Política
Direita inicia pré-campanha em meio a divergências, intrigas e disputas de poder
Com o ex-presidente em prisão domiciliar e sem alguém com autoridade para mediar conflitos, o grupo político enfrenta atritos em série
BATANEWS/VEJA
O presidente Lula costuma dizer que o PT preza a divergência interna e que toda agremiação de esquerda tem o direito de lançar candidato ao Palácio do Planalto. Apesar desse discurso, ele sempre age para abafar contestações e rivais, tanto em seu partido como em seu campo político. Em 2010, por exemplo, convenceu o PSB a desistir da corrida ao Palácio do Planalto para não atrapalhar a candidatura de Dilma Rousseff. Sob a batuta do petista, impera o conhecido “centralismo democrático”, que exige união e obediência totais em torno da decisão tomada pelo chefe. Na direita, a situação é diferente. Hoje o grupo tem uma penca de presidenciáveis, externa divergências em público e está envolvido em disputas fratricidas e intrigas pessoais. A cizânia não é propriamente uma novidade, mas ganhou fôlego com a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado. Com o capitão enclausurado e enfrentando dificuldades para definir estratégias e negociar alianças, a tropa oposicionista se entregou a uma espécie de cada um por si, que parece longe de terminar.
Considerado um preso político por aliados, que tentam garantir no Congresso a redução das punições aplicadas aos golpistas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), Bolsonaro cumpria pena no 19º Batalhão da Polícia Militar em Brasília, conhecido como Papudinha, até que, por questões de saúde, foi autorizado pelo ministro do STF Alexandre de Moraes a mudar para o regime de prisão domiciliar. Transportado pela polícia, que o obrigou a usar um colete à prova de balas durante o trajeto, o ex-presidente chegou no fim de março à sua residência, localizada num condomínio de classe média alta em Brasília, que fica a 11 quilômetros do Palácio do Planalto e tem 1 234 casas e 3 800 moradores. Depois que uma imagem da chegada dele ao local foi divulgada por uma emissora de televisão e nas redes sociais, o ministro Alexandre de Moraes proibiu o sobrevoo de drones num raio de 1 quilômetro da casa de Bolsonaro e determinou a prisão dos operadores desse tipo de aparelho que descumprirem a ordem. Não foi a única mudança na rotina da vizinhança.
Patrulhas da PM do Distrito Federal fazem vigilância 24 horas por dia na frente das duas portarias do condomínio. Dentro das dependências, policiais obrigam moradores e curiosos a apagar fotos e vídeos da casa do preso. Já um grupo de seis policiais fica dentro da garagem de Bolsonaro. Um de seus trabalhos é inspecionar o porta-malas dos automóveis para impedir eventual tentativa de fuga. Como parte do reforço da segurança, o próprio condomínio aumentou de 180 para 300 o número de câmeras de reconhecimento facial de moradores e visitantes. Diante do quadro de saúde de Bolsonaro, a casa alugada pela família também passou por adaptações. No banheiro, foram instaladas barras de apoio para reduzir o risco de quedas. O capitão também ganhou uma cama reclinável, com cabeceira móvel, numa tentativa de evitar novo episódio de broncoaspiração. “Ele continua o tratamento com fisioterapia respiratória, motora e reabilitação cardiopulmonar, com previsão de novo controle via tomografia em quatro semanas”, diz o médico Brasil Caiado.
Na prisão domiciliar, Bolsonaro — que tem feito exercícios respiratórios e atividade física numa esteira e numa bicicleta ergométrica — tem a companhia da mulher, Michelle, da enteada e da filha mais nova do casal. Ele não pode usar celular, postar mensagens em redes sociais ou gravar vídeos para terceiros. Por decisão de Moraes, o ex-presidente recebe visitas conforme regras que valiam quando estava encarcerado na Papudinha, que preveem encontros com familiares às quartas-feiras e aos sábados, entre 8 horas e 16 horas. Os rebentos de Bolsonaro até pediram acesso irrestrito ao pai, mas a solicitação foi negada por Moraes sob a alegação de que a prisão domiciliar foi concedida de forma “excepcionalíssima” em razão da saúde do ex-presidente. “A substituição do local de cumprimento da pena não se confunde com a progressão para um regime mais brando”, afirmou o ministro. Políticos também não podem visitar o ex-presidente. Só os advogados podem conversar com ele diariamente por um prazo de trinta minutos.
Essa brecha está sendo aproveitada pela família. Formado em direito, o senador Flávio Bolsonaro, escolhido pelo pai para concorrer ao Palácio do Planalto, foi incluído no rol de advogados e, por isso, pode falar com o capitão todos os dias. Depois desses encontros, o Zero Um costuma anunciar candidaturas Brasil afora e mandar recados a aliados. Ele se tornou o porta-voz oficial de Jair Bolsonaro, mas não conseguiu acabar com a barafunda entre aliados. Primeiro, porque há quem duvide que o ex-presidente é de fato o autor de todas as mensagens ou ordens repassadas pelo primogênito. Segundo, porque não são poucos aqueles que só batem continência para o capitão e resistem a seguir o senador. “Quando tinha a oportunidade de conversar com o partido, o presidente Bolsonaro, pelo fato de dar a última palavra, de ser alguém respeitado por todos, facilitava a mediação de eventuais conflitos ou diferenças dentro do grupo. O fato de ele estar impedido hoje de conversar com o partido certamente gera um pouco mais de dificuldade”, reconhece o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha à Presidência de Flávio Bolsonaro.
