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De Neymar a detergente: como a polarização contaminou os mais variados assuntos do país
Chaga tem interrompido amizades, criado dificuldades para empresas, interferido na individualidade das pessoas e fragilizado a credibilidade de instituições
BATANEWS/VEJA
A cinco dias da convocação da seleção brasileira para a Copa do Mundo, o Centro de Estudos Aplicados de Marketing da ESPM-SP perguntou a 400 torcedores a opinião deles sobre a participação do atacante Neymar. Os entrevistados foram divididos por suas convicções ideológicas. Dos que se identificaram como de direita, 66% eram a favor e 24% contra. Entre os esquerdistas, o resultado se inverteu: 40% contra e 37% a favor. Um mês antes, num levantamento mais amplo, a Genial/Quaest fez a mesma pergunta a lulistas e bolsonaristas. Metade dos apoiadores do atual presidente era contra a presença do atleta do Santos na lista, enquanto 57% dos admiradores de Jair Bolsonaro se disseram a favor.
É curioso que, em ano de eleições gerais, empresas e institutos de pesquisa invistam tempo e dinheiro para tentar captar o sentimento da população em relação a um tema aparentemente irrelevante e teoricamente restrito ao universo do futebol. A explicação está numa chaga que tem interrompido amizades, criado dificuldades para empresas, interferido na individualidade das pessoas e fragilizado a credibilidade de instituições.
Na segunda-feira 18, Carlo Ancelotti, o técnico da seleção, colocou um ponto-final no mistério (leia a reportagem na pág. 60), mas o episódio deixou à mostra o nível de irracionalidade que a polarização política tem provocado nos mais diferentes segmentos da sociedade. A convocação de Neymar foi recebida com euforia por alguns e com absoluto desprezo por outros. Ninguém em sã consciência nega que o jogador foi — e talvez ainda seja — um dos mais talentosos atacantes do país.
Talvez as condições físicas dele hoje não sejam as ideais, e há até quem aponte sua personalidade como um problema que pode influenciar negativamente a equipe. São argumentos que justificariam dúvidas sobre a convocação. Mas não é isso que está na origem dos acalorados embates que mobilizam comentaristas, atletas, dirigentes e torcedores. Em 2022, às vésperas da eleição, Neymar postou um vídeo declarando apoio ao então presidente Jair Bolsonaro e angariou a antipatia da esquerda, que torcia para que o atleta ficasse de fora da lista. A direita, por sua vez, comemorou efusivamente a “vitória”.
A polarização ascendente capturou uma das poucas unanimidades nacionais. “A alegria venceu a perseguição. Em outubro ocorrerá de novo”, postou em suas redes sociais o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Na mesma mensagem, o filho Zero Três de Jair Bolsonaro acusou Lula de ter feito um lobby fracassado junto ao técnico da seleção para que o jogador não fosse convocado. O presidente, que nas últimas eleições já havia provocado o craque por suas declarações em favor de seu adversário, disse em um evento público que havia conversado com Carlo Ancelotti e concluído que ele não iria “convocar ninguém pelo nome”, numa referência ao atacante santista.
O PL, partido do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato ao Palácio do Planalto, aproveitou a convocação para se afastar um pouco do mau momento da campanha do senador diante das revelações do escândalo do Banco Master (leia a matéria na pág. 26): “Flávio é Neymar e Neymar é Flávio”, era a mensagem da legenda, ao lado de uma imagem do candidato vestindo a camisa do atacante do Santos. “Eu já sabia! Agora o hexa vem”, completou o próprio Flávio, em uma foto ao lado do ídolo.
A divisão extremada entre dois lados como vetor de campanhas políticas começou a partir de 2014, com o crescimento exponencial do antipetismo, após a revelação de que o partido e seus aliados estavam no comando de um esquema de corrupção que desviou bilhões de reais dos cofres da Petrobras. A eleição de Jair Bolsonaro em 2018 consolidou a cisão entre os dois grupos. “Na polarização, os indivíduos passam a organizar suas identidades, religião e valores pela forma como pensa determinado político ou partido”, explica o cientista político Rafael Favetti, diretor da Fatto Inteligência Política.
É também uma trilha em direção à irracionalidade. Uma pesquisa do instituto Edelman Trust Barometer, que mede anualmente indicadores em 28 países, aponta que 72% dos brasileiros têm o que especialistas chamam de mentalidade insular, um modelo clássico de polarização que impede, por exemplo, que as pessoas levem em conta fatos ou informações divergentes de uma convicção já formada. “Sabendo disso, os políticos invocam situações que atingem a emoção para iniciar disputas. A polêmica sobre a convocação do Neymar é um exemplo disso”, acrescenta Favetti. O recente embate em torno da proibição de um detergente segue a mesma lógica.
