Justiça
A disposição de Mendonça contra Lulinha na investigação de fraudes no INSS
Circula nos bastidores a informação de que o gabinete do ministro estaria pronto para caracterizar o filho do presidente como sócio do ‘Careca do INSS’
ANDRé BARROCAL
Enquanto Brasília prende a respiração à espera de um desfecho sobre a negociação de uma delação de Daniel Vorcaro, outro assunto de grande interesse político-eleitoral avança sem alarde em paralelo. Diz respeito a um caso que, como a investigação sobre o finado Banco Master, corre no Supremo Tribunal Federal (STF) aos cuidados de André Mendonça: fraudes com aposentadorias pagas pelo INSS.
Segundo informações que circulam nos bastidores no Congresso, o gabinete de Mendonça estaria pronto para caracterizar Fabio Luis da Silva, filho mais velho do presidente Lula, como sócio de Antonio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS'. Falta saber se as investigações da Polícia Federal sobre o caso vão chegar à mesma conclusão.
“Não acredito [que haja essa caraterização do Fabio]. Não há elementos [para isso]', afirma o advogado Marco Aurélio de Carvalho, amigo e conselheiro jurídico de Lulinha. “Acredito na condução serena do ministro André Mendonça desse caso.“
Mendonça espera receber nos próximos dias um relatório da PF a respeito do estado das apurações, em especial das descobertas feitas a partir da quebra dos sigilos bancário e fiscal de Roberta Luchsinger. A empresária é amiga de Fabio Luis e teve os sigilos quebrados pelo togado juntamente com os de Lulinha no início do ano.
Posteriormente, a CPMI do INSS fez o mesmo com os sigilos de Fabio Luis e Roberta. Não encontrou nada incriminador contra ele, a julgar pelo material vazado à imprensa. No caso dela, os advogados da empresária conseguiram uma liminar de Flavio Dino, do Supremo, para suspender a medida. A CPMI terminou dias depois sem um relatório final.
O documento que Mendonça aguarda da PF foi requerido em maio, após o inquérito policial sobre as fraudes no INSS ter trocado de mãos. Segundo a PF, a saída do delegado original do caso, Guilherme Figueiredo da Silva, teria ocorrido porque as apurações mudaram de repartição dentro da polícia. Saíram da área de Divisão de Repressão a Crimes Previdenciários e passaram à Coordenação de Inquéritos em Tribunais Superiores.
Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Foto: Reprodução
Além de amiga de Fabio e da esposa dele, Roberta tem histórico de proximidade com o PT. Em 2017, anunciou doação a Lula, logo que ele havia tido as finanças bloqueadas pelo então juiz Sergio Moro. No ano seguinte, concorreu a deputada estadual em São Paulo pelo PT. Na época, declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio de 1,5 milhão de reais. Por acaso, é o valor que ela teria recebido do “Careca do INSS', conforme informado pela PF ao Supremo no inquérito das falcatruas com aposentadorias.
O Coaf, órgão federal de combate à lavagem de dinheiro, identificou 1,1 milhão de reais pagos por uma empresa de Antunes a uma de Roberta. E que a empresária e o pai receberam, juntos, 2,6 milhões do “Careca do INSS', informações igualmente levadas ao conhecimento do STF.
Os elos financeiros de Roberta e Antunes constam de uma decisão de dezembro do Supremo que mandou prender preventivamente o filho de Antunes, colocar tornozeleira eletrônica na empresária e confiscar o passaporte dela.
Aquele despacho de Mendonça reproduz trechos do pedido da PF para as medidas cautelares e ali se via que Antunes e um funcionário dele, Milton Salvador de Almeida Jr., trocaram mensagens de celular em que falavam de um pagamento de 300 mil para “o filho do rapaz'. Em seguida, Milton manda a Antunes um comprovante de 300 mil transferidos a Roberta.
Quem seria o “filho do rapaz'? Uma troca de mensagens entre Roberta e Antunes alimenta uma linha investigatória suspeita. “Acharam um envelope com nome do nosso amigo no dia da busca e apreensão', escreveu ela. Quando a PF foi às ruas pela primeira vez contra as fraudes no INSS, na Operação Sem Desconto, em abril de 2025, encontrou um envelope com ingressos para Fabio ir a um show.
Roberta citou o filho do presidente pelo nome no envelope e em uma mensagem de celular a Antunes de 5 de maio de 2025. Essa mensagem diz: “Na época do Fábio falaram de Friboi, de um monte de coisa o (sic) maior… igual agora com você'. Recorde-se: Lulinha foi vítima de fake news sobre ser dono da JBS-Friboi.
Há outro ingrediente a alimentar as desconfianças sobre a identidade do “filho do rapaz'. Um ex-funcionário do “Careca do INSS' prestou alguns depoimentos à PF. Em um deles, Edson Claro disse que Antunes e Fabio eram sócios, que o primeiro teria pagado 25 milhões (não falou a moeda) ao segundo e ainda repassaria uma mesada de 300 mil. Verdade? Ou chantagem?
Em setembro passado, Claro fez um boletim de ocorrência contra Antunes na Polícia Civil paulista. Disse que sofria ameaça de morte do ex-chefe. O relato levou a PF a conseguir a prisão preventiva de Antunes dias depois. Ao depor à CPMI do INSS já preso, o “Careca do INSS' declarou ter sofrido extorsão por parte de Claro e que este teria inclusive lhe furtado alguns veículos.
Naquele interrogatório na CPMI, Antunes se definiu como um “empreendedor nato'. Alguns elementos das investigações sugerem que ele quis fazer negócios no governo Lula e buscou pessoas que abrissem portas. Roberta encaixa-se aí.
Um interlocutor de Lulinha acredita que o “Careca do INSS' tentou comprar as amizades de Roberta, ou seja, aproximar-se do filho do presidente através dela. Caso tenha sido isso mesmo, o problema para Fabio seria de tráfico de influência, não de relação com fraudes em aposentadorias.