As dificuldades são muitas e têm como impulsionadores, nos casos mais acalorados, os próprios integrantes da família. Tentando apresentar-se ao eleitorado como um candidato moderado, Flávio Bolsonaro faz o que pode para tentar apaziguar os ânimos. Até agora, não tem conseguido. Autoexilado nos Estados Unidos, seu irmão Eduardo Bolsonaro, que teve o mandato de deputado cassado, se envolveu num bate-boca nas redes sociais com Nikolas Ferreira, o principal nome da direita no universo digital. O Zero Três, que em certo momento também sonhou concorrer à Presidência, reclamou de um perfil que não apoiava, como ele gostaria, a candidatura de Flávio Bolsonaro. Em resposta, Nikolas compartilhou um conteúdo do tal perfil e ainda publicou um irônico “kkk” em resposta a Eduardo. A desconfiança de lado a lado é antiga. Um dos mais celebrados influenciadores digitais da direita, Kim Paim disse a VEJA que o deputado mineiro tenta construir uma imagem de independente, como forma de se cacifar para voos mais altos no futuro.
Essa opinião não é isolada. Conhecido por fazer coro aos irmãos, o vereador Jair Renan publicou uma mensagem ironizando a suposta falta de empenho de Nikolas no apoio a Flávio Bolsonaro. O deputado reagiu afirmando que a capacidade do Zero Quatro “não alcança a de uma toupeira cega”. Antes de Eduardo e Jair Renan, o vereador Carlos Bolsonaro, o Zero Dois, também trocou sopapos virtuais com Nikolas, que não é um quadro qualquer. Além de sua força nas redes sociais, ele foi o deputado mais votado em Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral do país, onde Flávio Bolsonaro ainda não tem um palanque competitivo. Pensando no horizonte curto de 2026, é melhor afagar do que brigar com o parlamentar. As rixas e picuinhas também envolvem a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que foi cotada para ser vice na chapa dos sonhos do Centrão e do empresariado, que seria encabeçada pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, de quem, aliás, alguns aliados cobram mais empenho na campanha nacional.
Pré-candidata ao Senado pelo Distrito Federal, Michelle também é criticada por suposta falta de empenho a favor de Flávio Bolsonaro, mas as queixas são feitas nos bastidores, sem a estridência usada contra outros alvos. Recentemente, um amigo pessoal dela, o maquiador Agustin Fernandez, declarou que Flávio Bolsonaro não consegue dialogar com as classes mais baixas. “A Michelle, como toda mulher vivendo um momento difícil, estava desabafando com pessoas próximas, e essas pessoas, por solidariedade, externam o que ouviram e acabam trazendo esse mal-estar”, afirmou o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante. Fontes do partido esperam que a ex-primeira-dama, considerada um cabo eleitoral poderoso entre mulheres evangélicas, faça em breve um gesto público em favor do enteado. Recentemente, Michelle criou polêmica ao divulgar um vídeo destacando o senador Esperidião Amin (PP), que disputará uma das duas vagas ao Senado em Santa Catarina e terá como adversário Carlos Bolsonaro. Ela e o Zero Dois nunca se deram bem. “Todo mundo tem liberdade para pensar o que quiser. Vamos resolver. Ninguém precisa de puxão de orelha, não”, afirmou Flávio Bolsonaro a VEJA.
O curioso é que a brigalhada ocorre depois de o senador se consolidar na corrida presidencial, empatar tecnicamente com Lula nas simulações de segundo turno e, em algumas sondagens, aparecer numericamente à frente do presidente. Outros nomes da oposição, como os ex-governadores Ronaldo Caiado e Romeu Zema, também se mostram competitivos contra o presidente numa eventual rodada final (veja no gráfico), mas cada um seguindo seu próprio roteiro eleitoral. O petista enfrenta um processo de desgaste de imagem e de fadiga de material. Como seu terceiro mandato não produziu uma nova marca, não caiu no gosto popular e não resolveu problemas estruturais, Lula resolveu apostar mais uma vez, na campanha, no discurso contra a ameaça fascista, que seria representada pela família Bolsonaro, e na promessa de uma frente ampla para salvar a democracia brasileira.
Além de anunciar uma série de medidas de apelo popular, destinadas a atenuar o mau humor do eleitorado com o custo de vida, o presidente voltou a acenar para o centro, segmento que será decisivo para o resultado da próxima sucessão presidencial. Foi por ordem de Lula que o PT decidiu suavizar seu manifesto lançado após recente congresso partidário. No texto, a legenda amenizou as críticas ao sistema financeiro, poupou o Banco Central e não retomou os ataques ao suposto “austericídio” que teria sido cometido pelo ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, agora candidato ao governo de São Paulo. O PT também não mencionou o rumoroso caso Master, que tem desgastado a imagem do governo (leia a reportagem na pág. 42). “O nosso papel histórico é eleger o presidente Lula, e a sua eleição significa a vitória da democracia e a derrota do fascismo”, afirmou o presidente da sigla, Edinho Silva. Para atingir esse objetivo, o PT abriu mão de disputar governos estaduais e de lançar candidaturas ao Senado em benefício de outras legendas.
Em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, o segundo e o terceiro maiores colégios eleitorais do país, o partido pretende apoiar nomes do PSB e do PSD para o Executivo local. Ex-líder do governo na Câmara, o deputado José Guimarães (PT-CE) foi instado por Lula a desistir da candidatura ao Senado no Ceará e assumir o cargo de ministro das Relações Institucionais, o que facilita a costura no estado de uma aliança com o emedebista Eunício Oliveira, ex-presidente do Senado. Na esquerda, a coisa funciona assim: o general manda e a tropa obedece. Na direita, o capitão encarcerado não consegue controlar e orientar a tropa. Mesmo assim, a batalha está equilibrada e é impossível prever neste momento qual dos dois lados da trincheira sairá vencedor.
Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993

