Pecuária
Frigoríficos reduzem até 40% dos abates em MS diante de pressão do mercado
Setor enfrenta impacto do fim da cota chinesa, preços pressionados e baixa oferta de animais
BATANEWS/CGNEWS
Depois da paralisação temporária de duas plantas frigoríficas em Mato Grosso do Sul, a desaceleração dos abates se espalhou pelo restante do parque industrial. Segundo o Sicadems (Sindicato das Indústrias de Frios, Carnes e Derivados de Mato Grosso do Sul), enquanto a JBS, em Campo Grande, e a Iguatemi Beef suspenderam os abates em julho, as demais unidades reduziram a produção entre 35% e 40%, pressionadas pelo fim da cota anual chinesa de importação e pela escassez de bois prontos para o abate.
'O setor está passando um momento complicado. É um momento que exige cautela e estratégia. Tivemos uma redução de abates porque a cota da China completou. Agora só volta em janeiro', resume o presidente do Sicadems, Régis Luís Comarella.
Segundo ele, os embarques destinados à China que chegarem ao país asiático antes da abertura da nova cota estarão sujeitos à cobrança de 67%, percentual formado pela tarifa regular de 12% acrescida de uma sobretaxa de 55% aplicada após o encerramento da cota anual de importação de carne bovina. Ao mesmo tempo, afirma que os Estados Unidos não aplicaram tarifa adicional sobre a carne brasileira, mas os preços pagos pelo mercado norte-americano não acompanham os valores praticados pela arroba no Brasil.
'O boi hoje está se mantendo entre R$ 330 e R$ 335, mas o mercado interno não comporta esse preço. Então está complicado', afirma.
O cenário levou frigoríficos a reverem a operação. Além das duas plantas que interromperam temporariamente os abates, outras unidades reduziram a produção ou adotaram férias coletivas. Segundo Comarella, Naturafrig diminuiu o ritmo de abates, a Boibras concedeu férias coletivas a cerca de 200 funcionários e a Frigosul passou a operar parcialmente.
Apesar da redução da atividade industrial, um indicador chama atenção. Diferentemente do que normalmente ocorre quando os abates diminuem, as escalas de compra continuam curtas. 'A escala não está alongada porque está tendo muito pouca oferta de boi. O mercado está bem restrito. A gente não sabe se o pecuarista está segurando esse problema de preço melhor ou se realmente está com falta de boi. Por mais que esteja abatendo bem menos, as escalas continuam muito curtas', explica.
Na avaliação do presidente do Sicadems, dois fatores sustentam o atual cenário da indústria frigorífica. 'Primeiro, a China. Segundo, a falta de boi. E, quando esse boi chega, ele vem acima do preço que o mercado interno consegue pagar.'
Comarella avalia que o momento ainda exige cautela e não acredita em uma recuperação imediata dos preços da arroba. 'Não acredito em alta agora. Mais à frente pode ser', resume.
A análise do pesquisador do Cepea/Esalq-USP (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), Thiago Bernardino de Carvalho, converge com a percepção da indústria ao apontar que o mercado atravessa uma fase de transição. Segundo ele, o principal desafio da pecuária brasileira neste momento não é produzir mais carne, mas encontrar mercados capazes de absorver parte da produção enquanto a China reduz temporariamente o ritmo das compras dentro da atual cota de importação.
'O mercado está numa transição de incertezas, mas onde eu tenho uma oferta que está dando sustentação ao equilíbrio de mercado nesse momento', afirma.
Na avaliação do pesquisador, a pressão sobre a arroba deve permanecer até meados de setembro. A partir daí, a tendência é de reação gradual do mercado, impulsionada pela preparação dos frigoríficos para atender a nova cota chinesa de importação, prevista para janeiro de 2027.
A explicação está na logística da exportação. Para que a carne chegue aos portos chineses no início do próximo ano, os frigoríficos precisam comprar os animais, realizar os abates, processar a carne, obter as certificações sanitárias e embarcar os contêineres ainda entre setembro e novembro. Isso faz com que a demanda por bois terminados comece a crescer antes mesmo da abertura oficial da nova cota.
'Esse gado tem que ser abatido e comprado em outubro. Então a gente já começa a ter um movimento entre setembro e outubro visando essa nova cota China para 2027', explica.
Essa expectativa já aparece no mercado futuro. Segundo Thiago, os contratos indicam arroba acima de R$ 360 no encerramento do ano, chegando a R$ 369 nos vencimentos de janeiro, sinalizando uma perspectiva mais favorável para o último trimestre.
O pesquisador destaca ainda que, apesar das dificuldades conjunturais, os fundamentos internacionais permanecem positivos para a carne bovina brasileira. Os Estados Unidos enfrentam o menor rebanho bovino desde a década de 1960, enquanto Canadá e Austrália também registram redução da produção, restringindo a oferta mundial. Paralelamente, mercados como Egito, Malásia, Filipinas e Indonésia ampliam as compras da carne brasileira, enquanto Japão e Coreia do Sul seguem em negociação para abertura do mercado ao produto nacional.
Na avaliação de Thiago, esse conjunto de fatores deve favorecer uma recuperação gradual do mercado à medida que os frigoríficos retomarem as compras voltadas aos embarques da nova cota chinesa. Se hoje a indústria opera com redução dos abates em razão das restrições temporárias do comércio exterior e da escassez de animais prontos para o abate, a expectativa é que o cenário comece a mudar no último trimestre, quando a demanda internacional voltar a ganhar força e a oferta global de carne continuar limitada.




