Saúde
Um novo olhar: as pesquisas que revolucionam o tratamento de doenças que levam à cegueira
Se por um lado é legítimo e animador assistir a esse desfile de inovações, por outro um cuidado permanece clássico: o diagnóstico precoce
VEJA / VICTóRIA RIBEIRO SEGUIR SEGUINDO
Diagnosticado com catarata em 1912, aos 72 anos, o pintor francês Claude Monet (1840–1926) já não enxergava com nitidez o mundo que havia consagrado sua obra. As cores de seus jardins tornaram-se mais densas, amareladas, quase turvas — não por escolha estética, mas porque seus olhos já não funcionavam como antes. “Minha visão ruim fazia com que eu visse tudo através de uma névoa”, descreveu o artista, que perdeu quase totalmente a visão do lado direito. No início do século XX, isso era uma sentença definitiva.
Hoje, o horizonte do “pai do impressionismo” seria outro. A cirurgia de catarata — principal causa reversível de cegueira no mundo — dura de quinze a trinta minutos, o paciente recebe alta no mesmo dia e a recuperação visual ocorre em poucas semanas. Ainda assim, outras doenças oculares, muitas delas mais frequentes com o envelhecimento da população, continuam impondo desafios à medicina. É diante dessas situações, capazes de lançar a vida no escuro, que a ciência apresenta iniciativas revolucionárias.
De terapias baseadas em células-tronco e genes a implantes eletrônicos e olhos biônicos, a missão é uma só: devolver, a pessoas praticamente cegas, a capacidade de perceber luzes, cores e até letras.
Um dos exemplos mais instigantes dessa nova fase da oftalmologia é um implante instalado no fundo do olho e conectado a um óculos equipado com câmera. O dispositivo foi testado com sucesso em pacientes com degeneração macular relacionada à idade, doença mais comum após os 50 anos e que afeta cerca de 200 milhões de pessoas no mundo. Trata-se de um chip minúsculo, com aproximadamente 2 milímetros, implantado na retina por meio de microcirurgia.
O sistema funciona como um atalho: “pula” as células danificadas responsáveis por transformar luz em sinais nervosos e envia os estímulos, captados pela câmera, diretamente ao cérebro. Em estudo publicado no The New England Journal of Medicine, 32 pacientes que completaram um ano de uso apresentaram melhora significativa da visão. Não se trata de alta definição, mas houve um ganho médio de cerca de 25 letras na tabela utilizada nas consultas oftalmológicas. “Isso equivale a aproximadamente 5% de uma visão considerada normal, o que já é bastante relevante para quem tem atrofia de retina”, explica o oftalmologista Gustavo Gameiro, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A expectativa é que o sistema, ainda em fase de aperfeiçoamento, seja aprovado para os mercados europeu e americano em 2026.
Enquanto a biotecnologia avança nessa frente, outra fronteira científica ganha espaço: a terapia gênica. A ideia é relativamente simples de explicar, embora complexa de executar — corrigir genes defeituosos por meio da introdução de cópias saudáveis. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já aprovou o primeiro tratamento desse tipo para distrofias hereditárias da retina associadas a mutações genéticas, desenvolvido pela farmacêutica Novartis. Na prática, trata-se de uma única injeção diretamente na retina para impedir a progressão da perda visual.
Nesse campo, o Brasil ocupa posição estratégica. Na Unifesp, pesquisas em terapia gênica para doenças da retina são conduzidas há pelo menos quinze anos. “Somos um dos países que mais acompanham pacientes com doenças hereditárias da retina e desenvolvem protocolos de tratamento”, afirma o oftalmologista Paulo Schor, professor da instituição e gestor de pesquisa em inovação. “Não são terapias milagrosas, mas funcionam para doenças mais raras.” O ganho pode parecer modesto para quem observa de fora, mas é clinicamente decisivo. “Não é possível voltar a enxergar normalmente, mas dá para conquistar autonomia em situações que não tinham alternativa terapêutica”, diz.
