Pecuária
Rebanho das raças Wagyu avançam no Brasil e revela nova era da pecuária de carnes premium
Com crescimento nos abates, genética cada vez mais valorizada e consumidores dispostos a pagar mais por qualidade, as raças japonesas Wagyu ganham espaço estratégico na pecuária brasileira — mas ainda enfrenta desafios de padronização e escala.
BATANEWS/REDAçãO
O avanço da pecuária de alto padrão no Brasil já não é mais uma tendência distante — é uma realidade em expansão. Conhecida por produzir uma das carnes mais caras do mundo, o Wagyu – grupo que reúne quatro raças bovinas originárias do Japão – vem registrando crescimento consistente no país, impulsionada pelo aumento da demanda por cortes premium e pela profissionalização da cadeia produtiva.
Dados do Programa Carne Wagyu Certificada mostram que o número de animais abatidos saltou de 1.749 para 2.272 cabeças entre 2024 e 2025, um aumento próximo de 30%, evidenciando que o segmento começa a ganhar tração mesmo dentro de um mercado historicamente dominado pela produção em escala. Clique aqui para seguir o canal do CompreRural no Whatsapp
Apesar disso, especialistas alertam que ainda existe espaço para acelerar esse movimento. Segundo Daniel Steinbruch, presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Wagyu (ABCBRW), o setor enfrenta entraves estruturais. “Há um gargalo histórico no setor no Brasil, em função da falta de padronização para manejo e genética desses animais', avalia o dirigente. Demanda global forte sustenta expansão
“Há um gargalo histórico no setor no Brasil, em função da falta de padronização para manejo e genética desses animais', avalia o dirigente.
O crescimento brasileiro acompanha uma tendência internacional. Uma análise da consultoria Mordor Intelligence aponta que há forte demanda global por proteínas premium, enquanto a oferta permanece limitada — cenário que mantém a competitividade moderada devido às exigências de autenticidade e rastreabilidade.
O mercado mundial de carne Wagyu movimentou cerca de US$ 13,9 bilhões em 2025 e pode alcançar US$ 20,92 bilhões até 2030, com taxa média de crescimento anual de 8,54%.
Essa valorização está diretamente ligada às características do produto. O alto grau de marmoreio — gordura entremeada responsável pela maciez e suculência — eleva o preço da carne, que no Brasil pode ter cortes como a picanha superando R$ 2.300 o quilo.
Além do sabor, estudos indicam que a carne também pode trazer benefícios nutricionais, já que é rica em ácido linoleico conjugado (CLA), considerado mais saudável que outros perfis de gordura bovina. O consumidor mudou — e puxou a porteira
A transformação do mercado passa, sobretudo, por uma mudança no comportamento do consumidor. Ao longo da última década, a carne bovina deixou de ser vista apenas como proteína básica e passou a ocupar um espaço mais sensorial na alimentação, associado à experiência gastronômica, origem e qualidade.
Com isso, compradores passaram a diferenciar raças, sistemas produtivos e padrões de acabamento, criando um público disposto a pagar mais por atributos antes pouco valorizados.
Essa pressão chega diretamente ao campo, exigindo investimentos em genética, nutrição, bem-estar animal e encurtamento do ciclo produtivo. Wagyu: Genética virou o centro do negócio
O avanço das raças também está ligado à evolução tecnológica da pecuária. O aumento de aproximadamente 5% na comercialização de doses de sêmen para corte no Brasil, divulgado pela Associação Brasileira de Inseminação Artificial (ASBIA), reforça que produtores buscam previsibilidade e desempenho.
Para a médica veterinária Tatiana Caruso, referência na criação e seleção genética das raças, o ponto de partida para resultados consistentes está na escolha do material genético. “O investimento em sêmen de touros comprovados é o primeiro passo para garantir desempenho no campo e padronização na terminação', afirma.
“O investimento em sêmen de touros comprovados é o primeiro passo para garantir desempenho no campo e padronização na terminação', afirma.
Ela ressalta que o mercado amadureceu e já não aceita decisões baseadas apenas na aparência do animal. “Hoje não basta ter um touro bonito de catálogo. É preciso saber o que ele carrega no DNA e o que realmente transmite à progênie.'
Na mesma linha, o diretor da PremiunGen, Fernando Pereira, observa que a procura por reprodutores com foco em marmoreio cresceu de forma expressiva. “O mercado entendeu que o fenótipo pode até vender catálogo, mas quem entrega resultado é o genótipo.' Cruzamentos com linhagens Wagyu ajudam a ganhar escala
“O mercado entendeu que o fenótipo pode até vender catálogo, mas quem entrega resultado é o genótipo.'
Para ampliar a base produtiva sem perder qualidade, o programa brasileiro tem priorizado cruzamentos — principalmente com Angus — além de gado leiteiro holandês e Jersey. A estratégia foi inspirada em modelos da Austrália e do Japão, mas adaptada ao clima tropical e à realidade econômica das fazendas nacionais.
O objetivo é claro: produzir cortes com padrão, rastreabilidade e confiança, mirando inicialmente o mercado interno e preparando terreno para exportações.
A remuneração diferenciada é outro atrativo. Animais cruzados podem receber até 25% de bonificação sobre a arroba, enquanto carcaças com alto nível de marmoreio podem alcançar ágio de até 100%, dependendo dos critérios técnicos. De nicho excêntrico a modelo de negócio
A trajetória do jovem pecuarista Daniel Steinbruch ilustra essa virada. Ao apostar no Wagyu ainda nos anos 2000 — decisão considerada incomum para a pecuária brasileira — ele estruturou um modelo baseado em genética, controle produtivo e verticalização.
A produção de carne Wagyu certificada de sua operação saltou de 191,4 toneladas em 2024 para 380,8 toneladas em 2025, com faturamento avançando de R$ 18,3 milhões para R$ 32,3 milhões. A expectativa é atingir 534 toneladas e receita de R$ 40,2 milhões em 2026.
Para ele, a certificação tem papel central na construção do mercado. “Este programa é fundamental porque ele audita, mede e dá credibilidade ao produto final', relatou em entrevista a Forbes.
“Este programa é fundamental porque ele audita, mede e dá credibilidade ao produto final', relatou em entrevista a Forbes.
Hoje, estima-se que existam cerca de 15 mil bovinos com sangue de Wagyu no Brasil, entre puros e cruzados — um universo ainda pequeno, mas com forte potencial de expansão. Brasil pode ocupar espaço estratégico no mercado premium
O cenário internacional também favorece a produção nacional. Segundo Steinbruch, grandes fornecedores de carne de qualidade, como Estados Unidos e Austrália, enfrentam redução de rebanhos e preços elevados, abrindo uma janela competitiva para programas bem estruturados no Brasil.
Nesse contexto, o pecuarista deixa de ser apenas produtor e passa a atuar como articulador de mercado — combinando genética, estratégia industrial e governança para gerar previsibilidade e valor em um setor tradicionalmente comoditizado. Uma pecuária mais sofisticada — e mais rentável
O avanço do Wagyu indica uma mudança mais profunda na pecuária brasileira: a transição gradual de um modelo focado apenas em volume para outro orientado por qualidade e diferenciação.
Se antes o país era reconhecido principalmente pela produção em larga escala, agora começa a disputar espaço em um território onde marca, rastreabilidade e experiência gastronômica valem tanto quanto a arroba.
O rebanho ainda é pequeno diante do tamanho da bovinocultura nacional — mas a mensagem do mercado é clara: a carne premium deixou de ser exceção e passou a ser estratégia.
Escrito por Ana Gusmão





