Saúde
Brasileiros reconhecem riscos do cigarro, álcool e ultraprocessados, mas rejeitam leis para reduzir consumo
BATANEWS/FOLHA
Apesar de nove em cada dez brasileiros associarem o tabagismo ao desenvolvimento de doenças crônicas, apenas um terço da população apoia medidas legais para reduzir o consumo de produtos nocivos, como cigarros, bebidas alcoólicas e alimentos ultraprocessados. O dado revela uma contradição apontada por uma pesquisa Datafolha encomendada pela ACT Promoção da Saúde.
O levantamento, realizado em maio deste ano, ouviu cerca de 4 mil pessoas em 117 municípios das cinco regiões do país. Os resultados mostram que a maioria dos entrevistados reconhece os fatores de risco para doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), como câncer, diabetes e problemas cardiovasculares, mas ainda atribui a responsabilidade pela prevenção principalmente ao indivíduo, deixando em segundo plano o papel das políticas públicas.
Segundo a pesquisa, 92% relacionam o tabagismo — incluindo os cigarros eletrônicos — às doenças crônicas. O consumo excessivo de bebidas alcoólicas foi citado por 83%, enquanto 80% apontaram a alimentação rica em produtos ultraprocessados. Já o sedentarismo e a poluição do ar foram mencionados por 78% dos entrevistados.
Quando questionados sobre as formas mais eficazes de combater essas doenças, 56% defenderam que as empresas informem de forma clara os riscos de seus produtos. Outros 53% acreditam em campanhas educativas na televisão, internet e redes sociais, enquanto 52% afirmam que cada pessoa deve cuidar da própria saúde para evitar essas enfermidades.
Entretanto, apenas 33% apoiam medidas legais, como restrições à publicidade, regulamentação da comercialização, mudanças na rotulagem e aumento da tributação de produtos considerados prejudiciais à saúde.
Para a diretora-executiva da ACT Promoção da Saúde, Paula Johns, os resultados revelam uma visão cada vez mais voltada à responsabilidade individual.
Segundo ela, muitos brasileiros ignoram que as escolhas de consumo são influenciadas por estratégias de marketing, interesses econômicos e pela falta de regulamentação. A especialista defende que medidas como rotulagem obrigatória, restrições à publicidade e outras políticas públicas são fundamentais para reduzir os riscos à saúde da população.
Na avaliação da entidade, os dados mostram a necessidade de ampliar o debate sobre a importância da regulação. Para a ACT, esse tipo de política não limita a liberdade individual, mas cria ambientes que favorecem escolhas mais saudáveis.
Influência política
A pesquisa também investigou a percepção da população sobre a influência política de empresas ligadas a produtos nocivos.
Os resultados mostram que 77% dos entrevistados afirmam que não votariam em candidatos apoiados pela indústria do tabaco. O índice é de 68% para candidatos ligados ao setor de bebidas alcoólicas, 66% para empresas de agrotóxicos e 58% para fabricantes de alimentos ultraprocessados.
Mesmo assim, Paula Johns afirma que muitos brasileiros ainda não conseguem identificar quais políticos recebem apoio desses setores, dificultando a compreensão da influência desse financiamento sobre a formulação de políticas públicas.
Mudanças climáticas também preocupam
Outro dado relevante do estudo é a percepção sobre os impactos das mudanças climáticas na saúde.
Para 81% dos entrevistados, eventos extremos, como ondas de calor, enchentes e o aumento das temperaturas, elevam o risco de desenvolvimento de doenças crônicas.
A preocupação acompanha alertas feitos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que desde 2023 destaca os efeitos das mudanças climáticas sobre doenças respiratórias e cardiovasculares.
O aumento das temperaturas, das queimadas e da poluição do ar agrava problemas como asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Já as ondas de calor sobrecarregam o sistema cardiovascular, aumentando o risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Além disso, secas prolongadas dificultam o acesso a alimentos frescos, comprometendo o controle da obesidade, do diabetes e da desnutrição.
Prevenção integrada
Diante desse cenário, a ACT defende uma estratégia de "prevenção 360º", que une políticas de saúde e meio ambiente para enfrentar as doenças crônicas.
Essas enfermidades são responsáveis por 74% das mortes no mundo e por cerca de 54% dos óbitos no Brasil. Para a entidade, melhorar os ambientes urbano, regulatório e ambiental permite reduzir diversos fatores de risco simultaneamente.
A iniciativa conta com o apoio da Umane, organização da sociedade civil voltada à promoção da saúde pública. Segundo a presidente da instituição, Thais Junqueira, integrar saúde, planejamento urbano, infraestrutura e meio ambiente amplia a capacidade de prevenção e fortalece as políticas públicas voltadas às populações mais vulneráveis.





