Saúde
Câncer no Brasil: o número que já é alto, pode ser ainda maior
Comparação com os EUA, que projetam mais de 2,1 milhões de casos, reforça a preocupação com subnotificação e limitações nos registros da doença no país
BATANEWS/REDAçãO
É essencial o trabalho contínuo do Instituto Nacional de Câncer (INCA), que, a cada triênio, divulga estimativas sobre a incidência de câncer no Brasil. Para o período de 2026 a 2028, são estimados 781 mil novos casos anuais no país. O número é baseado nos dados disponíveis de cada estado e em metodologias reconhecidas, que orienta políticas públicas e o planejamento em saúde. Ainda assim, ao comparar esses números com dados internacionais, especialmente dos Estados Unidos, é necessário levantar uma reflexão que vai além da estatística e toca a prática clínica cotidiana.
Segundo a American Cancer Society, os Estados Unidos deverão registrar aproximadamente 2.114.850 novos casos de câncer em 2026, em uma população de cerca de 348 milhões de habitantes, o equivalente a cerca de 607 casos por 100 mil pessoas. O Brasil, com aproximadamente 213 milhões de habitantes, projeta 781 mil novos casos, cerca de 366 casos por 100 mil brasileiros.
A diferença é expressiva. Ainda que fatores raciais, geográficos, socioeconômicos e comportamentais precisem ser considerados, essa discrepância chama a atenção. Ou somos, de fato, um país com muito menos câncer, o que não se sustenta na prática clínica, ou há limitações relevantes na identificação e no registro desses casos.
Quando olhamos para a mortalidade, o contraste permanece. Nos Estados Unidos, são estimadas cerca de 626 mil mortes por câncer em 2026, aproximadamente 180 óbitos por 100 mil habitantes. No Brasil, esse número gira em torno de 110 por 100 mil pessoas. À primeira vista, isso poderia sugerir um cenário mais favorável. No entanto, também levanta uma hipótese incômoda. Pode ser que estejamos diagnosticando e registrando menos, tanto na incidência quanto na causa básica dos óbitos.
A minha percepção clínica, construída ao longo de décadas de cirurgia oncológica e gestão em saúde, reforça essa preocupação. Em muitos casos, o evento final que leva ao óbito de um paciente com câncer não é registrado como tal. É pouco efetivo quando, mesmo com notificação compulsória de óbitos, esse preenchimento é falho. Infelizmente, o que muito aparece nos atestados de óbito são condições imediatas, como insuficiência respiratória, broncopneumonia ou sepse e não a doença de base que desencadeou toda a cadeia de eventos. O câncer é uma doença que evolui e que desencadeia efeitos sistêmicos no corpo.
Dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, ajudam a ilustrar essa possibilidade de subnotificação. Em 2024, foram registrados milhares de óbitos por causas como broncopneumonia não especificada (14.036), sepse (22.712) e insuficiência cardíaca (31.988), além de diversas classificações de insuficiência respiratória. Evidentemente, essas condições têm múltiplas origens. No entanto, é plausível supor que uma parcela relevante desses casos esteja associada a pacientes com câncer em estágios avançados.
Não se trata de afirmar que há erro sistemático, mas de reconhecer uma fragilidade estrutural no preenchimento das declarações de óbito, especialmente fora dos grandes centros. Essa possível subnotificação tem implicações diretas para a saúde pública. Estatísticas acuradas orientam políticas, prioridades e investimentos. Se subestimamos a incidência ou a mortalidade por câncer, corremos o risco de dimensionar inadequadamente a necessidade de serviços e de resposta do sistema de saúde.
Ao mesmo tempo, é importante reconhecer avanços. Nos Estados Unidos, a mortalidade por câncer vem caindo há décadas, com milhões de mortes evitadas graças à prevenção, ao diagnóstico precoce e aos tratamentos mais eficazes. Esse progresso depende de investimento contínuo em ciência e assistência, algo que não pode ser negligenciado.
No Brasil, avançamos, mas ainda convivemos com desigualdades regionais, dificuldades de acesso e lacunas na informação. É nesse ponto que a qualidade dos dados se torna ainda mais crítica. Conhecer com precisão o tamanho do problema é o primeiro passo para enfrentá-lo de maneira eficaz.
Minha intenção aqui não é desqualificar estimativas, mas ampliá-las com a lente da prática clínica e da realidade assistencial. O que já parece alto pode ser ainda maior e ignorar essa possibilidade pode nos levar a respostas insuficientes diante de um problema que exige rigor, transparência e planejamento. Afinal, em saúde pública, números não são apenas estatísticas. São decisões que impactam vidas.
Veja - *Ademar Lopes é cirurgião oncológico, membro do Conselho e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO)





