Futebol
Máfia do Apito: veja por que jogos manipulados no Paulista e na Libertadores não foram anulados
Árbitros envolvidos em esquema somaram 29 partidas em 2005; série sobre o escândalo estrou na sexta no sportv e ficará disponível também no globoplay
BATANEWS/GE
O futebol brasileiro viveu o maior escândalo da história há 20 anos, quando um esquema de manipulação de partidas foi revelado. O então árbitro Edílson Pereira de Carvalho foi personagem central na trama, que culminou na anulação de 11 jogos do Brasileirão de 2005. E por que a competição teve jogos repetidos?
A série sobre a Máfia do Apito estreou na sexta no sportv e terá três episódios diários até domingo, sempre às 19h30. Após a exibição, a produção ficará disponível no Globoplay.
Em 2005, Edilson Pereira de Carvalho apitou 12 jogos do Campeonato Paulista, 11 no Brasileirão, um da Sul-Americana e dois na Libertadores. Também envolvido no esquema, o ex-árbitro Paulo José Danelon esteve à frente de 10 partidas do Paulistão e quatro da Série B, todos sob suspeita.
Foram anuladas as seguintes partidas do Brasileirão:
Vasco 0 x 1 BotafogoPonte Preta 1 x 0 São PauloPaysandu 1 x 2 CruzeiroJuventude 1 x 4 FigueirenseSantos 4 x 2 CorinthiansVasco 2 x 1 FigueirenseCruzeiro 4 x 1 BotafogoJuventude 2 x 0 FluminenseInternacional 3 x 2 CoritibaSão Paulo 3 x 2 CorinthiansFluminense 3 x 0 Brasiliense
O Corinthians foi campeão nacional na época. Nos jogos remarcados, somou quatro pontos (venceu Santos e empatou com o São Paulo). Originalmente, havia perdido ambos. Ficou três pontos à frente do Internacional, segundo colocado. Um torcedor colorado recorreu à Justiça Comum, mas desistiu da ação sob risco de o time perder a vaga na Libertadores de 2006.
Por que só o Brasileiro?
Na série, Edilson admite ter ganhado “muito mais dinheiro' manipulando resultados no Paulista do que no Brasileiro. Em partidas como América-SP x Palmeiras e Guarani x Corinthians, ele cobrou R$ 20 mil em cada. Na Libertadores, foi oferecido o valor de R$ 15 mil em Santo André x Palmeiras, jogo em que o resultado combinado não ocorreu. Ele também ganhou R$ 10 mil para beneficiar o Banfield contra o Alianza Lima, primeira partida em que fez parte do esquema. Já Danelon faturou R$ 30 mil por três jogos no estadual.
Durante a produção do documentário, o próprio Edilson levanta o questionamento: por que apenas as partidas do Brasileiro acabaram anuladas? Não houve, na época, comprovação de que todos os jogos apitados por ele tivessem sido manipulados, mas no Brasileiro a decisão foi por refazer cada um deles.
No caso do Paulistão, o torneio acabou meses antes, em abril. Por isso, clubes menores estavam desmobilizados àquela altura. Já na Série B, a competição estava em andamento, mas na segunda fase, o que fez o cenário ser considerado complexo.
— Salvar alguma coisa do campeonato que está em andamento é muito mais fácil. Nós mostrávamos para eles que o esquema de corrupção que foi montado em torno da arbitragem era de tal modo que não conseguia definir "tal jogo foi prejudicado só 70% ou 50%". Deveria ter sido tudo anulado, mas isso extrapola a atuação do Ministério Público. Cabia ao Superior Tribunal de Justiça Dispositiva (STJD). O STJD decidiu que eles iriam anular só os jogos da Série A. Não sei por qual motivo fizeram isso. Essa é uma resposta que a gente também nunca teve — explica José Reinaldo Guimarães Carneiro, promotor de justiça em São Paulo.
A principal explicação é que seria mais simples refazer as partidas na única competição ainda em curso. Além disso, no caso do Campeonato Paulista, por exemplo, cabia ao Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) de São Paulo pedir a mudança, o que não aconteceu.
— A Procuradoria do STJD se limitou a pedir anulação da Série A, não da Série B. Competia ao Tribunal de Justiça Desportiva da Federação de São Paulo anular aqueles jogos (do Paulista). Aí caberia recurso ao STJD. Se eles não anularam, a gente não poderia anular por conta própria. A Libertadores seria na confederação sul-americana e não no STJD. Se comprovado efetivamente que houve a contaminação desses outros campeonatos, os órgãos competentes deveriam ter tomado uma decisão, mesmo o campeonato acabado — disse Luiz Zveiter, ex-presidente do STJD, na série.
— O STJD interferiu e pediu para refazer alguns jogos. O TJD de São Paulo não interferiu e não pediu essa mudança — explicou Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da Federação Paulista de Futebol, também no documentário.
O diretor da série, Bruno Maia, pontua que, além de os campeonatos já terem terminado, havia uma certa urgência para resolver a competição mais importante do país.