A empolgação, com os pés no chão, também envolve os estudos com células-tronco. Ao longo dos anos, esse tipo de intervenção ganhou fama quase salvacionista, e a ideia chegou à oftalmologia. Nesse caso, porém, em vez de regenerar órgãos inteiros, as células-tronco são usadas como uma espécie de curativo biológico, capaz de reparar a superfície ocular em casos de queimaduras químicas e lesões extensas que comprometem a visão. “Na nossa área, a terapia celular atua, por ora, mais como base de reparo do que como solução definitiva”, ressalta Schor.
Enquanto a retina concentra as apostas mais disruptivas, as inovações para a parte anterior do olho também avançam rapidamente. Em breve, a medicina poderá contar com córneas artificiais. O transplante dessa membrana protetora, danificada por acidentes, infecções ou doenças, é um dos procedimentos mais bem-sucedidos da oftalmologia, com mais de 17 mil cirurgias por ano apenas no Brasil. O principal entrave é o acesso: estima-se que, no mundo, para cada setenta pessoas que precisam de uma nova córnea, apenas uma consegue o tecido por meio de doação.
Daí surge a proposta de desenvolver córneas produzidas em impressoras 3D. Recentemente, médicos israelenses realizaram o primeiro transplante de uma córnea bioimpressa, combinando células humanas e materiais de sustentação para criar uma estrutura o mais próxima possível da natural. A voluntária, de 70 anos, recuperou a visão no olho operado. O caso faz parte de um estudo-piloto com dez a quinze pacientes, que avalia segurança, integração do implante e ganho visual. “Um dos principais pontos de atenção é a resposta do organismo”, explica o oftalmologista Luiz Brito, do H.Olhos, da Rede Vision One. Como o tecido bioimpresso tem características próprias, o corpo pode reagir de forma diferente em relação à córnea doada, exigindo ajustes na medicação para evitar rejeição.
No extremo mais futurista desse conjunto de inovações surgem os chamados olhos biônicos. Até o bilionário Elon Musk entrou nessa corrida. Uma de suas empresas, a Neuralink, anunciou o Blindsight, dispositivo que utiliza uma câmera para captar imagens e transmiti-las diretamente ao cérebro por meio de um implante neural. Não é a primeira tentativa — iniciativas semelhantes já fracassaram por problemas de compatibilidade. A engenharia existe, mas integrar esse tipo de tecnologia ao sistema visual humano ainda é um enorme desafio. Resta saber se os altos investimentos resultarão em um equipamento viável e acessível.
O progresso da engenharia biomédica é inegável, mas não oferece uma solução universal. “Por enquanto, essas tecnologias têm indicações muito específicas e resultados variáveis”, pondera o oftalmologista Claudio Lottenberg, colunista de VEJA. “Mesmo quando funcionam, costumam ser caras e exigem infraestrutura altamente especializada.”
Enquanto os holofotes se voltam para as invenções de ponta, os maiores ganhos populacionais continuam vindo de avanços menos vistosos, porém altamente eficazes e replicáveis em larga escala. A própria cirurgia de catarata, hoje realizada com auxílio de laser, é um bom exemplo. “Talvez não seja tão ‘sexy’ quanto genes ou chips, mas é extremamente efetiva”, afirma Schor. Até mesmo os transplantes de córnea convencionais evoluíram: em vez de substituir todo o tecido, os médicos trocam apenas camadas específicas, ampliando o sucesso e reduzindo o risco de rejeição.
Soma-se a isso uma mudança conceitual adotada em vários países, sobretudo na Europa: a chamada interceptação da doença. Em vez de esperar que a catarata cause queda acentuada da visão, muitos pacientes são operados mais cedo, ao primeiro sinal de impacto funcional, como dificuldade para dirigir à noite. “As técnicas estão tão seguras e previsíveis que faz sentido intervir antes”, avalia Schor.
Se é legítimo e animador acompanhar esse desfile de inovações — de terapias gênicas a implantes biônicos —, um cuidado permanece clássico. “O maior ganho ainda vem do diagnóstico precoce e do tratamento no tempo certo”, reforça Lottenberg. A ideia já fazia sentido na época de Monet, mas hoje existem ferramentas concretas para devolver luz à visão.
Publicado em VEJA, 30 de janeiro de 2026 — edição nº 2980.

