Lula deve telefonar para Trump após EUA classificarem PCC e CV como terroristas

Avaliação do governo é que economia doméstica e sistemas de pagamento como o PIX podem ser afetados com a medida

BATANEWS/VEJA


CAMPANHA - Trump e Lula: petista quer passar a imagem de que é relevante na diplomacia internacional (Ricardo Stuckert/PR)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve telefonar nos próximos dias para o presidente dos Estados Unidos Donald Trump para discutir a decisão da administração do republicano de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais. Entre os temas da conversa estarão ponderações do brasileiro de que a medida unilateral – o Brasil sempre foi contra esse tipo de enquadramento e considera as facções como organizações criminosas – não pode afetar a economia brasileira, fintechs ou sistemas de pagamento como o PIX.

Às vésperas das eleições em que tentará um quarto mandato, Lula deve recorrer à diplomacia com Trump ao mesmo tempo em que pretende explorar o discurso da soberania e de interferência indevida dos Estados Unidos no Brasil no embate com o principal adversário de outubro, o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL). O tom foi deixado evidente em um duro comunicado do governo brasileiro na sexta-feira, 29.

Em nota, o Planalto acusou o governo Donald Trump de interferência na soberania brasileira e, sem citar nomes, criticou “traidores” e “falsos patriotas” por trás da manobra. “A segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores. Por falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades estrangeiras a int… a interferência em assuntos brasileiros”, diz a nota oficial.

Flávio Bolsonaro atribui a ele e ao irmão, Eduardo Bolsonaro, influência direta na decisão de Trump de enquadrar PCC e CV em uma lista de conhecidas organizações terroristas como a Al-Qaeda e o Hamas. Ambos se encontraram com o presidente americano na Casa Branca na última terça-feira, 26, dois dias antes do anúncio da medida pelo Departamento de Estado.

No mesmo comunicado, o governo federal argumenta que o interesse das facções brasileiras é obter lucro por meio do tráfico de drogas e armas e “não pode ser confundido com motivos ideológicos, políticos e religiosos do terrorismo internacional”. Segundo a nota do Planalto, a nova classificação contra os narcotraficantes ameaça a soberania nacional, prejudica a integração das polícias contra o crime organizado e abre margem para sanções contra “o sistema financeiro e o PIX, que incomodam interesses estrangeiros” — no ano passado, o mecanismo de pagamentos do Banco Central foi alvo de investigações pelos EUA motivadas pela competição com as big techs americanas.