Saúde
Pacientes com câncer de pulmão vivem menos no SUS, mostra estudo
BATANEWS/FOLHA
Pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas com alteração no gene ALK em estágio avançado ou metastático enfrentam desigualdades no diagnóstico e no acesso a tratamentos no Brasil. A conclusão é de dois estudos brasileiros publicados no mês passado na JCO Global Oncology, revista da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco, na sigla em inglês).
Isso acontece, em partes, porque 85% a 93% dos pacientes com câncer de pulmão do SUS já estão em estágios avançados no momento do diagnóstico, o que afeta as chances de cura, conforme relatórios da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde). O governo já incorporou as terapias-alvo mais eficazes para esses casos.
Os estudos mostram, porém, que tanto o teste para identificar a alteração no gene ALK quanto os medicamentos indicados, apesar de incorporados, não chegam à maior parte dos pacientes. A alteração está presente em 3,2% dos casos de câncer de pulmão de células não pequenas, e esses pacientes são, em maioria, não fumantes e jovens (na faixa dos 50 anos).
À Folha, o Ministério da Saúde confirmou a indisponibilidade do remédio brigatinibe, usado para tratar a doença, ao afirmar que vai disponibilizar 23 medicamentos oncológicos de alto custo, entre eles o brigatinibe, de forma gradual a partir de outubro. Diz que o valor total de custo chega a R$ 2,2 bilhões.
'Será a maior entrega já realizada pelo SUS para ampliar o acesso da população aos tratamentos contra o câncer, um aumento de 35% na oferta dos fármacos na rede pública que vai solucionar pendências que chegavam a até 12 anos em alguns casos. Mais de 112 mil pacientes serão beneficiados', diz a pasta em nota.
Sobre o exame de imunohistoquímica para ALK, a pasta diz apenas que reconhece as disparidades regionais existentes, 'uma vez que a sua oferta depende da estrutura instalada nos serviços habilitados em oncologia e da pactuação entre estados e municípios'.
O Inca (Instituto Nacional de Câncer) estima 35.380 novos casos de câncer de pulmão por ano entre 2026 e 2028. A doença é dividida em dois grandes grupos: o de pequenas células e o de não pequenas células. Este último responde por cerca de 85% dos diagnósticos.
Segundo Luciana Holtz, fundadora e presidente do Instituto Oncoguia, como a maioria dos pacientes chega ao diagnóstico em fase avançada, muitos já não têm possibilidade de tratamento curativo. 'Então, eu tenho que oferecer para ele tempo de vida com qualidade', diz.
A terapia-alvo produz respostas mais profundas, controle da doença por mais tempo e melhor ação contra metástases no sistema nervoso central, frequentes nesse subtipo de tumor. Também é um tratamento oral mais bem tolerado do que a quimioterapia.
O medicamento bloqueia alterações específicas que fazem o tumor crescer, como a mutação em ALK, que quando sofre alteração genética envia sinais contínuos para a célula se dividir e sobreviver, favorecendo o crescimento do tumor.
Um dos estudos publicados no JCO analisou dados de 101 pacientes, com idade mediana de 55 anos. A sobrevida global, tempo entre o diagnóstico e a morte por qualquer causa, foi de cerca de 5,8 anos no sistema privado e de 1,8 ano no público.
Em relação ao tratamento no SUS, apenas 22,2% dos pacientes receberam inibidores de ALK como terapia de primeira linha, enquanto no sistema privado o índice foi de 53,9%.
O outro estudo foi um levantamento que ouviu 156 oncologistas brasileiros entre outubro de 2024 e março de 2025. Desses, 147 atuavam na rede privada e 107 no SUS; a soma ultrapassa o total de participantes porque muitos trabalham nos dois sistemas.
Os médicos confirmam que a quimioterapia ainda predomina no SUS, sendo usada como primeira linha em 94,4% dos casos e permanece majoritária nas linhas subsequentes, após resistência ou progressão da doença, com 95,3%. Apenas 10,3% dos pacientes receberam crizotinibe, terapia-alvo disponível na época, na primeira linha e 3,7% nas posteriores.
'Esse número nos preocupa. Para o paciente com câncer de pulmão ALK positivo, a terapia-alvo é o tratamento preferencial em primeira linha, com maior eficácia e melhor tolerabilidade do que a quimioterapia', afirma Samira Mascarenhas, autora do estudo e pesquisadora do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (Idor).
A principal barreira apontada foi a falta de cobertura financeira pelo sistema público, mencionada por 72,4% dos oncologistas.
O estudo avaliou quatro inibidores de ALK, terapias-alvo classificadas em gerações conforme seu desenvolvimento e capacidade de controlar a doença e superar resistência. O crizotinibe é de primeira geração; alectinibe e brigatinibe, de segunda; e lorlatinibe, de terceira.
A pesquisa avaliou o uso do crizotinibe, mas a oncologista Clarissa Baldotto, presidente da SBOC (Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica), afirma que o acesso ao brigatinibe também não acontece.
Segundo a médica, a incorporação não garante o acesso. Quando o valor repassado pelo SUS não cobre o custo da terapia, os hospitais deixam de comprar o medicamento para evitar prejuízo.
O estudo também mostra que a falta de diagnóstico limita o acesso às terapias. Apenas 43,9% dos médicos relataram disponibilidade do teste de rearranjo ALK no SUS.
Segundo Baldotto, a alteração pode ser investigada por imunohistoquímica, exame realizado com material da biópsia e incorporado ao SUS, mas ainda sem oferta regular em todos os serviços.
Holtz, no Instituto Oncoguia, diz que a testagem molecular é uma etapa essencial para definir o tratamento. 'Esse paciente tem que saber o subtipo de câncer dele. Ele precisa ter acesso ao teste molecular', afirma. Segundo ela, sem essa informação, o paciente pode não receber a terapia-alvo ou a imunoterapia mais indicada.


