Agricultura
Um diagnóstico realista da agricultura familiar
Estudo da FGV Agro revela que o segmento representa 23% do valor bruto da produção agropecuária nacional e destaca a necessidade de políticas públicas diferenciadas para perfis distintos de produtores.Compartilhe: Clique para compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook Clique para compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp Clique para compartilhar no LinkedIn(abre em nova janela) LinkedIn Clique para compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram
BATANEWS/OPR
A agricultura familiar é muito importante e deve ser tratada com respeito e na sua real dimensão, para que informações equivocadas e mitos com a qual tem sido caracterizada não se prestem a fins políticos e a campanhas eleitorais e/ou ideológicas. Um diagnóstico correto é fundamental para nortear políticas públicas eficazes. É comum ouvir que seria responsável por 70% dos alimentos consumidos no País, mas esse dado não é verdadeiro. É o que constata o estudo “Caracterização do Perfil dos Estabelecimentos Enquadráveis no Pronaf e no Pronamp”, realizado pelo Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV Agro), a partir do Censo Agropecuário de 2017.
Engenheiro, empresário e membro da Academia Nacional de Agricultura, João Guilherme Sabino Ometto
Na realidade, o segmento responde por 23% do Valor Bruto da Produção (VBP) da agropecuária nacional, na qual 76,8% dos estabelecimentos são familiares, totalizando 3,9 milhões de unidades. Dois grupos minoritários, enquadrados no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf V) e Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp Familiar), somam 1,16 milhão de estabelecimentos e concentram 83,3% da produção da agricultura familiar.
O maior grupo, o Pronaf B, reúne 53,9% dos estabelecimentos familiares, ou 2,73 milhões. Com renda bruta anual de até R$ 20 mil, respondem por 2,8% do VBP da agricultura familiar, com média de R$ 4.762 por estabelecimento. Seu cultivo é sobretudo estratégia de sobrevivência, complementada por aposentadorias e pensões, que chegam a representar 55,7% da renda total. Concentrados no Nordeste (60%) e no Sudeste (14,7%), esses produtores dedicam-se à criação de bovinos (18,3% do VBP do perfil), à produção de leite (16,5%) e de mandioca (12,2%).
O Pronaf V é composto pelos motores da agricultura familiar. Com renda anual entre R$ 20 mil e R$ 360 mil, reúnem 1,14 milhão de estabelecimentos, principalmente no Sul (35%) e no Sudeste (24,7%). Representam 16% de todo o VBP da agricultura familiar, com forte inserção em cadeias produtivas como leite, frutas tropicais e horticulturas.
Mais acima na escala está o Pronamp Familiar, formado por produtores com renda anual entre R$ 360 mil e R$ 2 milhões. Embora representem apenas 0,5% dos estabelecimentos (24,8 mil), são responsáveis por 13,8% do VBP da agricultura familiar, ou 3,2% de todo o VBP da agropecuária nacional. Suas atividades concentram-se em cadeias de maior escala e integração de mercado, como leite (17,8%), aves (13,1%), bovinos (11%) e suínos (10%). Estão localizados principalmente no Sul (52,7%) e no Sudeste (24,8%).
Além dos três perfis acima citados, há 870 estabelecimentos familiares que ultrapassam a faixa de R$ 2 milhões de renda bruta anual, concentrando 1% do VBP da agropecuária nacional. São produtores altamente capitalizados, com forte acesso a tecnologias e mercados, atuando em cadeias intensivas, como aves (26,7%), suínos (13,8%) e ovos de galinha (11%). Geograficamente, 42,9% estão no Sul, 26,2% no Sudeste e 13% no Centro-Oeste.
Porém, a agricultura familiar, ao contrário do que se propaga, não domina a produção de alimentos básicos da mesa brasileira, como arroz, milho, feijão, ovos e carnes, itens advindos majoritariamente de produtores não familiares, responsáveis por 77% do VBP nacional. Em contrapartida, o segmento ocupa papel estratégico em nichos fundamentais, respondendo por 93,7% do fumo, 80% da mandioca, 62,8% do leite, 62,2% da horticultura, 79% do açaí, 79% do morango, 75,8% da uva e 68,7% do abacaxi.
Outro aspecto muitas vezes ignorado é que os rendimentos das famílias rurais não dependem apenas da atividade agrícola. Em 2017, aposentadorias e pensões injetaram quase R$ 30 bilhões no campo, o que correspondeu a 19,8% da renda do segmento e a 18,6% entre os pequenos produtores que recebem até dois salários-mínimos. Trabalhos externos representaram mais 10,9% dos vencimentos desses grupos. Esse retrato desmonta visões homogêneas e romantizadas. A agricultura familiar é um mosaico: de um lado, milhões de produtores em condição de vulnerabilidade social, cuja renda vem majoritariamente de transferências e empregos fora da propriedade; de outro, segmentos altamente produtivos e integrados a cadeias de valor globais.
Para os 1,3 milhão de estabelecimentos cuja renda não ultrapassa um salário-mínimo, as políticas públicas prioritárias devem estar em políticas sociais, infraestrutura básica e geração de emprego não agrícola. Para os perfis mais produtivos, como Pronaf V e Pronamp, o foco deve ser em crédito ampliado, assistência técnica especializada e acesso a mercados. E, para além da segmentação, é urgente revisar os critérios de enquadramento da agricultura familiar, de modo a incluir quem complementa sua renda em outras atividades, mas enfrenta limitações significativas no campo.
A agricultura familiar brasileira não é uma só, mas muitas. Acredito que, ao adotar políticas públicas baseadas em dados concretos, nosso país consiga potencializar o papel do segmento na segurança alimentar, no desenvolvimento rural e na economia.




