Tarifa dos EUA pode pressionar exportações e investimentos no agro brasileiro

Economista avalia que medida elevaria custos de exportação, pressionaria margens e aumentaria a incerteza para investimentos no setor.Compartilhe: Clique para compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook Clique para compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp Clique para compartilhar no LinkedIn(abre em nova janela) LinkedIn Clique para compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram

BATANEWS/OPR


Foto: Jonathan Campos

A possibilidade de os Estados Unidos adotarem uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros acendeu um sinal de atenção entre exportadores e investidores ligados ao agronegócio. Embora os impactos dependam do alcance da medida, das exceções setoriais e das negociações entre os governos, especialistas avaliam que o efeito pode ir além do comércio exterior e atingir investimentos, câmbio e custos financeiros no Brasil.

Economista com PhD em Finanças, Roberto Simioni: “A intensidade dos impactos dependerá do escopo da tarifa, das exceções concedidas e da possibilidade de negociação política” – Foto: Arquivo pessoal

Para o economista com PhD em Finanças, Roberto Simioni, a medida deve ser analisada não apenas como uma barreira comercial, mas como um fator de aumento da incerteza econômica.

Segundo ele, o mercado tende a reagir inicialmente à perspectiva de redução das margens e dos volumes exportados por setores mais dependentes do mercado americano. “A intensidade dos impactos dependerá do escopo da tarifa, das exceções concedidas e da possibilidade de negociação política', avalia.

O primeiro efeito esperado é sobre a competitividade dos produtos brasileiros nos Estados Unidos. Em segmentos nos quais os compradores possuem alternativas de fornecimento e maior sensibilidade a preços, parte do custo da tarifa tende a ser absorvida pelo exportador brasileiro, reduzindo margens de lucro e, em alguns casos, provocando perda de participação de mercado.

Nas cadeias agroindustriais, o impacto pode variar conforme o produto. Mercadorias com menor capacidade de redirecionamento para outros mercados tendem a sofrer mais. Já commodities negociadas globalmente podem encontrar alternativas de destino, embora enfrentem pressões de curto prazo sobre preços e rentabilidade.

Simioni observa que, quando há dificuldade de repassar o aumento de custos ao comprador americano, o ajuste ocorre por meio de descontos nos preços, redução das margens ou perda de competitividade frente a concorrentes internacionais.

Além dos efeitos diretos sobre as exportações, a medida pode influenciar variáveis macroeconômicas importantes para o agronegócio. A expectativa de menor entrada de dólares no país e o aumento da percepção de risco tendem a pressionar o câmbio e elevar a volatilidade dos mercados financeiros.

De acordo com o economista, uma eventual desvalorização do real pode alimentar pressões inflacionárias e levar o mercado a revisar projeções para a política monetária, influenciando os custos de crédito e financiamento.

O impacto também pode atingir decisões de investimento. Em cenários de maior incerteza, empresas costumam

adiar projetos de expansão, rever aportes de capital e ampliar estratégias de proteção financeira. “O principal risco não é apenas a perda direta de exportações, mas a possibilidade de um choque de confiança que reduza o investimento privado e provoque uma reprecificação do risco-país', destaca Simioni.

Segundo a análise, os reflexos não ficariam restritos às empresas exportadoras. Caso a tarifa atinja produtos intermediários ou segmentos específicos da agroindústria, os impactos podem se espalhar por toda a cadeia produtiva, afetando fornecedores de insumos, operadores logísticos, transportadoras, seguradoras e instituições financeiras ligadas ao setor.

Mesmo empresas sem atuação direta no mercado externo podem sentir os efeitos por meio da redução da atividade econômica, da menor demanda por serviços e da revisão das expectativas de crescimento.

Apesar das preocupações, Simioni ressalta que a reação dos mercados ainda é de cautela, e não de pânico. A precificação observada até agora inclui desvalorização do real, queda de ações de empresas mais expostas ao comércio exterior e aumento dos prêmios exigidos nos títulos de longo prazo.

Na avaliação do economista, os investidores seguem monitorando as próximas etapas das discussões comerciais nos Estados Unidos e a possibilidade de exceções para determinados setores. O impacto final sobre o agronegócio brasileiro dependerá da abrangência da medida e da capacidade de negociação para evitar um tarifaço amplo sobre os produtos nacionais.