Há duas semanas, a Anvisa anunciou o recolhimento de lotes de produtos de limpeza da marca Ypê que apresentaram indicadores de contaminação. A decisão, tomada a partir de análises técnicas, se transformou em um bizarro embate. Militantes de direita, incensados por políticos, enxergaram na medida uma conspirata do governo Lula, que estaria perseguindo o fabricante pelo fato de seus proprietários constarem na lista de doadores da campanha de Jair Bolsonaro em 2022. O vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo (PL), por exemplo, publicou um vídeo lavando louça com o detergente. “Vamos acabar com essa sacanagem que estão fazendo com a empresa 100% brasileira”, conclamou.
O senador Cleitinho (Republicanos-MG), pré-candidato ao governo de Minas Gerais, perguntou, em tom de deboche, se a Anvisa passaria a fiscalizar também “as buchas” usadas pelos brasileiros. Um produtor de conteúdo para a internet viralizou após simular que estava bebendo o detergente. Era brincadeira, o conteúdo ingerido, na verdade, era iogurte, mas o vídeo foi replicado milhões de vezes e apresentado como “prova incontestável” de que não havia nenhum problema com o produto e que o caso nada mais era do que perseguição política.
Esse fenômeno de um país dividido em dois nos mais variados assuntos é mensurado em pesquisas. Segundo uma delas, o Brasil foi o quarto país mais polarizado do mundo em 2025, num ranking de 171 nações elaborado pela Our World in Data. Ficou trás apenas de Mianmar, Turquia e Polônia. Segundo a entidade, a classificação leva em conta sociedades altamente divididas por campos políticos hostis, nas quais diferenças ideológicas afetam as relações sociais e desencorajam interações entre os opostos. As redes sociais têm um papel importante nesse cenário de conflagração.
De acordo com especialistas, postagens que incentivam o dissenso são captadas mais facilmente pelos algoritmos das plataformas, que reverberam discursos de ódio, opiniões polêmicas e dados nem sempre verdadeiros que retroalimentam o antagonismo, provocando uma guerra cultural que patrulha o comportamento de pessoas e empresas. “É como se cada decisão, cada experiência tivesse um significado relacionado ao alinhamento ideológico de todo mundo. É como se a sua vida cotidiana tivesse que ter uma posição favorável ou contra sobre qualquer assunto”, ressalta Flávia Biroli, professora de ciência política da Universidade Brasília (UnB).
Um bom exemplo disso ocorreu no ano passado, quando uma peça publicitária das sandálias Havaianas enfureceu os bolsonaristas ao não desejar que as pessoas começassem 2026 “com o pé direito”. Houve uma campanha de boicote aos calçados da empresa promovido por grupos ligados ao bolsonarismo. A rede de lojas Havan talvez seja o caso mais emblemático nesse território. O dono do conglomerado, Luciano Hang, que apoiou publicamente as campanhas de Jair Bolsonaro, teve suas lojas atacadas e depredadas por grupos ligados à esquerda. “Algumas pessoas se dizem hoje indignadas porque estão sentindo na pele a perseguição que sofri por ter me manifestado a favor de um candidato”, diz o empresário.
O mundo artístico também tem produzido cenas preocupantes. A banda de rock Ira! foi hostilizada e teve uma turnê cancelada depois que o vocalista Nasi criticou durante numa apresentação os defensores da anistia para os envolvidos nos eventos do dia 8 de janeiro. Já o cantor sertanejo Zezé Di Camargo provocou um enorme barulho nas redes ao pedir a suspensão de um programa dele que seria exibido no SBT pelo simples fato de a emissora ter recebido em seus estúdios a visita do presidente Lula.
Recentemente, o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Luiz Vieira de Mello Filho, deu uma contribuição para impulsionar o debate ao dizer que conviviam na Corte “ministros vermelhos e azuis” — classificação feita pelo magistrado de acordo com o grau de ativismo em defesa dos trabalhadores. Ele, por exemplo, se colocou entre os vermelhos. É, no mínimo, impróprio para um juiz assumir que tem lado. “A polarização excessiva pode gerar um efeito muito negativo, que é a própria erosão democrática.
O objetivo final passa a ser derrotar seu inimigo, o que é um princípio incompatível com a democracia”, avalia Nara Pavão, professora de ciência política da Universidade Federal de Pernambuco. Nos Estados Unidos, onde a escalada da polarização já resultou em dois atentados contra o presidente Donald Trump, uma pesquisa revelou que 20% dos entrevistados são em alguma medida a favor de que “verdadeiros patriotas possam recorrer à violência para salvar seu país”. Felizmente, o Brasil não chegou a esse ponto de radicalização, mas é fundamental resgatar os debates saudáveis, com respeito às opiniões diversas. O país perde o rumo quando impera por aqui o clima de irracionalidade em discussões que vão da convocação de Neymar à proibição de um detergente.
Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996





