Cotidiano
Homens dizem temer abordar mulheres por medo de acusação de assédio
BATANEWS/CGNEWS
'Se tentar beijar, pode ser acusado de assédio', dizem alguns. 'Tomar iniciativa é visto como assédio', escrevem outros. Comentários do tipo inundaram o post de um vídeo publicado pelo influenciador e humorista Yuri Viana, 28, no qual ele e uma atriz encenam um encontro amoroso. Enquanto ele fala sem parar, sem saber como se aproximar, ela pensa: 'Será que ele não vai me beijar? Estamos aqui há duas horas'.
Os comentários ilustram uma situação relatada pelos homens: eles têm dificuldade de chegar nas mulheres porque temem serem chamados de assediadores. Nas redes sociais, nos bares, nos clubes, reclamam que hoje tudo é assédio.
Esse tipo de reação masculina levou Yuri a produzir conteúdo em que explica as diferenças entre flerte e assédio, com humor e leveza. São dicas básicas que ele compartilha com 343 mil seguidores no Instagram, como a orientação de não insistir após um 'não'. Constranger também não pega bem.
'Tento mostrar que existem formas respeitosas de abordagem e que o 'não' faz parte', disse Yuri à Folha. 'Já teve gente que falou que passou a entender melhor certos limites. Mas não é algo que muda todo mundo de uma vez, é um processo.'
Segundo a advogada Marina Ganzarolli, presidente do Me Too Brasil, o discurso de que 'tudo virou assédio' não é novo, mas ganhou amplitude com as redes sociais. Segundo ela, há resistência em reconhecer avanços na estrutura das relações de gênero.
'O que estamos falando quando falamos de assédio é de controle e de poder. Mudanças nessa dinâmica podem gerar resistência', afirma. Ganzarolli diz ainda que faltam referências, modelos, exemplos de uma masculinidade que não seja baseada em controle ou insistência para homens e meninos.
Na avaliação da psicanalista Luciana Saddi, da Sociedade Brasileira de Psicanálise em São Paulo, os homens se sentem desorientados diante de mudanças sociais e nas relações de gênero. Segundo ela, o modelo tradicional de masculinidade, baseado na ideia de autoridade e de homem provedor, deixou de funcionar como referência única.
Embora reconheça que homens e mulheres podem ter expectativas bem diferentes e que isso pode gerar confusão, Saddi afirma que esse ruído não pode ser usado como justificativa para avançar um sinal. 'Os homens sabem quando estão ignorando um limite. Não é ingenuidade', diz.
A psicóloga Mayumi Kitagawa, fundadora da plataforma Sou Pagu, lembra que, enquanto muitos homens relatam o receio de serem mal interpretados, as mulheres buscam formas de avaliar risco e se proteger do perigo. 'Existem dois medos que coexistem no mesmo espaço, mas eles não são equivalentes', afirma.
Para Mayumi, isso não significa a morte da paquera, mas aponta a necessidade de adaptação a novos parâmetros de interação.
'O flerte é uma comunicação em código e depende de reciprocidade. Quando esses sinais ficam mais complexos, pode surgir insegurança', explica a psicóloga, citando a importância também de sinais como gestos e linguagem corporal. 'O 'não' já é um não. A ausência de reciprocidade também é um não.'
Três homens ouvidos pela reportagem relatam perceber esse medo em si próprios ou em amigos. Para o empresário Rafael Almeida, 29, o medo da exposição piora o cenário. 'A gente nunca sabe como o outro vai reagir. Um elogio simples pode ser visto de forma diferente dependendo do contexto.'
Mas ele diz que o receio também vem da insegurança. 'As mulheres estão em uma posição mais empoderada, donas de si, e isso faz com que alguns homens percam confiança para dar o primeiro passo.'
O auxiliar de operação Ícaro Gouveia, 28, conta que passou a evitar elogios e abordagens mais diretas. 'Hoje quase nada é tolerado', ele afirma, embora negue confundir conceitos. 'Se a pessoa demonstra que não quer, insistir já vira desrespeito.'
Para o advogado Eduardo Martins, 29, dizer que tudo virou assédio é algo mais ligado ao medo de rejeição, uma justificativa para evitar interações.
O flerte começa antes da fala, na leitura de sinais e códigos sociais, dizem as especialistas. Na prática, isso costuma aparecer no momento em que a conversa flui. Ficou na dúvida sobre se pode avançar? Uma alternativa é perguntar à pessoa se pode beijá-la, por exemplo. Se houver recusa ou hesitação, o limite deve ser respeitado.
Também há sinais não verbais, como afastamento. Mudar assunto ou não dar seguimento à conversa também podem indicar recusa —não há troca.
Quando há reciprocidade, a interação se sustenta. Há resposta, interesse e continuidade. Quando isso não acontece e uma das partes insiste, a dinâmica deixa de ser flerte.
O assédio é um comportamento insistente, invasivo ou constrangedor que causa intimidação, humilhação ou desconforto. No Código Penal, a definição aparece no artigo 216-A e se refere a constranger alguém com o objetivo de obter favorecimento sexual, aproveitando-se de uma posição de hierarquia ou poder.
Outras situações, como insistência após uma recusa, comentários sexuais invasivos, perseguição, toques sem consentimento e intimidação também podem configurar crimes como importunação sexual, stalking, ameaça ou constrangimento ilegal.





