Brasil movimenta 45 milhões de toneladas de fertilizantes e mantém dependência externa de 85%

Pressão por eficiência leva indústria a investir em automação para reduzir perdas, garantir qualidade e mitigar riscos regulatórios.

BATANEWS/OPR


Fotos: Claudio Neves

O mercado brasileiro de fertilizantes registrou a entrega de aproximadamente 45 milhões de toneladas em 2025, segundo dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O volume expressivo é sustentado por uma dependência externa elevada: cerca de 85% dos nutrientes consumidos no país são importados, de acordo com o Comex Stat, em uma operação que movimentou aproximadamente US$ 15 bilhões nos últimos ciclos.

Esse cenário de exposição ao mercado internacional orienta políticas públicas e estratégias industriais. A modernização das unidades produtivas é um dos eixos do Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), coordenado pelo Conselho Nacional de Fertilizantes e Insumos Nutricionais (Confert), que estabelece como meta reduzir a dependência externa para 45% até 2050.

Com preços dolarizados, a margem operacional das misturadoras depende diretamente da eficiência no processamento. Para o engenheiro Franklin Oliveira, que atua em empresa do segmento, o controle técnico das operações é determinante para a sustentabilidade econômica das unidades. “O fertilizante é um ativo dolarizado e um dos itens de maior peso na planilha do produtor. O rigor na dosagem assegura que o insumo entregue corresponda exatamente ao formulado, evitando falhas técnicas que representam desperdício direto de matéria-prima cara”, afirma.

Oliveira destaca que falhas na formulação também ampliam o risco regulatório. “Sem sistemas de controle de alta fidelidade, o produto final apresenta variações na composição química, resultando em lotes que podem divergir das garantias obrigatórias registradas no Ministério da Agricultura e Pecuária”, ressalta.

Um dos principais entraves técnicos da indústria está na mistura de matérias-primas com diferentes densidades e granulometrias. Esse desbalanceamento físico pode comprometer a homogeneidade do produto final. “Quando componentes com tamanhos de partícula heterogêneos são movimentados, ocorre a segregação física, em que partículas menores se concentram no núcleo do fluxo, enquanto as maiores migram para as extremidades”, explica Oliveira.

Para mitigar o problema, a adoção de sistemas automatizados tem sido considerada estratégica. Benchmarks industriais indicam que operações com baixa precisão ou dependência de ajustes manuais podem gerar perdas de nutrientes entre 1% e 3% do volume processado, o que representa impacto direto sobre custos em um insumo de alto valor.

Segundo o engenheiro, tecnologias de fluxo contínuo com monitoramento digital permitem correções em tempo real. “A transição para sistemas de fluxo contínuo com monitoramento digital permite que a dosagem seja corrigida em tempo real, compensando variáveis físicas como umidade e oscilação de densidade dos lotes”, pontua.

A elevação do padrão técnico de mistura e ensaque é apontada como fator-chave para a competitividade da indústria nacional. A capacidade de manter homogeneidade em escala industrial é condição para o desenvolvimento de fertilizantes especiais e de liberação controlada. “O futuro da indústria nacional passa pela automação de alta precisão. A capacidade de manter a homogeneidade em escala industrial é o que permitirá ao Brasil produzir fertilizantes especiais e de liberação controlada com o mesmo rigor das principais potências globais. Não se trata apenas de movimentar carga, mas de assegurar que a engenharia de precisão atue como o núcleo da inteligência financeira da planta”, menciona.