Saúde
Novo medicamento dobra sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas e emociona especialistas em maior congresso de oncologia do mundo
BATANEWS/REDAçãO
Um dos momentos mais marcantes da oncologia mundial nos últimos anos aconteceu durante a sessão plenária da edição 2026 da American Society of Clinical Oncology (ASCO), realizada em Chicago, nos Estados Unidos. Conhecido por reunir alguns dos mais respeitados especialistas em câncer do planeta, o evento foi palco da apresentação dos resultados finais de um estudo que pode mudar o tratamento do câncer de pâncreas metastático.
Os dados do estudo clínico de fase 3 denominado RASolute 302 mostraram que o medicamento experimental daraxonrasib praticamente dobrou a sobrevida de pacientes que já não respondiam mais à quimioterapia convencional. O impacto foi tão significativo que provocou uma reação incomum entre os participantes do congresso: aplausos de pé e forte emoção entre médicos e pesquisadores.
Resultados confirmam eficácia em estudo decisivo
Embora os primeiros resultados do daraxonrasib já tivessem sido divulgados em abril pela empresa desenvolvedora, a Revolution Medicines, a confirmação científica dependia dos dados finais de um ensaio clínico de fase 3, considerado o padrão mais rigoroso da pesquisa médica.
O estudo acompanhou 500 pacientes com câncer de pâncreas metastático que haviam deixado de responder aos tratamentos convencionais. Os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos: um recebeu o novo medicamento em comprimido, administrado uma vez ao dia, enquanto o outro continuou o tratamento com quimioterapia.
Os resultados chamaram a atenção da comunidade científica. Entre os pacientes portadores da mutação RAS G12, a mais frequente nesse tipo de câncer, a sobrevida mediana alcançou 13,2 meses com o uso do daraxonrasib, contra apenas 6,6 meses entre aqueles tratados com quimioterapia.
Além disso, o risco de morte foi reduzido em aproximadamente 60%.
Outro indicador importante foi o tempo de controle da doença. O período até a progressão do câncer chegou a 7,3 meses no grupo que utilizou o novo medicamento, enquanto os pacientes submetidos à quimioterapia apresentaram média de 3,5 meses.
Os pesquisadores observaram ainda que mais de 31% dos pacientes tratados com o daraxonrasib apresentaram redução mensurável dos tumores. No grupo da quimioterapia, esse índice foi de apenas 11,2%.
Menos efeitos colaterais
Outro aspecto considerado relevante foi a segurança do tratamento.
Somente 1,2% dos pacientes que utilizaram o novo medicamento precisaram interromper a terapia devido a efeitos adversos. Entre os pacientes submetidos à quimioterapia, a taxa de interrupção chegou a 11,2%.
Diante dos resultados, os autores do estudo, publicado no Journal of Clinical Oncology, concluíram que o daraxonrasib tem potencial para se tornar o novo padrão terapêutico para pacientes com câncer de pâncreas metastático em segunda linha de tratamento.
Especialistas destacam avanço histórico
Presente na apresentação dos resultados em Chicago, o oncologista Stephen Stefani classificou o estudo como um dos mais relevantes apresentados recentemente na área.
Segundo ele, é raro surgir uma terapia capaz de combinar baixa toxicidade, aumento expressivo da sobrevida e um mecanismo de ação inovador para uma doença tão agressiva.
Stefani destacou que a sobrevida mediana de 13 meses significa que muitos pacientes conseguiram viver por períodos ainda maiores. Para o especialista, o estudo demonstra que a medicina está finalmente conseguindo avançar em uma doença que historicamente oferecia poucas perspectivas de tratamento eficaz.
Por que o câncer de pâncreas é tão difícil de combater?
O câncer de pâncreas é considerado um dos tumores mais letais da medicina. A doença costuma evoluir silenciosamente e, na maioria dos casos, é diagnosticada apenas em estágios avançados.
Estima-se que cerca de 80% dos pacientes já apresentem doença localmente avançada ou metastática no momento do diagnóstico, o que reduz drasticamente as possibilidades de cura por cirurgia.
Nos Estados Unidos, aproximadamente 60 mil pessoas recebem esse diagnóstico todos os anos, enquanto cerca de 50 mil morrem em decorrência da doença. No Brasil, são registrados aproximadamente 13 mil novos casos anuais, com cerca de 12 mil óbitos.
A taxa de sobrevida em cinco anos para pacientes com câncer de pâncreas metastático gira em torno de apenas 3%, uma das menores entre todos os tipos de câncer.
Grande parte dessa agressividade está relacionada às mutações da proteína RAS, presente em mais de 90% dos tumores pancreáticos. Quando alterada, essa proteína mantém as células tumorais em crescimento contínuo.
Durante décadas, pesquisadores tentaram desenvolver medicamentos capazes de bloquear essa proteína, considerada praticamente impossível de ser atacada por fármacos. O daraxonrasib é um dos primeiros medicamentos a demonstrar sucesso significativo nesse desafio.
Aprovação nos Estados Unidos pode ocorrer em breve
Com os resultados positivos do estudo, a Revolution Medicines informou que pretende encaminhar formalmente os dados para avaliação da Food and Drug Administration (FDA).
O medicamento já recebeu da agência norte-americana a classificação de "Breakthrough Therapy", concedida a tratamentos que demonstram benefícios substanciais em relação às terapias existentes. A droga também possui designação de medicamento órfão e integra programas especiais que aceleram a análise regulatória.
Atualmente, pacientes norte-americanos selecionados já podem acessar o tratamento por meio de programas de uso compassional.
Caminho até o Brasil ainda deve ser longo
Apesar do avanço científico, a chegada do medicamento ao Brasil ainda depende de várias etapas regulatórias.
Para ser comercializado no país, o remédio precisará ser aprovado pela Anvisa. Posteriormente, no sistema privado, a ANS deverá avaliar a incorporação da terapia para cobertura obrigatória pelos planos de saúde.
No Sistema Único de Saúde (SUS), o principal desafio será o custo. Atualmente, o valor destinado ao tratamento de pacientes com câncer de pâncreas é significativamente inferior aos preços praticados para terapias oncológicas inovadoras no mercado internacional, que frequentemente ultrapassam US$ 10 mil por mês.
Por enquanto, não existe previsão oficial para que o daraxonrasib esteja disponível aos pacientes brasileiros, mas os resultados apresentados em Chicago já são considerados um dos maiores avanços recentes no combate ao câncer de pâncreas metastático.



