Saúde
Medicamentos para emagrecimento podem reduzir o consumo de álcool, apontam estudos
BATANEWS/REDAçãO
Quem usa medicamentos como semaglutida ou tirzepatida costuma relatar perda de peso, diminuição da fome e até o chamado “silêncio alimentar” (food noise). Mas outro efeito tem despertado a atenção de médicos e pesquisadores: algumas pessoas afirmam que passaram a beber menos álcool ou até perderam o interesse pela bebida.
Agora, estudos científicos começam a indicar que essa percepção pode ter fundamento. Pesquisas recentes sugerem que os agonistas de GLP-1, classe de medicamentos utilizada no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, podem atuar também nos mecanismos cerebrais relacionados à compulsão e à recompensa.
Segundo a médica Patrícia Baines Gracitelli, endocrinologista, especialista em Medicina do Estilo de Vida e membro da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) e da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), novos ensaios clínicos vêm apresentando resultados promissores.
“Os medicamentos agonistas de GLP-1 parecem ajudar algumas pessoas a consumir menos álcool por diferentes mecanismos que envolvem o cérebro e o comportamento”, explica.
Um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, publicado em 2026 na revista científica The Lancet, mostrou que a semaglutida 2,4 mg, aplicada semanalmente, reduziu significativamente o consumo de álcool em pacientes com transtorno por uso de álcool e obesidade.
Outro estudo, divulgado em 2025 na revista JAMA Psychiatry, analisou mais de 227 mil pessoas com transtorno por uso de álcool na Suécia. Os pesquisadores observaram que a semaglutida esteve associada a um menor risco de hospitalizações relacionadas ao alcoolismo, inclusive com resultados superiores aos de alguns medicamentos já aprovados para o tratamento da condição.
Apesar dos resultados encorajadores, especialistas ressaltam que as evidências ainda estão em fase de consolidação.
A explicação para esse possível efeito está nos mesmos circuitos cerebrais envolvidos na fome, no prazer e nos comportamentos compulsivos.
“Esses medicamentos agem diretamente em regiões cerebrais responsáveis pela regulação do apetite e da recompensa”, afirma Patrícia Gracitelli.
De acordo com a especialista, os agonistas de GLP-1 podem reduzir a sensação de prazer associada ao consumo de álcool e diminuir os gatilhos relacionados à bebida. Na prática, algumas pessoas relatam pensar menos em álcool ou perder o interesse pela bebida mais rapidamente.
Isso ocorre porque tanto alimentos altamente palatáveis quanto substâncias como álcool e drogas ativam áreas semelhantes do cérebro, especialmente aquelas ligadas à dopamina, neurotransmissor responsável pela sensação de recompensa.
“Isso não significa que obesidade seja igual à dependência química”, ressalta a médica. “Mas ajuda a compreender por que a mudança de hábitos alimentares envolve muito mais do que força de vontade.”
Nos últimos meses, a expressão food noise ganhou popularidade para descrever pensamentos constantes sobre comida — aquela sensação de que o cérebro não “desliga” da fome, da vontade de comer ou da busca por recompensas alimentares.
Segundo Patrícia Gracitelli, os medicamentos parecem atuar justamente nesse mecanismo.
“Eles diminuem a fome hedônica, que é a vontade de consumir algo prazeroso, diferente da fome fisiológica, quando o organismo realmente necessita de energia.”
Com isso, pacientes podem apresentar menos episódios de compulsão alimentar e maior sensação de controle sobre os impulsos.
Ainda assim, especialistas alertam que não existe solução mágica. A obesidade e os comportamentos compulsivos são condições complexas e multifatoriais.
“O maior risco é tratar comportamentos compulsivos como problemas exclusivamente farmacológicos”, destaca a endocrinologista.
Segundo ela, fatores emocionais, sociais, ambientais e psicológicos também precisam ser abordados. Caso contrário, existe o risco de transferir a dependência para o próprio medicamento ou criar expectativas irreais de cura.
“Essas descobertas reforçam que a obesidade é uma doença complexa e de difícil tratamento, que muitas vezes exige acompanhamento a longo prazo. Mas isso não significa que o tratamento deva se limitar ao uso de medicamentos”, afirma.
As novas pesquisas também contribuem para mudar a forma como a sociedade enxerga a obesidade e os transtornos compulsivos.
Durante muitos anos, pessoas com obesidade ouviram que bastava ter “força de vontade”. Hoje, a ciência demonstra que fatores como cérebro, hormônios, ambiente e saúde emocional desempenham papel fundamental na relação com a comida — e possivelmente com outras formas de compulsão.
Compreender essa complexidade não elimina a responsabilidade individual, mas ajuda a substituir a culpa por tratamento adequado, acolhimento e cuidado.
Com informações do R7.





