.
Na prática, o consenso de 2026 atualizou o nome da síndrome para refletir uma compreensão mais ampla da doença, sem alterar os critérios de diagnóstico e tratamento já estabelecidos pelas diretrizes de três anos atrás. 'Utilizar uma nomenclatura alinhada aos avanços da ciência torna a informação mais clara, facilita o diagnóstico e melhora o cuidado. Isso também aumenta a conscientização, fortalece a pesquisa e contribui para uma melhor qualidade de vida das pacientes', conclui a endocrinologista da SBEM.




