Cotidiano
Nova geração de idosos reinventa a velhice e faz da aposentadoria um recomeço
BATANEWS/FOLHA
Líder de uma das bandas mais influentes do rock paulistano, Oswaldo Vecchione, 78, sempre se exibiu nos palcos com um estilo avesso aos padrões tradicionalistas. Mas levou 60 anos para criar coragem e fazer sua primeira tatuagem. Estampou no braço direito o baixo em formato de estrela, instrumento que o acompanha até hoje.
Não parou mais. Ele cortou as mangas de suas camisetas e passou a se apresentar com a banda de rock Made in Brazil vestindo regatas para exibir suas novas marcas na pele. Hoje, o músico já acumula 17 tatuagens. 'Elas me trouxeram uma liberdade nova.'
A trajetória de Vecchione ilustra algo que os consultórios de geriatria têm registrado com frequência: uma geração de pessoas acima dos 60 anos que reorganizou prioridades e passou a tomar decisões que, em outras épocas, seriam consideradas fora do lugar.
Esse movimento ganhou nas redes sociais o nome de Nolt, acrônimo para new older living trend (nova tendência de viver a maturidade, em tradução livre). Envelhecer não é um problema, até porque é inevitável. O que muda é como lidar com a passagem do tempo.
Foi o que aconteceu com Vecchione. 'Senti algo que talvez eu mesmo reprimi por décadas: sempre achei tatuagem bonita, convivi com muitos músicos e fãs que as tinham, mas nunca tive a iniciativa de fazer uma. Agora não quero mais parar.'
O músico já homenageou na pele artistas que admira, como Chuck Berry, Elvis Presley e os Rolling Stones, além de nove estrelas para cada um de seus casamentos e outra do irmão e parceiro de banda Celso Vecchione, morto em 2023. 'Meu corpo virou um livro com minha história.'
Para Polianna Souza, geriatra do Hospital Israelita Albert Einstein, porém, a sigla Nolt funciona mais como nome de mercado do que como inovação teórica.
'O termo, interpretado por alguns como uma espécie de negação do envelhecimento, é um novo rótulo para um fenômeno que já observamos há algum tempo: uma mudança profunda na forma como as pessoas estão envelhecendo e desejam envelhecer.'
Polianna explica que, embora tenha ganhado força nas redes sociais, como costuma acontecer com muitos movimentos contemporâneos, o Nolt descreve um comportamento real: pessoas mais velhas que desafiam o estereótipo clássico da velhice associada à passividade, fragilidade e adoecimento.
'São idosos que rejeitam a ideia de que envelhecer significa, necessariamente, desacelerar ou se retirar da vida.'
Até se aposentar, há 20 anos, Amália Leandro Olegário, 80, havia priorizado cuidar dos oito filhos e tinha feito, até então, apenas uma viagem mais longa: de São Paulo a Natal, para visitar parentes.
Mas algo em sua rotina mudou após a aposentadoria, e ela começou a explorar destinos mais distantes. Quando uma de suas filhas se mudou para a Itália, Amália começou a passar longas temporadas no exterior e aproveitou a oportunidade para percorrer a Europa. Visitou as cidades italianas Florença e Verona, mas também conheceu a França e a Suíça.
Viúva desde os 51 anos, depois de 35 anos de casamento, ela não planejava reabrir a vida afetiva. Mas em Verona, a aposentada participou da tradição na Casa di Giulietta e fez um pedido diante da estátua da personagem da tragédia 'Romeu e Julieta', de William Shakespeare, cujo lar virou ponto de peregrinação para amantes e apaixonados.
Pouco tempo depois, ela conheceu o italiano Perini Ferruccio, 75, e eles estão juntos há 12 anos. Mudou‑se para os arredores de Verona, aprendeu italiano na prática e hoje resolve sozinha, no novo idioma, idas à farmácia, ao mercado e ao médico.
'Uma chavinha virou na minha cabeça e mudou totalmente minha vida. Comecei a viver uma nova vida, mas não esqueço do Brasil. Eu adoro o Brasil.'
Na prática clínica, isso aparece em detalhes concretos. Pacientes chegam ao consultório com relógios inteligentes monitorando sono e frequência cardíaca, perguntam sobre arritmias detectadas por aplicativos e pedem validação médica para planos de treino retirados de vídeos. Mulheres de 70 anos em programas de musculação deixaram de ser exceção.
'Hoje o idoso quer fazer parte da decisão do tratamento dele, quer saber o porquê que ele tá tomando aquele remédio, para que serve aquele exame', afirma Alexandre Romanos, geriatra assistente da USP (Universidade de São Paulo). Para ele, o engajamento aumenta a adesão a tratamentos e a mudanças de estilo de vida.
Polianna recorda uma paciente que, após a viuvez, aprendeu a usar redes sociais e aplicativos de viagem para começar a viajar sozinha. Em consulta, a paciente teria dito que não queria sobreviver, mas queria continuar vivendo. Outro relato citado pela médica foi o de um homem de 78 anos que procurou atendimento não por doença, mas para revisar sono, alimentação, memória e composição corporal e estabelecer metas para a década seguinte.
A mudança tem efeitos que extrapolam a saúde individual. Romanos aponta impacto econômico: a população que preserva funcionalidade e independência continua a consumir, viajar e, em alguns casos, trabalhar por escolha.
Mas Romanos também adverte para riscos: a pressão estética por uma juventude eterna convive de modo contraditório com o movimento. 'A intenção não é que a gente fique jovem para sempre. A intenção é deixar de ver o envelhecimento como um problema ou defeito', diz. 'O idadismo ainda é uma realidade muito forte, mas eu acho que a gente tá quebrando essas barreiras.'
Há limites. Polianna lembra que o desejo por autonomia e participação atravessa classes sociais, mas os recursos para realizá‑lo não são distribuídos igualmente. No setor privado, pacientes chegam buscando otimização da saúde; no público, muitos aparecem tardiamente, com doenças crônicas que poderiam ter sido prevenidas. A geriatra defende a incorporação de triagens de funcionalidade à atenção básica como forma de democratizar o envelhecimento ativo.
Oswaldo Vecchione segue subindo ao palco. Continua tatuando. Para celebrar 60 anos de sua banda, pretende raspar a cabeça para fazer novas tatuagens, e quer fechar as costas com seus ídolos do rock e com o dragão de São Jorge, para eternizar seu amor pelo Corinthians e pelo rock and roll.





