MST teme impacto do Acordo UE-Mercosul sobre produtores de leite e queijo; entenda cenário

Ao SBT News, João Pedro Stédile diz que vigência do livre comércio gera insegurança para agricultores familiares em Minas e no sul do país

BATANEWS/SBT


O líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile , vê com preocupação o impacto do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia sobre produtores da agricultura familiar. Os termos provisórios do tratado entraram em vigor na sexta-feira (1º).

Ao SBT News , Stédile diz que o baque será mais duro para pequenos produtores de laticínios no Sul e em Minas Gerais , dois polos centrais do mercado nacional de queijos e derivados e que já renderam ao país prêmios de referência internacional. Para Stédile, pequenas cooperativas estão sujeitas a ter prejuízo no médio e longo prazo, conforme os gatilhos do acordo forem destravados.

O MST foi uma das principais vozes internas no país a resistir ao acordo pelo entendimento de que os benefícios do livre comércio estarão restritos à redução das taxas de exportação para o agronegócio de larga escala, enquanto o cenário do mercado interno será de competição desleal de pequenos produtores contra uma “inundação' de marcas estrangeiras.

O SBT News detalha abaixo os principais pontos do acordo para o mercado de laticínios do país:

O uso de termos como parmesão (do original parmigiano reggiano), gorgonzola, grana padano, fontina e gruyère , na realidade, não está completamente vetado. O Brasil conseguiu permissão para que a Indicação Geográfica – o dispositivo de propriedade intelectual que valida a nomenclatura de produtos para uma região específica – fosse flexibilizado, dado o uso comum dentro do país.

Assim, fabricantes que comercializavam continuamente essas mercadorias até a data de corte (outubro de 2012 ou de 2017, a depender do produto) seguem autorizadas a chamar seus queijos pelo nome tradicional, com especificações na rotulagem. Já outros, como o queijo grego feta e os franceses roquefort e comté, terão que ser renomeados nas prateleiras.

Na avaliação de Glauco Carvalho, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o cenário prévio ao acordo já pressionava o mercado global a aprofundar a especialização da produção leiteira . Isso envolve etapas como pasteurização, salga, maturação e prensagem, além de observância a normas sanitárias de padrão internacional.

Conforme Carvalho, esse movimento tem forçado o encerramento de fazendas com baixa produtividade . O último Censo Agropecuário, publicado em 2017, calculava em torno de 634 mil produtores de leite ativos no Brasil – hoje, esse número é estimado em 500 mil. Nos últimos 20 anos, segundo o especialista, os EUA passaram de 83 mil fazendas para 24 mil; a Argentina, de 15 mil para 9 mil; já a Europa tem cerca de 25% dos produtores de leite que registrava no início deste século.

Como explica Carvalho, a crise de desabastecimento de leite em 2022 forçou o governo brasileiro a dobrar importações da Argentina e Uruguai, sobretudo em leite em pó e mussarela. Mas mesmo depois que o cenário interno se estabilizou, o novo padrão se disseminou e criou um impasse interno.

A Confederação Nacional de Agricultura (CNA) pressionou o Ministério da Agricultura a proibir essas importações sob a alegação de dumping predatório, enquanto Argentina e Uruguai diziam estar em conformidade com o livre comércio no Mercosul.

Mesmo com restrições para proteger o mercado interno, a prática acabou adotada direto na ponta. “Os laticínios estavam importando também, mas ao não importar, os próprios varejistas e traders começaram a importar. Então o volume de importação seguiu alto porque a turma aprendeu a fazer importação' , disse o pesquisador.

Dado o aumento da competição que já vinha em curso com os vizinhos, o setor de laticínios se movimentou para ser um dos mais blindados pelo acordo. O leite em pó , por exemplo, terá uma cota máxima de importação de 10 mil toneladas e que só valerá em 2036, com redução gradual da tarifa ano a ano e começando em mil toneladas. Hoje, a média de importação mensal de leite em pó é de 10 mil a 15 mil toneladas.

Para Carvalho, esses volumes indicam que a importação de laticínios continuará majoritariamente vindo de Argentina e Uruguai pelos próximos anos. “Perto do que a gente já importa, eu vejo como muito pouco relevante [o efeito do acordo]. E obviamente, o leite em pó da Europa é mais caro do que o da Argentina. Então se a gente for importar, vai continuar importando da Argentina, que exporta 20 a 30% da produção deles.'

Já no caso dos queijos, a cota máxima de 30 mil toneladas deve pressionar sobretudo os produtores de maturados mais finos, segundo o especialista. A mussarela ficou de fora , assim como o creme de leite e o leite condensado. “Pode trazer um impacto para alguma empresa específica, mas não um impacto setorial relevante. E, obviamente, para o consumidor é ótimo, porque ele vai ter acesso a mais produtos.'

No saldo final, a avaliação de Glauco Carvalho é que o acordo traz sobretudo uma oportunidade para o Brasil acelerar sua integração produtiva e ampliar a eficiência de fazendas . Assim como haverá a entrada de artigos europeus, produtos patenteados do setor nacional, como o Queijo da Serra da Canastra, ganharão espaço nas prateleiras dos 27 países da UE.