Pressão estética eleva carga emocional feminina: 'É como se nossa aparência fosse um projeto sem fim'

BATANEWS/FOLHA


Em post que viralizou, a apresentadora Rafa Brites falou sobre a diferença de tempo que mulheres e homens gastam com tratamentos de beleza - Juliano Simões/Divulgação

'Eu e o Felipe [Andreoli] temos o mesmo trabalho. A gente apresenta três programas juntos, mas eu chego duas horas antes para fazer cabelo e maquiagem. No dia da minha folga, quando ele pode dormir, jogar tênis, aproveitar, eu tenho que refazer a esmaltação em gel, fazer a raiz do cabelo, fazer provas de roupa.'

O desabafo da apresentadora Rafa Brites, 39, publicado em maio em seu Instagram, expõe uma questão vivida por muitas mulheres: a carga mental e estética. À Folha ela conta que já conhecia o abismo que existe entre homens e mulheres, mas que, ao apresentar os reality shows Power Couple Brasil, Game dos 100 e Love & Dance com o marido, essa realidade 'ficou muito escancarada'.

Mesmo ciente da diferença de carga horária, porém, ela diz não conseguir se libertar disso. 'As pessoas perguntam por que então não apresento sem maquiagem, mas é uma decisão difícil de ser tomada individualmente.'

Rafa ressalta que, apesar do desabafo, reconhe seus próprios privilégios. 'Tenho consciência de que, ao falar de sobrecarga feminina, eu estou no topo de uma pirâmide ainda muito opressiva.'

A opressão foi abordada pela escritora norte-americana Naomi Wolf no livro 'O Mito da Beleza', de 1991. Na obra, cujo subtítulo é 'Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres', ela escreve sobre como o culto à juventude feminina atua como uma forma de controle social.

Considerada um modelo de beleza, a atriz Flávia Alessandra, 52, diz entender bem disso.

'Acho que toda mulher, em algum nível, já sentiu esse peso de precisar corresponder a uma expectativa estética o tempo inteiro', afirma. 'Existe uma cobrança muito grande para que a mulher esteja sempre jovem, bonita, magra, impecável. É como se a nossa aparência fosse um projeto sem fim.'

A atriz diz que, com o tempo, aprendeu a olhar mais para seu bem-estar. 'Amadurecer me trouxe essa consciência de entender que meu valor não está ligado apenas à minha aparência.'

Mãe de Giulia, 26, e de Olívia, 15, Flávia conta que uma de suas preocupações é mostrar que as mulheres 'não devem nunca se curvar e se abater por esse padrão irreal e inalcançável de beleza'.

A busca por uma suposta perfeição é mais uma sobrecarga imposta às mulheres e pode trazer problemas de saúde mental, afirma a psicóloga Tassiane Valim.

'Depilação, manicure, cabelo… As mulheres estão o tempo todo com essas tarefas intermináveis em relação à aparência, além de outras tarefas. E, quando não fazem, é muito comum que sejam julgadas como menos profissionais ou menos mulheres.'

Outro ponto que as deixam sobrecarregadas mental e emocionalmente é a sensação de culpa quando não conseguem corresponder ao padrão. 'É como se essa pressão estivesse o tempo todo rondando', acrescenta a psicóloga.

Tassiane menciona também a questão financeira, já que os cuidados com a aparência envolvem gastos —e gastos altos, muitas vezes. 'Tudo isso impacta na saúde mental delas', diz Tassiane.

Como diz a psicóloga Ana Maria, presidente da Isma-BR (International Stress Management Association), muitas vezes a mulher sofre os males da pressão estética 'até se exaurir tentando preencher uma expectativa'. Para isso existe até o termo beauty burnout, relacionado ao esgotamento resultante da busca pela perfeição.

É o caso da escritora Carina Luft, 54, que por mais de duas décadas trabalhou como secretária-executiva e se sentia esgotada com as cobranças. Além do tempo em frente ao espelho, conta que gastava cerca de R$ 500 por mês com estética. Sabia, por exemplo, que a empresa não gostaria que ela deixasse os cabelos brancos à mostra, então, estava sempre pintando os fios.

'Hoje, estou conseguindo me libertar', diz ela, ponderando que ainda sente a cobrança. Não sai de casa sem passar batom e máscara nos cílios e faz aplicação de botox, mas considera-se menos refém do que já foi um dia.

Isso inclui um implante de silicone nos seios, algo de que diz se arrepender. 'Coloquei por causa dessa pressão estética e hoje me pergunto por que fiz isso comigo.'

Quando o assunto é cirurgia plástica, o Brasil é líder. Em 2024, foram realizados mais de 2 milhões de procedimentos, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética.

Para Daniela Zavatini, cirurgiã plástica e secretária da SBCP-SP (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica), ocupar a liderança do ranking tem razões culturais.

'Vivemos em uma cultura em que o corpo está mais presente no dia a dia, seja pelo clima, pela moda, pela praia ou pelas atividades ao ar livre. [Com isso] as mulheres observam mais as mudanças ao longo da vida, como as decorrentes da gravidez, da amamentação, das oscilações de peso e do envelhecimento', afirma a médica.

Para Ana Maria, uma saída para as mulheres é o resgate da confiança. 'Com a autoestima mais elevada, elas veem que o conforto é mais importante', diz a psicóloga. Boa notícia: 'Muitas estão acordando para isso'.