— Existiam leituras jurídicas que defendiam essas histórias de que os jogos, uma vez que estavam acabados, o resultado não poderia ser questionado. Ao mesmo tempo, eram regras que diziam que não podiam ser questionadas salvo em caso de ordem maior. Cai na subjetividade se esses casos se justificariam. Eu acho que se preferiu não mexer nesses campeonatos que estavam com as soluções já realizadas — comentou.
— É uma burocracia que não foi atendida totalmente e que relativamente foi confortável. A pressão era tão grande para se resolver o campeonato principal, que de alguma forma todo mundo meio que deixou de lado. Tanto é que muitas pessoas nem se lembram que a Libertadores teve jogos nessa situação. Foi mais pela urgência do tema do campeonato que estava aberto. Acho que a burocracia do futebol, a estrutura jurídica e o fato de ser um caso tão inédito deixaram um sentimento de focar no que era mais importante, e o restante foi ficando para trás — completou.
Os três envolvidos foram denunciados por crime de estelionato e formação de quadrilha. Entretanto, diante da ausência de tipificação na lei e prescrição do crime, não houve a responsabilização criminal de ninguém.
Libertadores
Os jogos apitados por Edilson na Libertadores de 2005 foram Banfield 3 x 2 Alianza Lima, em 23 de fevereiro, e Santo André 2 x 1 Palmeiras, em 19 de abril. A competição se encerrou em 14 de julho, e o esquema foi revelado em 23 de setembro. O campeão naquele ano foi o São Paulo. A Conmebol acabou lavando as mãos na situação, já que o torneio havia terminado.
Na época, a Fifa não quis se envolver no assunto e deixou a cargo das entidades locais. Se o jogo na Argentina tivesse sido anulado, o Banfield ficaria com oito pontos em sua chave, podendo ainda ser alcançado pelo Alianza, que não se classificou às oitavas. A equipe argentina foi até as quartas, quando caiu para o River Plate. No jogo do Palmeiras, a aposta não se concretizou.
— O árbitro foi afastado pela CBF e, por consequência, está afastado da Conmebol. Na Libertadores, já ouvi suspeitas e rumores de jogos manipulados, mas é a primeira vez que aparece um caso comprovado. O jogo não deve ser anulado. Mas é um fato muito recente. A Conmebol irá discutir o assunto mais adiante. Tudo tem o seu momento — disse Nestor Benítez, porta-voz da Conmebol, à "Folha de S. Paulo" em setembro de 2005.
Jogos apitados por Edílson Pereira de Carvalho em 2005:
Libertadores
Banfield 3 x 2 Alianza LimaSanto André 2 x 1 Palmeiras
Copa Sul-Americana
Juventude 1 x 3 Cruzeiro
Campeonato Paulista
Marília 1 x 0 CorinthiansMogi Mirim 2 x 4 SantosItuano 1 x 0 União BarbarensePortuguesa Santista 1 x 0 PalmeirasSantos 3 x 0 CorinthiansPalmeiras 3 x 1 SantosSão Caetano 2 x 2 Internacional-SPAtlético Sorocaba 0 x 2 PortuguesaAmérica-SP 4 x 1 PalmeirasGuarani 0 x 2 CorinthiansSão Paulo 1 x 2 Ponte PretaUnião São João 1 x 3 União Barbarense
Jogos apitados por Paulo José Danelon em 2005:
Campeonato Paulista
Atlético Sorocaba 0 x 0 Portuguesa SantistaPaulista 4 x 1 São CaetanoSantos 0 x 0 GuaraniMarília 2 x 2 ItuanoCorinthians 3 x 0 Ponte PretaItuano 1 x 4 PalmeirasGuarani 1 x 1 Atlético SorocabaPortuguesa Santista 1 x 0 Santo AndréPortuguesa Santista 0 x 1 União São JoãoMarília 1 x 1 Santos
Série B
Paulista 4 x 0 GuaraniPortuguesa 0 x 4 ItuanoGuarani 2 x 1 Santo AndréItuano 2 x 1 Marília
A máfia do apito
Em 28 de setembro de 2005, a revista "VEJA" revelou que dois árbitros tinham conluio com empresários para fraudar resultados de jogos e lucrar com apostas. Um grupo que era dono de bingos em São Paulo e Piracicaba atuava junto a Edílson Pereira de Carvalho — então pertencente ao quadro da Fifa — e Paulo José Danelon operavam para manipular partidas do Campeonato Brasileiro, da Libertadores e do Paulista. Nagib Fayad, o “Gibão', foi apontado como mentor da Máfia do Apito.
Ficha técnica da série
Produção: Bruno MaiaProdução: Executiva Carolina PernisaRoteiro: Victor Hugo Fiuza/Bruno MaiaTrilha Sonora Original: Lucas Vasconcellos/Bruno MaiaEdição (por EP): EP 01 Leonardo Gouvea/Renato Itaboray/Fred Bahia; EP 02 Leonardo Gouvea; EP 03 Juliane Westin/Arthur FrazãoDireção de produção: Carolina PernisaDireção de Fotografia: Tiago RiosDireção e Criação: Bruno Maia





